Festas da alta sociedade, cassino, desfiles de moda e uma piscina aquecida marcaram a história do Palacete Mimi, em São Gonçalo. Ponto de encontro da elite do Rio e recanto de ricos e famosos nos anos 1950, o imóvel foi construído em 1917 com tudo do bom e do melhor, incluindo materiais vindos da França. Sua área recebeu corridas de cavalo e o maior casamento que São Gonçalo já presenciou, segundo algumas fontes. Nos estudos locais, também foi recinto para brigas homéricas, com direito a arranhões e afins.
Erguido no alto de uma colina, o palacete tinha luzes que podiam ser vistas de longe, até de barcos e navios. Embora tivesse outros proprietários antes, ficou famoso por causa de Emir Porto, o Mimi, empresário de loja de presentes e até gráfica na Região Metropolitana do Rio. É, mas o tempo passou e a época de luxo, ano após ano, foi desaparecendo. As razões são diversas, entre elas a morte do próprio Mimi, o que fez o imóvel ser deixado de lado. Na década de 1990, já estava em ruínas. Hoje, quem vai ao local não encontra vestígios. Restaram as memórias e a lenda de que o espírito do homem de negócios ainda vaga por aquele cantinho.
Lembrei do Zé Garoto
Tem aquela máxima de que ir a Roma e não ver o Papa ou ir a Paris e não conhecer a Torre Eiffel é o mesmo que não ter pisado nesses cantinhos europeus. Em São Gonçalo, isso vale para a praça Zé Garoto. Apesar do nome oficial ser da importante professora Estefânia de Carvalho, a realidade é que não tem um que chame dessa maneira. Português, José Alves de Azevedo chegou ao Rio de Janeiro em 1870, ainda menino, aos 12 anos, e recebeu o apelido no porto, logo no desembarque.
Tempos depois, abriu um comércio de ferragens na área onde hoje fica o Fórum de São Gonçalo. A loja também vendia tintas e louças e estava no caminho entre o Centro do município e outra região importante, Alcântara. Além de comerciante, o Zé Garoto integrou o conselho fiscal do Curtume São Gonçalo, foi vereador, vice-presidente da Câmara e juiz de paz.
Já que falei de imigrante…
Para os imigrantes que desembarcavam na Ilha das Flores, em São Gonçalo, aquele era o primeiro lugar a ser conhecido no Brasil. Não havia escolha. Entre 1883 e 1966, a hospedaria recebeu milhares de pessoas de diversas partes do mundo, em diferentes momentos. Apenas nos primeiros sete anos de funcionamento, foram mais de 50 mil imigrantes. Mais que uma hospedaria, a ilha funcionava como um local de recepção.
Os estrangeiros desembarcavam dos navios e encontravam uma placa que anunciava, em diversos idiomas: “Você era um estranho e o Brasil o acolheu”. Logo na chegada, passavam por um exame médico. Quem estivesse saudável seguia para um alojamento ou recebia autorização para ir à casa de algum familiar ou amigo. Quem estivesse doente ou apresentasse algum sintoma ficava em quarentena.
Embora muita gente imagine uma espécie de colônia de férias, a vida ali era difícil. Havia quem chamasse o lugar de “pequeno campo de concentração da Baía de
Guanabara”, especialmente pela segregação dos imigrantes em relação ao restante da sociedade. Sem conhecer a língua, eles precisavam conseguir um emprego ou garantias legais para deixar a ilha definitivamente. Entre as muitas pessoas que passaram por ali e se tornaram celebridades no país está a atriz e apresentadora Elke Maravilha.
O médico contra o beijo
Médico e farmacêutico, Luiz Palmier contribuiu muito para a melhoria da saúde e das condições sanitárias do município, mas também causou polêmica com uma campanha contra o beijo.
Palmier não se opunha aos apaixonados nem aos beijos em público. Seu alvo era o hábito de adultos beijarem crianças. Para ele, eliminar essa prática pouparia os pequenos de uma série de problemas, protegendo-os de doenças infecciosas, vermes e outros riscos do meio externo. Estava certo e diversas pesquisas endossavam.
Por fim
O Palacete Mimi é mais um exemplo do período em que São Gonçalo era conhecida por ser a Manchester Fluminense. O tamanho da pujança econômica e a importância industrial fizeram a cidade ser comparada a um símbolo do desenvolvimento fabril inglês. Havia, entre tantas, fábricas de cimento e siderúrgicas. Tomara que volte a esse período de ouro.
Initial plugin text
As histórias esquecidas de São Gonçalo
