O eleitorado feminino continua sendo o principal e mais disputado segmento nas eleições de 2026. Segundo o TSE, as mulheres representam 52,8% dos eleitores aptos a votar, 9 milhões de eleitoras a mais em relação aos homens.
Datafolha: Flávio Bolsonaro avança entre os mais pobres, enquanto Lula melhora desempenho junto aos mais ricos
Essa superioridade numérica torna o voto feminino decisivo na corrida presidencial e explica o esforço dos principais candidatos em conquistá-lo, seja por discursos voltados a temas de interesse das eleitoras, seja pela busca de maior aceitação nesse público.
Paralelamente, a participação feminina nas candidaturas registrou um avanço tímido: passou de 33,8% em 2022 para 34,8% em 2026 (cerca de 7,1 mil candidatas a todos os cargos em aproximadamente 20,5 mil registros). O aumento é real em termos percentuais, mas, em números absolutos, o total de candidatas caiu, por conta da redução geral de registros.
Mas quantas mulheres estão, de fato, disputando eleições no Brasil? A resposta depende de uma escolha que mudou nos últimos anos: estamos falando de sexo, de gênero ou de identidade de gênero?
Até 2018, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) perguntava o sexo dos candidatos. A partir de 2020 substituiu esse campo por “gênero”. Em 2024, incluiu pergunta sobre identidade de gênero. São categorias diferentes e a escolha de qual delas usar altera o retrato da participação política.
Os números de 2026 deixam o problema visível. Entre as 107 candidaturas que se declararam transgênero, 95 — quase 89% — foram classificadas pelo TSE como do gênero feminino. Pela definição do próprio tribunal, uma pessoa transgênero é aquela cuja identidade de gênero não corresponde ao sexo. Assim, entre as candidaturas registradas como femininas há pessoas cujo sexo é masculino.
Pela variável “gênero”, essas candidaturas entram na conta das mulheres. Pela variável “sexo”, aparecem como candidaturas masculinas. O resultado é um paradoxo estatístico.
Apesar de serem eleições para cargos diferentes, é interessante comparar a composição das candidaturas em 2024 e 2026, os únicos pleitos para os quais existe registro da identidade de gênero dos candidatos. No universo total, a proporção de candidatos do sexo masculino caiu de 65,72% em 2024 para 64,95% em 2026. Mas, entre as candidaturas trans, a participação do sexo masculino aumentou de 77% para 88,79% no mesmo período. Estas são exatamente as candidaturas trans classificadas como do gênero feminino pelo TSE.
O crescimento de candidaturas do sexo masculino entre as duas eleições se deu, portanto, exclusivamente na categoria do gênero feminino: a participação de candidaturas trans nessa categoria passou de 0,26% para 1,30%. Na categoria de gênero masculino, o aumento de candidaturas trans foi de 0,04% para 0,09%. Em termos de pontos percentuais, o aumento foi aproximadamente 22 vezes maior na categoria de gênero feminino, o que demonstra que não se trata de um aumento geral das candidaturas trans e sim de um aumento de candidaturas trans do sexo masculino.
Isso não é apenas uma curiosidade dos dados eleitorais. Desde 2018, “gênero” é a referência usada pelo TSE para aplicar as cotas eleitorais destinadas às mulheres. A lei, porém, fala em reserva de candidaturas por sexo. A interpretação dada pelo TSE à lei pode afetar o tamanho real do grupo que as políticas de incentivo pretendem alcançar — e também a distribuição dos recursos públicos destinados a candidaturas femininas.
Há ainda um problema de série histórica. Quando o sistema do TSE apresenta eleições anteriores a 2020 sob a rubrica “gênero”, coloca na mesma linha informações coletadas de maneiras distintas, dado que até 2018 o dado coletado era “sexo”. Se queremos saber se a participação feminina aumentou ou diminuiu, precisamos ter certeza de que estamos comparando a mesma coisa.
Não se trata de negar a identidade de gênero de ninguém. Trata-se de não misturar categorias diferentes quando o objetivo é medir desigualdades políticas específicas.
A solução é simples: registrar as informações separadamente. O TSE pode coletar o sexo do candidato e, ao mesmo tempo, permitir a declaração de identidade de gênero. Uma informação não precisa apagar a outra.
Isso permitiria responder perguntas diferentes sem confundi-las: quantas mulheres concorrem? Quantas pessoas trans são candidatas? Como essas candidaturas se distribuem? E como esses números mudam de uma eleição para outra?
Em política, aquilo que não é bem medido também pode deixar de ser bem compreendido. Se queremos saber se as mulheres estão conquistando mais espaço nas urnas, precisamos primeiro ter certeza de quem está sendo contado como mulher.
* Clarice Saadi é economista pela PUC-Rio e mestre em Desenvolvimento Econômico pela Sciences Po Paris. É associada à Associação Brasileira de Pesquisadores Eleitorais (Abrapel).
Initial plugin text
Artigo: quantas mulheres estão realmente disputando as eleições de 2026?
