Em um cenário de protecionismo crescente e instabilidade geopolítica, agravado pelo aumento de tarifas imposto pelos Estados Unidos, muitos países e blocos regionais buscam caminhos para diversificar rotas comerciais e fortalecer parcerias estratégicas. Essas alternativas estiveram em debate no último dia 6, na sede da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), no Centro do Rio, durante a V Conferência Internacional de Comércio e Serviços do Mercosul (CI25), que reuniu autoridades, diplomatas e líderes empresariais dos países efetivos e associados.
O presidente do Sistema CNC-Sesc-Senac e presidente pro tempore do Conselho de Câmaras de Comércio do Mercosul (CCCM), José Roberto Tadros, destacou os avanços de acordos do mercado comum da América do Sul com blocos relevantes como a União Europeia e a EFTA (Suíça, Noruega, Islândia e Liechtenstein), mas também destacou a importância de estreitar os laços entre os próprios integrantes do Mercosul:
— O Mercosul evoluiu de uma união aduaneira imperfeita para um espaço de concertação política e de cooperação técnica. Destacam-se avanços em áreas como harmonização regulatória, integração produtiva, política comercial comum e mecanismos de solução de controvérsias. Entretanto, enfrenta desafios, como a assimetria econômica entre os países membros e a necessidade de maior institucionalização de suas instâncias decisórias e de adaptação do bloco às transformações do cenário geopolítico e econômico global. O Mercosul permanece um projeto dinâmico, em permanente construção, em favor de uma integração mais profunda, equilibrada e voltada para o futuro.
O Mercosul permanece um projeto dinâmico, em constante construção, em favor de uma integração mais profunda, equilibrada e voltada para o futuro
— José Roberto Tadros, presidente do Sistema CNC-Sesc-Senac
A conferência teve mediação do embaixador José Alfredo Graça Lima, que considera o bloco um indispensável instrumento de cooperação entre os países participantes — As perspectivas são favoráveis em um mundo em que nossos produtos, nossos principais ativos, são cada vez mais importantes e estratégicos — disse.
No primeiro painel, diplomatas debateram a presença do Mercosul no contexto global, a diversificação de parceiros e o fortalecimento interno do bloco. O embaixador da Argentina no Brasil, Guillermo Daniel Raimondi, mencionou a necessidade de solução de impasses de regulamentos e tarifas e ressaltou as negociações com diferentes regiões do planeta, como Ásia e América Central, além da Europa.
— Esse diálogo contradiz os que falam do Mercosul como um bloco fechado e resistente em se relacionar com o resto do mundo — afirmou Raimondi.
O conselheiro de Comércio e Agricultura da Delegação da União Europeia no Brasil, Vicente Damian Lluna Taberner, confirmou para o dia 20 de dezembro a assinatura do acordo Mercosul-União Europeia, que depois deverá ser confirmado pelo parlamento europeu e pelos países sul-americanos.
— Em termos comerciais, é um acordo moderno, com muitas possibilidades de ser desenvolvido. Achamos que, para Mercosul, pode ser um acordo estruturante pela institucionalidade que vai trazer e pela possibilidade de muitos diálogos em aspectos importantes — afirmou Taberner.
O painel teve também a presença dos cônsules no Rio de Janeiro Dario Franco, do Paraguai; Michael Schweizer, da Suíça; François Jubinville, do Canadá; e Joe Turk, do Líbano, que foram unânimes em exaltar os esforços para fortalecimento de novas rotas comerciais e de cooperação entre países e blocos econômicos.
O segundo painel, “Expectativas do setor privado para o cenário latino-americano e global”, reuniu líderes de confederações comerciais do Mercosul.
— Com relação a atitudes como as tomadas recentemente pelos Estados Unidos, aumentando de forma exponencial as tarifas em 50%, 100%, só tem uma maneira de resolver: diversificando os nossos mercados e montando uma estrutura nos nossos países de segurança jurídica, democracia e respeito à livre empresa — afirmou José Roberto Tadros.
O presidente da Câmara Argentina de Comércio e Serviços, Natalio Grinman, exaltou o acordo do Mercosul com a União Europeia:
— Não tenho dúvida que vai mudar nossa realidade. Passar de um bloco de 275 milhões de habitantes para uma conexão de 700 milhões será algo grandioso.A necessidade de maior participação do setor privado nas negociações do Mercosul também foi mencionada por Anabela Aldaz, vice-presidente da Câmara de Comércio e Serviços do Uruguai.
— Temos um chamado que não podemos ignorar. Somos líderes nacionais que representam pequenas, médias e grandes empresas, que precisam de instituições como o Mercosul. O bloco precisa se fortalecer com conexões como o evento de hoje. E abrir novos mercados é parte de nosso trabalho — afirmou Anabela.
Menos protecionismo, mais integração
País que se tornou efetivo do Mercosul em 2024, a Bolívia foi representada por Eduardo Olivo Gamarra, presidente da Câmara Nacional de Comércio, que comemorou um novo momento político no país, com expectativa de menos protecionismo e mais integração regional, incluindo a participação da Bolívia no Corredor Bioceânico, que visa interligar os oceanos Atlântico e Pacífico na América do Sul.
O presidente da Câmara Nacional de Comércio e Serviços do Chile, José Pakomio Torres, afirmou que a inovação é a chave para integração entre países e que, apesar de “parecer imperfeito”, o Mercosul é uma oportunidade de aperfeiçoar social e economicamente os integrantes do bloco.
A presença de grandes investimentos de Argentina, Brasil e Chile em seu país foi tema da participação de Ricardo dos Santos, presidente da Câmara Nacional de Comércio e Serviços do Paraguai:
— Vivemos uma necessidade de integração constante ao Mercosul. Estar no Mercosul é fundamental para o Paraguai, não teríamos outra maneira.
José Roberto Tadros sugeriu que os próximos encontros do bloco sejam em outros países, fora do eixo Brasil-Argentina, “para verificarmos in loco como está evoluindo o Mercosul, como está a economia de cada país”.
— Isso cria consciência e compromisso — concluiu o presidente da CNC.

