Em artigo escrito a pedido do GLOBO, o arquiteto e urbanista Washington Fajardo apresenta uma visão do mundo em 2125, destacando avanços tecnológicos, transformações sociais e impactos ambientais ao longo do século 21. Fajardo apresenta as transformações na cidade do Rio no contexto de mudanças profundas em todo o mundo e prevê o desaparecimento de praias cariocas ante a forte tendência de elevação do nível dos oceanos, mas vê aí uma chance de a cidade retomar sua “vocação aquática” com a “Baía de Guanabara, finalmente, despoluída”, sendo transformada em “espaço central da vida urbana, com parques costeiros, praias calmas e novas formas de circulação”. Confira abaixo a íntegra do artigo:
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Em 2125, o mundo não acabou, muitas coisas melhoraram, mas outras não.
No ano de 2050 consolidou-se a mineração no cinturão de asteroides por meio de sondas-drones robóticas, o que permitiu o acesso a minerais raros que tornaram viáveis os computadores de dobra quântica. Instalados na Lua, eles foram decisivos para a previsão meteorológica com um mês de antecedência e coordenaram por muito tempo os voos de órbita baixa que revolucionaram a logística planetária.
Em 2065, com a inauguração do primeiro satélite lunar de geração de fusão nuclear iniciou-se uma nova era energética para a humanidade. Já em 2072, encerraram-se as atividades da última plataforma de petróleo em uso no mundo, na Bacia de Campos, no Brasil. É possível visitar esta e outras infraestruturas da industrialização do século 21, o Século do Paradoxo, no Grande Museu Planetário na ensolarada Antártida.
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O Grande Terremoto da Califórnia implicou na busca de sistemas industriais mais limpos e de menor impacto ambiental que a robótica finalmente permitia. Operários robôs que não param nunca, que se autoconstroem e reparam, que não respiram, que podem trabalhar dentro da água, no espaço sideral, e que são energizados por irradiação de micro-amperagem, libertaram a humanidade da necessidade do trabalho físico. Tudo pode ser construído.
Mas foi a Grande Revolta de 2078 que mudou as bases da organização social. Todas as macro-nações concordaram com a abolição da propriedade privada aprovando a nova Lei Universal Gaia, que diz que todos são parte de tudo e que tudo vive em todos, eternamente.
Este novo regime foi necessário, pois as mudanças ambientais drásticas nas cidades, somadas ao desemprego descontrolado, e à opressão criada por uma pequena parcela de ultra-influencers, dotados de todos os meios e acessos, geraram batalhas e guerrilhas concomitantes em diversas cidades do mundo. Tudo ao mesmo tempo.
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Após dez anos de caos planetário, em 2088 surgiu uma nova ordem mundial de congraçamento dos Seres do Planeta, que veio a suceder a Organização das Nações Unidas. O fim da propriedade privada foi a grande responsável pela evolução e prosperidade da humanidade.
Não tendo investido muito em pesquisa e tecnologia ao longo do século 21, o Brasil, como era chamado antes de virar América Tropical, sofreu com crises econômicas e ambientais que levaram ao chamado Século Perdido. Graças aos monastérios de ciências, como a Embrapa, foi possível a criação de um novo ramo da ciência, a bioquântica, resultando no primeiro Nobel do país, e que permitiu uma compreensão radicalmente nova sobre o funcionamento da Terra, determinante para as mudanças tecnológicas que buscaram aceleradamente a limpeza planetária.
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Com o Rio de Janeiro tendo perdido sua orla de praia para a elevação do nível do mar, a cidade voltou a ser uma cidade de baía. As praias desapareceram com a elevação do nível do mar, mas a cidade reencontrou sua vocação aquática. A Baía de Guanabara, finalmente despoluída, tornou-se o espaço central da vida urbana, com parques costeiros, praias calmas e novas formas de circulação. A Zona Norte floresceu a partir de uma nova relação com a água e a Avenida Brasil é considerada hoje uma das avenidas mais bonitas do mundo. Edifícios de madeira oferecem moradias para todos e a indústria robótica de construção timber da América Tropical é uma das mais avançadas do mundo.
As favelas não desapareceram, mas melhoraram muito. A Rocinha passou por um processo de qualificação urbana que manteve sua identidade e densidade, incorporando edifícios ecológicos de médio porte, todos de madeira, praças públicas elevadas, arborização intensa e sistemas sustentáveis. Tal solução permitiu desadensar becos, vielas e abrir espaços públicos mais amplos, permitindo instalação de infraestrutura resultando em muita interação social e lugares de convivências. A favela virou um epicentro de cultura e criatividade. Todos os projetos urbanísticos e arquitetônicos são feitos por sistemas gêmeos digitais com uso de Empatia Artificial, em conjunto com urbanistas e engenheiros e com a participação direta da comunidade. A Rocinha é uma força da democracia representativa digital.
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O Centro virou um bairro residencial vibrante, com crianças nas ruas, poucos carros, e novas comunidades surgindo em áreas antes exclusivamente militares como a Ilha das Cobras, ou o antigo primeiro Distrito Naval. O aeroporto Santos Dumont ainda tem funções de pouso de drones espaciais, mas a maior parte da sua área foi transformada em um bairro residencial. Os edifícios de escritórios, ou corporativos, como eram comuns no século 20, começaram a desaparecer com a pandemia de Covid-19 na segunda década do século 21. Não existe mais diferença de uso do solo nas cidades. Tudo pode acontecer em qualquer lugar.
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Ipanema e Leblon sofreram muito com a elevação do mar, diques foram construídos e protegem os bairros das águas do oceano. As ruas foram substituídas por canais, e a vida se organiza entre barcos, muito uso de ciclomobiles e tudo se resolve a pé. Como o espaço público e as ruas foram ocupadas pela água, as coberturas dos prédios, espaços privilegiados e exclusivos no século 20 e 21, viraram praças públicas, ajardinadas e conectadas por passarelas. É possível caminhar tanto ao rés-do-chão como pelas coberturas dos prédios, que também passaram a ter acesso para a moradia nos andares de baixo. Nestes terraços drones aterrizam trazendo pessoas e fazendo entregas. A água impôs seus limites, mas também revelou novas formas de estar juntos.
A cidade não se tornou perfeita, mas encontrou caminhos possíveis — mais justos, mais verdes e mais sensíveis ao seu território.
* Arquiteto e urbanista; ex-secretário de Planejamento Urbano do Rio de Janeiro