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outubro 3, 2026
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Ave que desapareceu da Europa há 300 anos volta a ganhar espaço no continente com ajuda de 'pais humanos'; entenda

Por · outubro 3, 2026
Ave que desapareceu da Europa há 300 anos volta a ganhar espaço no continente com ajuda de 'pais humanos'; entenda


De longe, a cena parece saída de um filme. Um pequeno avião ultraleve avança sobre o território espanhol enquanto, logo atrás, uma formação de aves negras acompanha o trajeto. Não se trata de uma exibição aérea, mas de uma tentativa de reconstruir uma tradição perdida há séculos. Os animais são íbis-eremitas (Geronticus eremita), uma espécie que desapareceu da Europa e que agora está sendo reintroduzida no continente com a ajuda de seus próprios “pais humanos”.
Em setembro, 30 jovens íbis chegaram à região de Alt Empordà, na Catalunha, depois de atravessarem os Pirineus acompanhando uma aeronave conduzida por integrantes do Waldrappteam, projeto austríaco que há mais de 20 anos desenvolve a chamada migração conduzida por humanos. Quinze deles permaneceram na Catalunha, onde passaram a integrar o programa da Fundació Alive para estabelecer uma nova população da espécie. Os outros 15 seguiram viagem em direção à Andaluzia, no sul da Espanha.
A técnica é necessária porque os filhotes criados em cativeiro não têm adultos experientes para ensinar a rota migratória. Eles são retirados dos ovos ou criados sob cuidados humanos e, ainda jovens, passam a associar seus cuidadores à alimentação e à segurança. Depois, aprendem a acompanhar um avião ultraleve durante voos de treinamento. O objetivo é que a aeronave funcione como uma espécie de substituta temporária dos adultos que, na natureza, conduziriam os jovens durante a primeira migração. Desde 2004, o Waldrappteam utiliza o método e já ampliou as etapas de voo, que inicialmente tinham cerca de 60 quilômetros e hoje podem chegar a 300 quilômetros por dia.
A viagem deste ano mostrou que a operação está longe de ser simples. A chegada à Catalunha, inicialmente prevista para 12 de setembro, precisou ser adiada por causa do mau tempo. No dia seguinte, durante a travessia dos Pirineus, apenas cinco das 30 aves conseguiram acompanhar diretamente o ultraleve até Ordis. Outras cruzaram a fronteira, mas parte do grupo voltou para o lado francês antes de chegar ao destino. Depois de novas etapas, todos os animais foram reunidos na Espanha. Os 15 destinados à Catalunha foram então entregues à equipe da Fundació Alive.
Os novos moradores foram levados para um aviário de 280 metros quadrados, onde passarão por um período de aclimatação antes da soltura. Eles se juntaram a 19 jovens procedentes da Andaluzia que já estavam no local desde junho. A expectativa da organização é chegar a 45 animais em fase de adaptação ainda neste ano e, na primavera de 2027, incorporá-los gradualmente aos cerca de 50 íbis que já vivem em liberdade na região.
A escolha da Catalunha não é casual. Alt Empordà está em uma posição estratégica entre as áreas onde existem projetos de reintrodução no centro da Europa e as populações do sul da Espanha. A ideia é transformar a região em uma escala no sistema migratório europeu e, no futuro, conectar diferentes colônias. Com aves de origens distintas circulando entre os grupos, os pesquisadores esperam favorecer o cruzamento entre diferentes linhagens e ampliar a diversidade genética da população.
“São aves muito inteligentes, sociáveis e com personalidades diferentes”, disse ao Guardian o biólogo Bernat Garrigós, responsável pelo projeto de Alt Empordà. Segundo ele, os animais são extremamente curiosos e costumam investigar com o bico praticamente tudo o que encontram, inclusive as roupas e os objetos utilizados pelos funcionários. A proximidade com os humanos é, neste caso, parte do próprio método de conservação: os filhotes precisam confiar nos cuidadores antes de aprender a seguir o avião.
A espécie, no entanto, já esteve muito perto de desaparecer. O íbis-eremita-do-norte possui uma característica facilmente reconhecível: a cabeça e o pescoço sem penas, acompanhados por uma plumagem escura com reflexos metálicos. Historicamente, a ave ocupava áreas do Mediterrâneo, do Norte da África e do Oriente Médio. Na Europa, porém, desapareceu da natureza há cerca de três séculos. No fim do século XX, a população marroquina, então a principal população selvagem remanescente, havia despencado para pouco mais de 200 indivíduos.
Programas de proteção e reprodução em cativeiro permitiram uma recuperação parcial. A Andaluzia abriga hoje uma população reintroduzida de cerca de 300 aves, enquanto projetos no centro da Europa reúnem número semelhante. A criação de uma nova população na Catalunha é, portanto, parte de uma estratégia mais ampla para evitar que a sobrevivência da espécie dependa de um único núcleo.
Há ainda outro problema por trás da escolha das novas rotas. O aquecimento do planeta vem dificultando a travessia dos Alpes pelas populações que vivem ao norte da cadeia montanhosa. Desde 2023, o Waldrappteam utiliza uma nova rota de aproximadamente 2.600 quilômetros entre a região alpina e Vejer de la Frontera, na Andaluzia. A alternativa permite que os animais evitem a barreira montanhosa durante a migração de outono.
O projeto catalão começou a colocar as primeiras aves em liberdade em março deste ano, nos Aiguamolls de l’Empordà, uma área de zonas úmidas protegida. Os 19 primeiros animais foram criados à mão em Jerez de la Frontera e passaram por um período de adaptação antes da soltura. Durante esse processo, os pesquisadores procuram fazer com que reconheçam a região como território de alimentação e descanso, aumentando as chances de que permaneçam no local depois de libertados.
A meta é ambiciosa: nos próximos dez anos, a equipe de Alt Empordà pretende chegar a pelo menos 50 casais reprodutivos e aproximadamente 300 indivíduos vivendo na natureza. Os primeiros casais, porém, ainda devem demorar. Os íbis-eremitas só atingem a maturidade sexual por volta dos três ou quatro anos e, por isso, o projeto precisa primeiro manter os jovens vivos, ensinar-lhes o território e esperar que eles próprios estabeleçam uma colônia.
Até mesmo a infraestrutura ao redor das aves está sendo modificada. A empresa elétrica Endesa começou a adaptar postes e linhas de transmissão próximos à área do projeto para torná-los mais visíveis e reduzir o risco de colisões. A iniciativa mostra como a reintrodução de uma espécie não depende apenas da soltura dos animais, mas também de mudanças na paisagem onde eles terão de sobreviver.

Ave que desapareceu da Europa há 300 anos volta a ganhar espaço no continente com ajuda de 'pais humanos'; entenda