Quando as aulas na escola pública onde estava matriculado em Rio Branco tinham de ser suspensas por queimadas a cada setembro, Felipe Storch se perguntava como o Acre, com tantas florestas, poderia ter um volume tão grande de desmatamento. Mestrando em Gestão Ambiental na Universidade de Yale, o pesquisador de 31 anos, especializado na área de pagamentos por serviços ambientais com povos originários, é um dos candidatos à vaga para representar o Brasil como embaixador da juventude climática na COP30, em Belém, em novembro. Com ele, há outros 23 jovens com trajetórias que começaram em pontos diferentes para chegar ao mesmo ponto: a defesa do meio ambiente.
— Quero trazer a juventude para a discussão de financiamento climático. Na pandemia, atuei para fortalecer instituições capazes de oferecer informações corretas a indígenas sobre a vacinação — conta Storch, que após estudar inglês num curso particular em Rio Branco com bolsa, terminou o ensino médio em uma escola americana e foi aprovado em oito universidades.
O objetivo do programa Jovem Campeão Climático (PYCC, na sigla em inglês) é fortalecer a participação da juventude brasileira nas políticas climáticas e nos processos internacionais de negociação. O programa, criado na COP 28, não fornece vínculo empregatício com o governo nem prevê remuneração para o escolhido, que deve ter entre 18 e 35 anos, e será anunciado pela presidência da conferência. Entre os nomes mais conhecidos na disputa está o da ativista indígena de 28 anos Walelasoetxeige Paiter Suruí, de Rondônia, mais conhecida como Txai Suruí.
— A questão indígena está intrinsecamente ligada à ambiental — defende Suruí, que ganhou projeção ao discursar na abertura da COP26, em Glasgow, na Escócia.
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Outra concorrente, Paloma Costa, de 32 anos, apresentou com Suruí e mais quatro militantes ambientais uma ação na Justiça em 2021 contra o governo federal pedindo a revisão da meta brasileira no Acordo de Paris, apresentada pela gestão Bolsonaro no ano anterior, e a responsabilização pelo que chamaram de “pedalada climática”: a regressão dos compromissos do país na área. Advogada, Paloma fez parte do primeiro grupo de conselheiros jovens do Secretário-Geral da ONU, António Guterres, anunciado em 2020:
— Minha pesquisa é focada no papel da ascensão dos movimentos da juventude por justiça climática e sua importância para o avanço de proteções socioambientais. Minha mãe sempre me ensinou sobre a importância de cuidar e preservar. Vejo o futuro como ancestral.
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Se o gatilho para Storch foram as queimadas, para Júlia Gusmão, candidata de 26 anos, a ameaça de desertificação da Caatinga que viu no Rio Grande do Norte, onde vivia, a despertou para a causa ambiental. Gusmão integra a Laclima , a primeira organização de advogados de mudanças climáticas na América Latina.
— Conversando com lideranças estrangeiras na COP29 (em Baku, no Azerbaijão), percebi que a Amazônia era conhecida, mas não sabiam nem o que é a Caatinga. O mundo não conhece o potencial desse bioma, o que me deixou instigada para levantar essa bandeira — conta.
A produtora cultural Marcele Oliveira, de 25 anos, entrou em contato maior com os problemas ambientais a partir de um projeto que lutava por um parque em Realengo, na Zona Oeste do Rio, onde vivia. Hoje, ela faz parte da coalizão Clima de Mudança, que busca mobilizar o combate a enchentes.
— Falar de mudanças climáticas é tratar de futuro, dos nossos direitos e da violação sistêmica deles, principalmente nas periferias do Brasil e do mundo — opina.
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Outros candidatos tomaram conhecimento das possibilidades disponíveis na área sustentável apenas quando cursavam o ensino superior. É o caso da engenheira de energia Emilly Caroline Costa, de 29 anos, que, ao ingressar na UnB, desejava trabalhar com combustíveis fósseis.
— Estudei em escola pública toda a minha vida e não se falava sobre mudanças climáticas. Entrei na universidade por uma carreira na área do petróleo e hoje faço pesquisas sobre energia sustentável — relata.
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Mestre em Ciências Jurídico-Ambientais pela Universidade de Lisboa, o advogado capixaba Pedro Sampaio, de 28 anos, se considera um dos candidatos menos óbvios na corrida pela vaga de representante brasileiro na COP30. Sampaio tem uma carreira mais voltada ao mundo acadêmico.
— A natureza sempre foi muito presente na minha vida — ressalva. — Meu trabalho é prioritariamente científico e quero representar os interesses da juventude brasileira, por acreditar que minha formação me dá embasamento para essa defesa. Precisamos trazer as gerações mais novas para o debate.
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Também advogada, a pesquisadora paulista Valeriana Broetto, de 26 anos, investiga a mobilidade humana nas mudanças climáticas.
— Uma das minhas missões profissionais é trabalhar com a redução de risco de desastres, ao entendê-los como construções sociais, e não como eventos naturais. Quero fomentar a discussão em espaços mais formais para ressaltar a necessidade de financiamento para a área — defende.
A lista de candidatos também é composta por Beatriz Azevedo, Brenda Hülle, Cláudia Gribeler, Danilo Ferreira, Gabriela Cangussu, Giulia Mancini, Guilherme Lima, Jahzara Johari, João Pedro Loureiro, Mahyryan Sampaio, Matthaeus Menezes, Mikaelle Farias, Roberta da Silveira, Suely Firmino, Taily de Faria e Victor Hazell.
