Com dificuldade para retomar força em segmentos do eleitorado que historicamente o apoiam, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ainda não conseguiu popularizar entre os mais pobres a narrativa de “justiça tributária” que virou um dos principais motes do governo. Dados inéditos da última pesquisa Genial/Quaest mostram que os brasileiros menos informados sobre a ideia são aqueles que seriam mais beneficiados por ela. O bom sinal para Lula é que a agenda encontra respaldo popular, o que indica o potencial dessa abordagem.
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Entre os que ganham até dois salários mínimos por mês, apenas 32% ficaram sabendo da causa, menos da metade dos 67% que não sabem do que se trata. Os números crescem de acordo com as faixas de renda: 47% a 53% no segmento dos que recebem entre dois e cinco salários, 53% a 46% no dos entrevistados que ganham acima de cinco salários. Somente os mais ricos, portanto, conhecem mais do que desconhecem o discurso do governo.
Se representam uma dificuldade comunicacional de Lula com esses estratos, os números despontam também como caminho que o governo pode seguir. Isso fica evidente quando os entrevistados respondem se os mais ricos deveriam pagar mais impostos para ajudar os mais pobres.
Todas as faixas de renda são simpáticas à lógica distributiva na tributação, o que colabora para o resultado de 63% a favor no cenário geral. O aval a ela, no entanto, aumenta entre os de menor renda, que registram 68% de menções favoráveis. O percentual cai para 60% na faixa seguinte e vai a 58% na mais abastada. Há, então, uma inversão: apesar de pouco informados, os de menor renda são os que mais endossam o mote do governo.
— Essa é uma agenda que tem enorme potencial para produzir representatividade, identidade com o eleitor. Se vier num formato de polarização, de “ricos contra pobres”, acho que o efeito será menor; se vier como uma defesa específica de posicionamentos, tem potencial maior — avalia o CEO da Quaest, Felipe Nunes. — Se o caso das tarifas de Trump serviu para abrir a cabeça do público médio, o debate sobre justiça tributária tem total potencial para virar gatilho de mudança de opinião sobre o governo como um todo.
A opinião de Nunes sobre o discurso divisivo de “ricos contra pobres” é embasada pelos dados da pesquisa. Apenas 38% consideram que apostar no bordão é correto, já que “chama atenção para os privilégios de alguns”. A maioria, 53%, avalia que “cria mais briga e polarização no país”.
— As pessoas concordam que os ricos deveriam pagar mais impostos, mas não concordam com a contraposição pública de ricos contra pobres — observa Nunes.
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Assim como nos recortes por renda, a leitura por regiões evidencia a contradição. Principal reduto do presidente, o Nordeste é onde menos se sabe sobre a bandeira da justiça tributária (35%), mas é por lá que o argumento de tributar o “andar de cima” para aliviar quem mais precisa recebe maior adesão (73%).
A principal medida do governo a fim de promover a justiça tributária é a isenção do imposto de renda para quem ganha até R$ 5 mil, compensada pela cobrança de uma alíquota de quem ganha acima de R$ 50 mil. O projeto já foi aprovado pela comissão especial da Câmara que analisa o texto.
É consenso que o tarifaço de Donald Trump contra o Brasil teve papel mais decisivo para a melhora na aprovação de Lula do que o discurso de justiça tributária na última pesquisa. Percebe-se, inclusive, que a leve recuperação do governo se deu por causa de segmentos que não são suas fortalezas tradicionais. A maior oscilação positiva regional foi no Sudeste, enquanto o Nordeste se manteve estável. O mesmo aconteceu na leitura por renda, com os eleitores da faixa intermediária, e não os mais pobres, registrando a principal variação pró-petista.