Em 2003, Antônio Fagundes escreveu e protagonizou no teatro a comédia “Sete minutos”. No texto, um ator impaciente abandona o palco por conta das interrupções constantes do público. São toques de celular, alarmes, conversas paralelas e até um espectador da primeira fila que decide tirar os sapatos, reclinar-se na poltrona e descansar os pés na borda do palco. Uma coleção de inconveniências que Fagundes já testemunhara naquela época, aos 37 anos de carreira. Duas décadas depois…
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— Parece que as coisas não mudaram muito — diz o ator, lembrando que, ano passado, “Sete minutos” virou livro pela Editora Cobogó. — Tudo o que acho sobre essas inconveniências eu coloquei neste texto.
O veterano parece ter razão. Uma busca rápida nas redes sociais leva a reclamações generalizadas sobre o comportamento de parte do público nas plateias dos cinemas e dos teatros. No caso de Fagundes, algumas das controvérsias chegaram até os tribunais. Espectadores que foram impedidos de entrar em algumas de suas peças porque se atrasaram tentaram processá-lo. Até o momento, o ator ganhou todas as causas.
Em 2023, numa apresentação de “Bárbara”, no Teatro Prio, no Rio, foi a vez de Marisa Orth. Ao perceber que uma espectadora a filmava em cena, a atriz parou o espetáculo e exigiu que a mulher desligasse o aparelho: “Aqui não, queridinha!”, disse. Ela obedeceu.
— Quando acende uma luz na plateia, nosso olhar vai direto para lá. A pessoa fica parecendo uma Nossa Senhora, anunciada, toda iluminada… Do palco, percebemos tudo: dos alarmes dos relógios digitais às brigas pelo lugar — desabafa a atriz em cartaz com “Fica comigo esta noite”, no Teatro Casa Grande, no Rio. — O teatro precisa ser um pacto de respeito entre elenco e público. Se não for assim, a experiência falha.
O que não falha mesmo são as baterias dos tais celulares. Que o diga Mateus Solano, que viralizou mês passado ao derrubar o telefone de um espectador que também tentava gravar a apresentação do monólogo “O figurante”, em turnê pelo país.
— Eu tenho parado muito o meu espetáculo para pedir que desliguem o celular. E olha que, antes da peça, uma gravação pede a mesma coisa quatro vezes — conta o ator.
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Na semana passada, a atriz Natália do Vale, em cartaz no Teatro Vannucci, no Rio, com “A sabedoria dos pais”, resolveu improvisar diante de um celular que tocou na plateia no meio de uma cena de restaurante. Ela perguntou ao personagem de Hérson Capri, com quem divide a cena: “É o seu celular, Mauro?” A plateia riu.
— Isso não atrapalha só o ator, mas também o espectador. Não aguento quando vou ao cinema e a pessoa do lado fica vendo mensagens de texto. Algumas pessoas simplesmente não aguentam ficar longe das redes sociais durante o tempo de um filme — diz.
É justamente no conceito de tempo que o ator Clayton Nascimento acha que reside a possível resposta para essa certa agitação de parte do público.
— A gente nota que depois de algum tempo as pessoas pegam os celulares para avaliar quanto tempo estão ali, se vale a pena estar ali… É um certo imediatismo no consumo da obra que me parece estar atrapalhando — diz ele, que leva o monólogo “Macacos” para o palco do Teatro Adolpho Bloch, no Rio, nos dias 29 e 30 deste mês.
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Um dos momentos mais quentes da temporada deste ano foi a viralização do vídeo em que o público do espetáculo “Wicked”, no Teatro Renault, em São Paulo, canta acompanhando o elenco. Ao ganhar as redes, o trecho gerou discussões acaloradas sobre qual seria o comportamento adequado à plateia de um espetáculo musical.
— Uma coisa é reagir a um momento de emoção proposto pelo espetáculo, outra coisa é uma reação que não tem a ver com a proposta porque isso não atrapalha somente os atores, mas também quem está lá para assistir ao espetáculo — diz Eduardo Borelli, um dos protagonistas do musical “Hair”, no Teatro BTG Pactual, em São Paulo.
Borelli reconhece, no entanto, que alguns musicais são tão populares que acabam “furando a bolha” e provocam mais o público a uma interação. Esta também é a opinião da atriz e cantora Gottsha, que fez parte do elenco da montagem brasileira de “Mamma mia”, em 2023.
