Lula continua vencendo no Nordeste, mas sua votação na região, quando comparada às eleições anteriores, apresenta redução. Não se trata, portanto, de uma perda de votos já observada no pleito de 2026, ainda em curso. O que pode explicar essa trajetória? Uma das hipóteses é a maneira como as campanhas locais têm, ou não têm, colocado Lula em cena.
Há um paradoxo no Nordeste de 2026. O presidente continua muito à frente de Flávio Bolsonaro na região, mas sua imagem aparece pouco no material eleitoral de parte dos políticos que disputam justamente esse eleitorado. Lula mantém vantagem entre os nordestinos, mas aparece pouco nas campanhas de quem busca esses mesmos votos.
Analisamos 6 mil publicações no Instagram de candidatos a governador, senador e deputado federal no Nordeste, coletadas entre 12 e 19 de setembro de 2026. A cobertura de governadores e senadores foi integral. Entre os candidatos a deputado federal, utilizamos uma amostra estratificada: aproximadamente 50% das candidaturas do PT e do PL em cada estado e 10% das candidaturas dos demais partidos, distribuídas por estado e campo presidencial, com seleção pseudoaleatória.
As menções a Lula foram identificadas nas legendas, excluindo hashtags isoladas e ocorrências sem contexto político. O engajamento corresponde à soma de curtidas e comentários disponíveis no momento da coleta.
O que os dados mostram
Entre candidatos a governadores e senadores, Lula foi citado ou apareceu em 19% das publicações na Bahia, 18% no Rio Grande do Norte, 17,2% no Ceará e 16,7% no Maranhão. Em Pernambuco, o percentual caiu para 4,3%; em Alagoas, para 2,4%. Na Paraíba, não houve nenhuma menção nas 281 publicações observadas.
Flávio Bolsonaro ou Jair Bolsonaro também apareceram de forma desigual: em 7,4% das publicações em Sergipe, 4,6% no Ceará e 2,6% na Paraíba.
Nas campanhas para deputado federal, encontramos outro contraste. As publicações do PT que mencionaram Lula tiveram média de 429 interações e mediana de 260. No PL, as que mencionaram Flávio Bolsonaro ou Jair Bolsonaro registraram média de 3.229 interações e mediana de 976.
Entre as candidaturas majoritárias, a diferença também aparece. No Ceará, as publicações que mencionaram Flávio ou Bolsonaro alcançaram média de 28,7 mil interações. A maior média estadual observada para Lula foi de aproximadamente 7,3 mil, em Pernambuco.
Esses números medem frequência de menções e repercussão nas redes, e não intenção de voto. O engajamento também varia conforme o tamanho das redes, o perfil dos candidatos e o conteúdo das mensagens.
Há diferenças importantes entre os estados. Na Paraíba, por exemplo, Lula não apareceu em nenhuma das 281 publicações analisadas de governadores e senadores. Em Pernambuco, João Campos recebeu apoio explícito do presidente, mas apenas um de seus 40 posts analisados até 17 de setembro mencionava Lula.
O dado central é que a imagem de Lula circula de maneira muito desigual nas campanhas locais.
A geografia do voto e a geografia da campanha
Uma possibilidade é que a preferência presidencial e a estratégia das eleições locais não precisem coincidir. Um candidato pode disputar o voto de eleitores que preferem Lula sem fazer da associação com o presidente o centro de sua comunicação.
Temas locais, imagem pessoal e a própria disputa pelo cargo podem ocupar o primeiro plano. Também pode haver uma escolha estratégica de aproximar-se do eleitor lulista sem restringir a candidatura a esse campo.
É possível que parte das candidaturas esteja procurando o eleitor de Lula sem necessariamente mostrar Lula.
A fotografia das redes não permite saber qual dessas explicações pesa mais. Mas revela algo importante: a preferência por Lula na disputa presidencial não se traduz automaticamente em uma exposição equivalente do presidente nas eleições estaduais e proporcionais. É aqui que a geografia do voto se separa da geografia da campanha.
Entre uma liderança nacional e o eleitor existe uma cadeia de mediações: partidos, governadores, senadores, deputados, prefeitos, vereadores e outras lideranças. Cada candidatura decide quanto espaço dar a essas conexões e como apresentá-las ao público.
O lulismo, por sua vez, não se resume ao voto em Lula. Combina identificação política, memória dos governos, políticas sociais, experiências de melhoria das condições de vida, pertencimento regional e percepção de representação.
Essa identificação pode conviver com escolhas fragmentadas: um eleitor pode preferir Lula para presidente e escolher outro candidato para governador, senador ou deputado.
O próprio Nordeste também mudou, com novas gerações no eleitorado, maior presença pública de diferentes grupos religiosos e novas questões, como segurança e costumes. As identidades partidárias já não organizam sozinhas todas as escolhas.
A permanência de Lula como referência eleitoral não significa necessariamente a permanência das mesmas formas de identificação política.
Um lulismo sem a mesma máquina?
A relação histórica entre Lula e as elites políticas da sua coalizão no Nordeste envolveu alianças, reciprocidade eleitoral, acesso ao governo, recursos e coordenação de interesses. Os dados sugerem que essa conexão pode hoje aparecer de forma mais seletiva na comunicação pública.
Aqui está o principal limite da evidência: nosso levantamento mede a presença de Lula nas redes sociais, mas não mede as razões políticas que levam uma candidatura a mencioná-lo ou não.
Para avançar nessa explicação, seria preciso cruzar os dados digitais com alianças, palanques, declarações públicas, propaganda e comportamento eleitoral.
Ainda assim, os 6 mil posts revelam um descompasso: Lula pode manter força na disputa presidencial no Nordeste sem ocupar o mesmo espaço nas campanhas estaduais e proporcionais de seus aliados.
A hipótese que emerge é que parte das elites políticas da coalizão lulista pode estar buscando o eleitor de Lula sem necessariamente querer mostrar Lula.
Lula pode continuar tendo o eleitor. O que a comparação com eleições anteriores mostra é uma mudança na dimensão de sua votação. O que os dados de 2026 mostram é outra coisa: a redução de Lula no material digital de sua coalizão.
* Helcimara Telles é presidente da Associação Brasileira de Pesquisadores Eleitorais (Abrapel) e professora da UFMG
* Robson Silva é mestre em Ciência Política (Unirio) e doutorando em Ciência Política na UFPE
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Artigo: as pesquisas mostram que Lula tem o eleitor do Nordeste, mas quem está fazendo campanha para ele?
