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outubro 7, 2026
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Artigo: as urnas abriram, o futuro ainda não foi escolhido, mas o presente tornou-se um pouco mais visível

Por · outubro 7, 2026
Artigo: as urnas abriram, o futuro ainda não foi escolhido, mas o presente tornou-se um pouco mais visível


Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno com 56,1 milhões de votos, 47% dos válidos. Lula, com 53,9 milhões, chegou a 45,2%. A diferença é importante. Mas talvez não seja o dado mais relevante para compreender o que aconteceu no domingo.
Eleições produzem vencedores e derrotados. Para quem observa a política historicamente, também deixam rastros. Revelam deslocamentos, permanências e transformações muitas vezes escondidos pela velocidade da conjuntura.
É aí que 2026 merece atenção.
Em 2018, a ascensão de Jair Bolsonaro pôde ser interpretada como ruptura. Em 2022, sua permanência eleitoral, mesmo derrotado, mostrou que algo mais duradouro estava em curso. Quatro anos depois, Bolsonaro não está na cédula presidencial, mas seu sobrenome está. E Flávio chega ao segundo turno com mais votos do que o pai recebeu no primeiro turno de 2022.
Não se trata apenas de transferência familiar de votos.
Flávio preservou força nos territórios em que Jair Bolsonaro já havia sido majoritário e avançou sobre áreas anteriormente conquistadas por Lula. Em 714 municípios que deram maioria ao atual presidente em 2022, o candidato do PL terminou à frente neste primeiro turno. Minas Gerais concentra 178 dessas mudanças.
O mapa importa porque a política acontece no território.
É nele que os grandes discursos nacionais encontram igrejas, famílias, associações, empresas, grupos de WhatsApp, redes de amizade e experiências cotidianas. Quando centenas de municípios modificam seu comportamento eleitoral, é insuficiente olhar apenas para a campanha presidencial. Precisamos perguntar o que está mudando por baixo dela.
Há uma questão histórica diante de nós: quando uma conjuntura começa a adquirir duração?
Durante anos falamos em “onda bolsonarista”. Talvez a metáfora tenha se tornado insuficiente. Ondas chegam e recuam. O resultado de 2026 nos obriga a investigar se aquilo que inicialmente interpretamos como acontecimento está adquirindo características de permanência na cultura política brasileira.
Isso não significa considerar 56 milhões de eleitores ideologicamente bolsonaristas. Seria um erro.
O voto em Flávio Bolsonaro reúne motivações distintas: identificação com Jair Bolsonaro, conservadorismo, antipetismo, insatisfação com o governo, economia, segurança pública, religião e escolhas circunstanciais. Uma eleição presidencial agrega interesses e expectativas que não cabem numa explicação única.
Mas uma força política não precisa transformar todos os seus eleitores em militantes para se tornar estrutural. Precisa ser capaz de organizar diferentes insatisfações, expectativas e identidades dentro de uma alternativa política reconhecível.
Talvez seja isso que devamos observar agora. O fenômeno torna-se ainda mais significativo quando retiramos os olhos da disputa presidencial.
O PL emerge das urnas com as maiores bancadas da Câmara e do Senado. A partir de 2027, terá 28 senadores. Esse campo político, portanto, já não depende exclusivamente da capacidade de mobilização de uma liderança.
Há uma passagem importante em curso: da liderança para o movimento, do movimento para a representação e da representação para a institucionalização.
Essa mudança altera também a natureza das tensões que a democracia brasileira terá de administrar.
O Senado participa da confirmação de ministros do Supremo Tribunal Federal, do procurador-geral da República, de dirigentes do Banco Central e de outras autoridades. Também possui competência constitucional para processar pedidos de impeachment de ministros do STF.
As primeiras análises da nova composição mostram um número expressivo de senadores que já manifestaram, em diferentes graus, apoio a processos contra integrantes do Supremo. Isso não significa que esses processos ocorrerão ou serão aprovados. Significa que a correlação institucional de forças mudou.
Democracias não dependem apenas de eleições livres. Dependem também de instituições capazes de reconhecer os limites de seus poderes e administrar conflitos sem transformar divergências em rupturas.
Quando Executivo, Legislativo e Judiciário passam a se perceber reciprocamente como obstáculos a serem removidos, os mecanismos de freios e contrapesos correm o risco de se converter em mecanismos permanentes de confronto.
Mas existe outro número nessas eleições que não deveria desaparecer atrás da polarização.
Mais de 33 milhões de brasileiros não foram votar. A abstenção ultrapassou 21% do eleitorado.
Não podemos transformar esse contingente em um bloco político. Pessoas deixam de votar por inúmeras razões, e seria equivocado interpretar ausência como posição ideológica. Ainda assim, sua dimensão merece atenção.
Ao lado dos 56 milhões que escolheram Flávio Bolsonaro e dos quase 54 milhões que escolheram Lula, existe uma parcela gigantesca do eleitorado que não compareceu.
Talvez a imagem de um país inteiramente mobilizado por dois polos esconda também outro fenômeno: distanciamento, dificuldades concretas de participação, desinteresse ou descrença política que conhecemos pouco.
Há, portanto, mais de um Brasil saindo dessas urnas.
Há o Brasil territorialmente dividido. Lula preservou grande vantagem no Nordeste. Flávio venceu nos quatro estados do Sudeste. Minas Gerais, tantas vezes tratada como síntese eleitoral do país, voltou a revelar deslocamentos importantes.
Há o Brasil das identidades políticas consolidadas na última década. Há o Brasil institucional, no qual uma nova composição do Congresso modifica as relações de força entre Legislativo, Executivo e Judiciário. E há também o Brasil que não compareceu. Compreender 2026 exige olhar para todos eles.
Antes das eleições, discutíamos como redes digitais, inteligência artificial, desinformação e aceleração da circulação de informações estavam transformando as condições em que o eleitor formava sua percepção da realidade.
As urnas acrescentaram outra dimensão ao problema. A infraestrutura digital não produz sozinha 56 milhões de votos. Tampouco a desinformação explica uma eleição. O resultado nos obriga a olhar para algo mais profundo: valores, identidades, experiências sociais e formas de pertencimento político construídos ao longo dos últimos anos.
Por isso, talvez seja insuficiente perguntar apenas quem ganhou ou perdeu. A pergunta historicamente mais interessante é outra: Em que momento aquilo que parecia excepcional começa a fazer parte da normalidade política?
A História trabalha justamente com essa difícil passagem entre acontecimento e duração. Nem toda ruptura se transforma em permanência. Nem toda permanência se torna estrutura. E nenhuma estrutura é eterna.
Mas os sinais deixados pelas urnas de 2026 indicam que o bolsonarismo não pode mais ser compreendido apenas como expressão eleitoral de Jair Bolsonaro. Ele adquiriu representação parlamentar, presença territorial, capacidade de transferência eleitoral e mecanismos próprios de reprodução política.
O segundo turno decidirá quem governará o Brasil. Mas uma questão continuará conosco qualquer que seja seu resultado. Depois de 2018, 2022 e agora 2026, já não basta perguntar como começou o fenômeno que transformou tão profundamente a política brasileira. Precisamos perguntar o que permanece — e por quê.
* Regina Helena Alves da Silva é doutora em História e professora do Programa de Pós-Graduação em História da UFMG
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