Edward Rukidi Kijanangoma Nyabongo I, de 56 anos, será coroado rei do reino de Tooro, em Uganda, em meio a uma disputa dentro da família real sobre quem deveria ocupar o trono. Conhecido no país como contador de histórias e por uma carreira de mais de duas décadas como apresentador e editor de televisão, ele foi escolhido pelo comitê de 21 membros do clã Babiito após a morte do rei Oyo Nyimba Kabamba Iguru Rukidi IV, no mês passado.
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Oyo morreu aos 34 anos, vítima de câncer, depois de permanecer 31 anos no trono. Ele havia se tornado rei em 1995, aos 3 anos, após a morte do pai, e ficou conhecido como “rei menino”.
Pela tradição, um filho reconhecido do monarca deveria sucedê-lo. Pessoas próximas à família real afirmam que Oyo deixou um filho pequeno e um testamento determinando que a criança fosse a próxima a ocupar o trono.
O menino, porém, nunca foi apresentado publicamente e não foi reconhecido pelo comitê de sucessão. A rainha Best Kemigisa, mãe de Oyo, defendeu que o testamento deveria ser respeitado. O comitê decidiu de outra forma e afirmou que a escolha de Kijanangoma seguiu os costumes e as tradições de Tooro.
Novo rei teve carreira na televisão
Kijanangoma nasceu em 1970 e cresceu no vilarejo de Kidukuru, em Fort Portal, a cerca de 300 quilômetros de Kampala, capital do país. Depois, deixou a região para estudar e se formou em Comunicação pela Makerere University, em 1999.
Ele trabalhou como apresentador durante mais de duas décadas, inclusive na vizinha Ruanda, e também atuou na Uganda Broadcasting Corporation, emissora estatal do país.
Após ser escolhido rei, disse que pretende usar as conexões construídas ao longo de seus 21 anos como jornalista “para conseguir coisas boas para nosso povo”.
Outro nome considerado para o trono foi o do príncipe George Desmond Kamurasi, capitão e goleiro do South East Dons, clube amador do Reino Unido. O comitê afirmou que ele recusou a oferta por ter outras responsabilidades.
Família contesta escolha
A escolha de Kijanangoma provocou insatisfação entre parentes próximos de Oyo. Depois da leitura do testamento, a rainha Best Kemigisa classificou a decisão como o “anúncio de um segundo rei”.
— Como mãe, isso foi extraordinariamente doloroso — afirmou Kemigisa.
Ela também disse que as celebrações do novo monarca aconteciam “a apenas alguns metros de onde estava o corpo do meu filho”.
Posteriormente, Kemigisa afirmou que o filho de Oyo, que estaria no Texas, nos Estados Unidos, deveria retornar para casa. Segundo ela, isso não ocorreu por causa de uma “disputa sucessória tensa e polarizada”.
Em uma publicação no X, ela escreveu: “Nenhuma criança deveria ser colocada em circunstâncias em que retornar à terra natal de seu pai pudesse significar ser envolvida em hostilidade e conflito”.
O ministro da Informação do reino de Tooro, Charles Mwanguhya, apresentou outra posição. Segundo ele, o filho mencionado “não foi apresentado em lugar algum”. Por isso, afirmou existir uma aceitação crescente de que, apesar da tristeza causada pela situação, Oyo não deixou um filho.
Coroa segue linhagem do clã Babiito
Tooro é um dos quatro principais reinos históricos oficialmente reconhecidos de Uganda. O rei deve pertencer ao clã Babiito e, de acordo com fontes do palácio real, vir da linhagem do rei George David Matthew Kamurasi Rukidi III.
Kijanangoma e Oyo eram primos e netos de Rukidi III, apontado como o 11º rei, ou Omukama, de Tooro. Ele governou o reino de 1928 a 1965.
— A coroa passou para uma linhagem diferente dentro do clã governante — afirmou Mwanguhya.
O próprio nome Kijanangoma está ligado à tradição da família. O pai do futuro rei, também chamado Kijanangoma, nasceu no ano em que Rukidi III se tornou rei. O monarca teria dado a ele esse nome, que significa “aquele que vem com o tambor real”.
Coroação começa à meia-noite
A cerimônia envolve práticas tradicionais que começam à meia-noite (horário local). O novo rei percorre cerca de 4 quilômetros até o palácio real oficial de Karuziika, onde acontece a coroação.
Depois, é realizada uma luta simulada para simbolizar que o reinado não é conquistado facilmente. Em seguida, ele recebe a bênção de membros do clã real Babiito e participa de outras cerimônias que representam sua ascensão.
Por fim, Kijanangoma se senta no trono e recebe uma coroa sobre a cabeça, gesto que simboliza sua nova autoridade e posição como rei de Tooro.
Depois de ser formalmente anunciado, Kijanangoma afirmou que o palácio estaria aberto ao povo e disse que seu reinado seria concentrado em unidade e desenvolvimento.
— Peço uma coisa a vocês: eles me deram este título de rei, mas não posso trabalhar sozinho, preciso trabalhar com vocês — afirmou.
Reinos não têm poder político formal
Os reis tradicionais de Uganda não possuem autoridade política formal, mas mantêm influência cultural e uma lealdade significativa nas comunidades que lideram. O país tem quatro principais reinos, sendo Buganda, na região central, o maior e mais proeminente. A capital Kampala fica nessa área.
Os reinos foram abolidos em 1967 e restaurados pelo governo do presidente Yoweri Museveni no início da década de 1990. A justificativa oficial para a restauração foi promover orgulho cultural e unidade nacional. A medida também foi interpretada como uma forma de apaziguar comunidades e estimular lealdade política.
Em meio à disputa em Tooro, o governo apoiou a escolha de Kijanangoma pelo clã Babiito. O procurador-geral Sam Mayanja afirmou que o reino estava autorizado a seguir com a coroação porque não havia uma denúncia formal contra o novo rei.
Museveni tem presença prevista na cerimônia, e seu filho, Muhoozi Kainerugaba, chefe das Forças Armadas, declarou apoio público a Kijanangoma.
“Que tenha um longo reinado”, declarou.
Apresentador de TV será coroado rei em meio a disputa familiar por sucessão em Uganda
