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Artigo: eleitor criado por IA já pode servir como 'laboratório' para campanhas. Qual o efeito na democracia?

O eleitor sintético não é só mais uma novidade de campanha. Pode se transformar em um problema para a democracia. A inteligência artificial já está fazendo algo que, até pouco tempo, parecia coisa de filme: criar eleitores que não existem, mas que se comportam como se existissem. Pensam, mudam de ideia e escolhem candidatos. Um […]

Artigo: eleitor criado por IA já pode servir como 'laboratório' para campanhas. Qual o efeito na democracia?


O eleitor sintético não é só mais uma novidade de campanha. Pode se transformar em um problema para a democracia. A inteligência artificial já está fazendo algo que, até pouco tempo, parecia coisa de filme: criar eleitores que não existem, mas que se comportam como se existissem. Pensam, mudam de ideia e escolhem candidatos.
Um experimento da Ipsos no Reino Unido, durante a eleição de 2024, mostra bem o que está acontecendo. Foram criados cinco eleitores artificiais a partir de perfis de eleitores indecisos, com idade, renda, local de moradia e histórico de voto baseados em características reais. Ao longo da campanha, esses eleitores foram expostos a propostas partidárias, discursos e declarações de candidatos.
E reagiram. Mudaram de opinião, desenvolveram preferências e chegaram a uma decisão. Em alguns casos, uma declaração de um candidato local teve mais efeito do que um grande discurso nacional. Três dos cinco eleitores artificiais escolheram o candidato que acabou vencendo em seus distritos.
Seria fácil concluir que a máquina já consegue copiar o eleitor real. Não consegue. Uma persona sintética não tem vida própria. Não tem família, contas para pagar, memória, relações pessoais, experiências ou contradições. Ela não é humana.
Mas o experimento mostra algo talvez mais importante: já é possível simular determinadas reações políticas. Já é possível testar uma mensagem antes de colocá-la diante de eleitores de verdade.
E é aqui que a lógica das campanhas começa a mudar. A pesquisa eleitoral procura conhecer o eleitor, saber o que ele pensa. O eleitor sintético permite experimentar como ele poderia reagir, mesmo que ele não exista.
Uma campanha pode imaginar diferentes tipos de eleitor, submetê-los a discursos e propostas e observar o que gera identificação, rejeição ou mudança de opinião. A inteligência artificial deixa de ser apenas uma ferramenta de análise e passa a funcionar como um laboratório político.
A diferença é importante. Na pesquisa tradicional, o eleitor fala. Na simulação, o algoritmo fala por ele. Isso não significa que as pesquisas eleitorais estejam com os dias contados. Muito menos que uma persona criada por inteligência artificial possa ser considerada equivalente a uma amostra de pessoas reais. Pelo contrário. O experimento mostra justamente o limite dessa tecnologia, pois eleitor sintético depende de dados reais para funcionar.
Quando o modelo passa a se alimentar daquilo que ele mesmo produziu, a qualidade cai e a simulação vai se afastando do comportamento que pretendia reproduzir. Por isso essas personas precisam ser reabastecidas com frequência por dados de gente de verdade. E ainda assim restam os imprevistos. Uma crise econômica, um escândalo, uma declaração política fora da curva… A vida real muda o tempo todo e cria situações que nunca foram mapeadas. O algoritmo não simula o que não conhece.
Além disso, o eleitor sintético é construído a partir das escolhas de quem o cria. Quais dados entram no modelo? Quais características definem aquela persona? Que informações ela recebe? Em que ordem? Que comportamentos são considerados possíveis? Cada uma dessas escolhas pode alterar o resultado.
O eleitor sintético não é neutro. É uma construção sobre o que alguém imagina que um eleitor seja. E, quanto mais sofisticada for essa construção, maior pode ser o poder de quem está por trás dela.
Imagine uma campanha capaz de criar milhares de perfis artificiais, testar discursos e descobrir, antes de ir para a rua, qual mensagem aumenta ou reduz a intenção de voto em cada grupo. Em vez de esperar o eleitor dizer o que pensa, seria possível testar antecipadamente o que pode fazê-lo mudar de ideia.
O eleitor deixa de ser apenas alguém a ser convencido. Torna-se também objeto de experimentação.
É aí que a questão fica mais complexa para a democracia. Uma democracia depende de escolhas livres, mas também da possibilidade de saber quem está falando, quem está tentando influenciar e com que finalidade.
Quando algoritmos começam a produzir identidades, opiniões e consensos que parecem ter surgido espontaneamente da sociedade, mas foram previamente modelados, torna-se mais difícil distinguir vontade popular de manipulação.
O problema não está na inteligência artificial em si. Ela pode ajudar a compreender melhor o país, testar hipóteses e mapear comportamentos. O problema começa quando deixa de ser utilizada para compreender o eleitor e passa a ser utilizada para descobrir, em escala e de forma pouco visível, como fazê-lo agir.
A assimetria de poder também muda. De um lado, estão aqueles que têm dados, algoritmos e capacidade computacional. Do outro, milhões de pessoas que podem sequer saber que seus comportamentos estão sendo modelados.
O maior risco não é a máquina votar no lugar do eleitor. É o eleitor não conseguir mais distinguir o que pensa daquilo que foi produzido para parecer que ele pensa.
Quando algoritmos passam a antecipar, testar e induzir comportamentos políticos, a questão deixa de ser apenas tecnológica. Torna-se uma questão de poder. E, no limite, de democracia.
A democracia não é apenas ter direito ao voto. É poder escolher, tanto quanto possível, a partir de uma vontade que seja realmente sua.
O desafio das próximas eleições não será apenas separar o verdadeiro do falso na internet. Será também distinguir a vontade que nasce da sociedade daquela que foi modelada para parecer que nasceu dela. É nesse ponto que a inteligência artificial deixa de ser apenas inovação tecnológica e passa a colocar em jogo algo muito maior: a capacidade de uma sociedade se reconhecer na própria urna.
* Helcimara Telles é presidente da Associação Brasileira de Pesquisadores Eleitorais (Abrapel) e professora da UFMG
* Dhionathan Jobim é engenheiro de software e pós-graduando em Engenharia de Dados
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BRCOM