O protagonismo da segurança pública nas últimas semanas, ao qual foi atribuída a estagnação do presidente Lula nas pesquisas depois de meses de crescimento, reacendeu o debate em torno de quão suficiente é a economia para garantir boa aprovação e votos. Com indicadores econômicos positivos, o petista vinha recuperando o fôlego depois da crise que vivenciou no começo do ano, mas agora precisa lidar com um tema que não costuma ser central no dia a dia presidencial.
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É consenso entre analistas que, de uns tempos para cá, discussões alheias à economia passaram a aparecer com mais frequência em campanhas nacionais — do aborto inserido pelo tucano José Serra nos debates de 2010 às diversas pautas morais evocadas por Jair Bolsonaro nos últimos anos. Há dúvidas, contudo, quanto ao potencial desses temas de substituir a economia como principal motor de candidatos vitoriosos e presidentes bem avaliados. Cunhado na década de 1990 por James Carville, estrategista do democrata americano Bill Clinton, o bordão “É a economia, estúpido!” virou uma máxima da política mundial desde então.
Hoje, Lula se gaba de ter o desemprego na mínima histórica de 6,2%. A inflação também está próxima da meta, com 4,7% no acumulado de 12 meses, a despeito de o preço dos alimentos ter sido uma das causas na piora da avaliação do presidente no início do ano — somada à chamada crise do Pix. Mesmo assim, o petista ainda pena para fazer a aprovação superar numericamente a desaprovação, o que não ocorre desde dezembro do ano passado se considerada a série da Genial/Quaest. Hoje, o saldo negativo é de três pontos.
Professor do Iesp-Uerj, o cientista político Fernando Guarnieri observa que passou a existir no país uma “arena política bidimensional”, termo que cunhou em artigo com Argelina Figueiredo, também do Iesp, na eleição de 2022.
— Há essa arena política bidimensional, da economia e a dos outros temas, como “lei e ordem” e os costumes. Geralmente, a de economia favorece a esquerda, enquanto a de costumes favorece a direita — aponta.
No Rali, agregador de pesquisas do GLOBO em parceria com o Instituto Locomotiva, é possível cruzar o desempenho histórico de presidentes com indicadores econômicos. A análise da economia em anos eleitorais dá pistas do resultado que emergiu das urnas. Quando o Brasil havia enfrentado algum problema grave de inflação ou desemprego nos meses anteriores, os presidentes não foram bem-sucedidos em se reeleger ou emplacar sucessores.
Foi o que aconteceu com Michel Temer em 2018 e Bolsonaro em 2022. O emedebista bateu recordes de desaprovação ao comandar um país afundado na crise econômica e política iniciada no governo Dilma Rousseff. Na eleição, colocou o aliado Henrique Meirelles, que recebeu 1,8% dos votos. Quatro anos depois, Bolsonaro até viu a inflação recuar perto da disputa, mas, no contexto da pandemia, ela havia chegado a dois dígitos no ano anterior e deixado os preços elevados, cenário explorado pela campanha de Lula.
Em 2002, Fernando Henrique Cardoso também foi prejudicado pela deterioração da economia no segundo mandato. Antes, chegou ao Planalto embalado pelo Plano Real na eleição de 1994 e se reelegeu em 1998.
— A eleição vai ser de novo, em grande medida, em torno da economia: inflação, crescimento, emprego. Esse é o eixo do debate. Não acho que a segurança vá ter centralidade, embora tenha assumido um relevo conjuntural agora — avalia o sociólogo e cientista político Antonio Lavareda, fundador do Ipespe. — Quando falamos de economia, não são só números. É a vida das pessoas. É a diferença de ter mais ou menos comida na mesa, de botar o filho numa escola melhor, de tirar ou não férias. Até quando o evangélico vai à igreja e tem mais ou menos dinheiro para o dízimo, é economia.
Depois da operação mais letal da história do país, tocada pela polícia do Rio e que resultou em 121 mortes, a violência marcou 38% na pesquisa Genial/Quaest como principal preocupação dos entrevistados. O tema já encabeçava antes a lista, mas subiu oito pontos de um mês para outro. Depois de meses de discurso desalinhado num contexto que teve o tarifaço dos Estados Unidos e o julgamento de Bolsonaro, a direita se agarrou à pauta para retomar o vigor e emparedar Lula.
Fato é, argumenta Fernando Guarnieri, que a ideia de que apenas um tema possa nortear a eleição ficou no passado. Sobretudo porque de 2014 para cá as disputas presidenciais tiveram resultados apertados.
— Como as eleições estão mais competitivas, outras coisas (além da economia) podem definir. Hoje, pequenos efeitos fazem diferença. A ideia de um tema único, como Fernando Henrique com a inflação ou Lula contra a pobreza, acabou — afirma.

