Professor associado da Fundação Dom Cabral e ex-diretor de Política Econômica e Dívida do Banco Mundial, Carlos Primo Braga chama a atenção para os sinais de disfuncionalidade do mercado financeiro com o tarifaço de Trump. Ele diz que o dólar está caindo frente a outras moedas, algo que não deveria acontecer com o aumento do protecionismo americano.
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O economista diz que os EUA estão destruindo a arquitetura de governança global para o comércio. Braga não acredita que a China tomará a iniciativa de começar uma negociação. Para ele, o nível de incerteza aumentará.
Quais as consequências do tarifaço do presidente americano, Donald Trump, e essas idas e vindas nas taxações dos países?
Em primeiro lugar, os Estados Unidos estão destruindo a arquitetura de governança global para o comércio mundial, do qual foram o principal arquiteto. A administração Trump já tinha começado a diminuir essas regras em 2018 e 2019, e definitivamente, essas novas medidas significam, de fato, o abandono da OMC (Organização Mundial do Comércio).
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Esse primeiro ponto é claro. Se isso vai se manter ou não no futuro é impossível avaliar, mas o dano é muito grande. Para o Ministério do Comércio da China, o que está acontecendo é uma piada, nem vai mais responder com tarifas adicionais.
Há muita turbulência no mercado, com o dólar perdendo força frente a outras moedas. Qual o risco dessa situação?
Num primeiro momento, o dólar deveria subir e está caindo. O mais preocupante é o mercado de títulos dos EUA, que é o mais líquido e ponto de referência do mundo todo. O retorno dos títulos que o mercado requer aumentou significativamente num período de duas semanas. As pessoas passaram a ter dúvidas sobre o futuro do dólar como moeda de referência internacional.
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Não vou dizer que o dólar vai ser destronado, mas pode acontecer algo similar à crise financeira global. É mais uma demonstração adicional da estupidez do movimento dos EUA. Acredito que foram essas observações que levaram os americanos a postergar por 90 dias as tarifas recíprocas.
O senhor acredita numa negociação entre os países?
Se Trump está esperando um telefonema de Xi Jinping, eu duvido que o líder chinês vai telefonar para o senhor Trump. Por sua vez, Trump ficaria numa situação difícil frente ao movimento Maga (sigla que significa Make America Great Again, slogan de campanha de Trump) se fosse negociar. Há uma grande incerteza sobre o que vai acontecer.
O senhor acredita que haverá uma recessão global?
Isso não sei. É muito difícil garantir o que vai acontecer. A OMC estima que o comércio internacional vai retrair 1%. O Goldman Sachs reduziu a taxa de crescimento da China de 4,5% para 4%. A China é responsável por quase 30% do crescimento global. Tudo vai depender do setor financeiro. E pode acontecer, se o rendimento dos títulos americanos continuar a se elevar.
Obviamente, o Fed (Federal Reserve, o BC americano) vai intervir para evitar isso. Se isso continuar, muito provavelmente vamos ter uma crise financeira. Uma evolução que a gente não esperaria numa questão de protecionismo, por causa das dimensões dos dois principais países envolvidos.
Quais os efeitos para o Brasil?
Para o Brasil, abstraindo a queda do comércio, pode ser benéfico para o agronegócio brasileiro. Brasil, Argentina, Paraguai podem ver um aumento das suas exportações para a China substituindo o produto americano, que agora vai enfrentar tarifa de 125%. Já aconteceu com tarifas muito menores em 2018, 2019.
“Os Estados Unidos estão destruindo a arquitetura de governança global para o comércio mundial, do qual foram o principal arquiteto”
Outra externalidade positiva é que Espanha e Alemanha, que são favoráveis ao acordo de livre comércio entre União Europeia e Mercosul, ganhem força contra França e Holanda, que são contra. Eu diria que, se o conflito continuar, há uma possibilidade de um movimento político favorecendo o acordo. Não estou dizendo que será fácil, dada a confusão que Trump criou.
As tarifas podem voltar aos patamares anteriores?
Dificilmente vamos voltar às tarifas que prevaleciam em 2024. Do ponto de vista político, aquela parcela que apoia Trump não poderia permitir que a história da reciprocidade fosse abandonada. Na melhor das hipóteses, teremos uma tarifa média acima de 22%, com pico para China e para outros países, como Canadá e México.
Nesse sentido, estaremos de volta às tarifas similares às da década de 1930, que aceleraram a Grande Depressão.
A China tem sua reserva cambial muito concentrada em títulos americanos. Qual é o impacto disso?
O dólar responde por 58% das reservas internacionais, já foi 70% nos anos 1970. Vem diminuindo sua influência. O euro é 20%, e a moeda chinesa, 2%. Isso mostra que não há muitas alternativas. Mas, na medida em que há um governo maluco nos EUA, a credibilidade do dólar está sendo afetada.
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Bancos centrais e pessoas estão redirecionando seus investimentos para ouro, criptomoeda, euro e franco suíço, mas muito provavelmente o dólar não vai ser desbancado.
É o mercado mais líquido, responsável por mais 80% das transações internacionais de câmbio. A libra esterlina tinha essa posição, e ao longo de algumas décadas foi substituída. O dólar é importante a curto e médio prazo. Não há alternativa para o dólar, mas seu peso relativo deve cair.