— Não tem como evitar a cantoria do público quando as músicas são tão populares como as do Abba. Tinha gente que cantava as canções todas em inglês e tudo bem, não me incomoda — diz a atriz que interpreta a Madre Superiora no musical “Mudança de hábito”, em cartaz no Teatro Multiplan, no Rio. — Fico sempre tão concentrada que é difícil me atrapalharem.
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Marcelo Souza, intérprete da drag queen Suzy Brasil, também está na turma dos que não se incomodam muito no palco do teatro.
— Venho das boates, né? E na boate tem de tudo, a pessoa que já bebeu um pouco demais, outra que invade o palco… e como a Suzy é meio louca, se alguém fizer algo desagradável ela fala na hora (risos) — diz. — Fico mais incomodado é como espectador. Detesto quando vou ao cinema e tem alguém perto que fica “comentando” o filme em voz alta com a pessoa ao lado – diz o ator.
Falando em cinema, quem gosta de cantar nos musicais tem uma boa notícia. A segunda parte da versão para as telonas de “Wicked”, que estreia na quinta-feira, 20 de novembro, terá algumas sessões batizadas como “sing along”. Isso quer dizer que a cantoria do público, nestas sessões, estará totalmente liberada.
As sessões “sing along” são a regra também nas exibições do cult “The rock horror picture show” (1975), que tem um público fiel que não apenas canta junto como também se veste como os personagens do filme de Jim Sharman, de volta ao cartaz esta semana.
Ainda que um certo comportamento inadequado tenha ficado mais frequente nas plateias, Marcelo Souza também ressalta que o teatro tem se popularizado nos últimos anos, atraindo uma nova audiência às salas.
— É preciso entender que o teatro deixou de ser um entretenimento exclusivo das elites. Tem um público novo aí e o teatro é para todos — reforça o ator que encarnará Suzy no espetáculo “Uma noite horripilante”, na quinta-feira no Teatro Claro Mais, em Copacabana; e nos dias 6 e 7 de dezembro no Teatro Miguel Falabella, no NorteShopping.
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A experiência do ator e produtor Armando Babaioff com a peça “Tom na fazenda”, ao longo de oito anos, reforça a hipótese de que um novo público tem tido mais acesso aos teatros. E que cabe à classe ajudar na formação desta nova audiência.
— Percebo que “Tom na fazenda” é a primeira peça de muita gente. Por isso, acho que também faz parte do nosso trabalho educar as pessoas a como se comportar naquele espaço. Tem gente que ri na hora errada, mas qual é a “hora errada”? — afirma o ator que celebra as 600 apresentações do espetáculo que cumpre temporada até 3 de dezembro no Teatro Vivo, em São Paulo.
Miguel Falabella, o astro que está na novela “Três Graças” e em cartaz com Marisa Orth em “Fica comigo…”, também aposta na educação do público como uma solução para essa inquietação na plateia.
— A gente aprende tanta coisa, não é? Aprendemos a não fumar em aviões, o que era normal para a minha geração. Podemos aprender também a etiqueta da plateia.
AS DICAS DOS ARTISTAS PARA NÃO ATRAPALHAR
- ANTONIO FAGUNDES: “Leia o meu livro ‘Sete minutos’. É um divertido manual de bom comportamento tanto para o público quanto para os artistas.”
- ARMANDO BABAIOFF: “Não compartilhe posts de quem filmou o espetáculo sem autorização. Não incentive esta invasão de privacidade.”
- CLAYTON NASCIMENTO: “Seja cordial. Não adianta dizer que ‘saiu da peça transformado’ e não cumprimentar a pessoa da limpeza, os funcionários, o bilheteiro…”
- EDUARDO BORELLI: “Se você chegou atrasado, sente-se no primeiro assento disponível. Não crie tumulto.”
- GOTTSHA: “Não comente com o vizinho de poltrona se o ator ‘emagreceu’ ou ‘engordou’ durante a peça. A gente ouve tudo.”
- MARISA ORTH: “Não fique abrindo eternamente o saquinho de amendoim. Parece um filme de suspense: ‘até quando essa pessoa vai abrir esse pacotinho!!??’”
- MATEUS SOLANO: “Respeite as regras do espaço onde você está. Simples assim.”
- MIGUEL FALABELLA: “Sorria para a pessoa que estiver sentada ao seu lado. A experiência do teatro é coletiva e curativa.”
- NATÁLIA DO VALE: “Aproveite o tempo da peça ou do filme para fazer um detox: desligue TUDO.”
- SUZY BRASIL: “Se você é mal-humorada e não ri de nada, não senta na primeira fila não, amiga. Fica lááá atrás, tá bem?

