Uma bancada federal formada majoritariamente por homens brancos e alinhamento ideológico à direita. Esse é o retrato saído das urnas do Estado do Rio na votação de anteontem para a Câmara dos Deputados. Dos 46 parlamentares eleitos, apenas dez são mulheres. O número representa um leve aumento em relação às nove escolhidas no pleito anterior, em 2022. Mas ainda é pouco: meros 21,7%. Entre todos os eleitos este ano, três se declararam pardos e cinco pretos, o equivalente a 17,3%.
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Os partidos do Centrão ou da centro-direita (MDB, PSDB, Solidariedade, PSD, União, Republicanos, PP, PL e Novo) ficaram com a maior fatia da representação parlamentar: são 33 deputados, ou 71,8% da bancada. Desse total, o Partido Liberal (PL), do candidato a presidente Flávio Bolsonaro, elegeu 15 deputados federais pelo Rio. No campo da centro-esquerda e da esquerda (PDT, PT, PCdoB e PSOL), foram 13 eleitos, seis deles do Partido dos Trabalhadores (PT), do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
— Na Câmara, o União perdeu cadeiras e o Republicanos também. Você tem uma recomposição da direita que abre espaço para uma hegemonia completa do PL nesse campo — disse Mayra Goulart, coordenadora do Laboratório de Partidos, Eleições e Política Comparada (Lappcom) do Departamento de Ciência Política da UFRJ.
PL ficou com 15 vagas
O avanço do PL no eleitorado rendeu ao partido mais quatro cadeiras na Câmara. A agremiação saiu de 11, em 2022, para 15 nas eleições deste ano. A legenda foi bem votada como um todo, mas não teve o campeão de votos da eleição. O posto ficou com Dr Luizinho (PP) com 213.904 votos. A segunda e a terceira maiores votações ficaram com candidatos de esquerda: Rick Azevedo (PSOL), que teve 191.371 votos, e Lindbergh Farias (PT), com 181.768. O PL aparece na quinta posição, e com os 175.161 votos recebidos por Altineu Côrtes, que é o presidente do partido no Estado do Rio.
Na sequência vem Marcelo Freixo (PT), que volta à Câmara dos Deputados. A lista dos dez primeiros tem outro nome de esquerda: a ex-ministra Anielle Franco (PT), da Integração Racial, que recebeu 149.726 votos.
Projetando a atuação do futuro Congresso, Freixo coloca dois cenários em perspectiva:
— Temos uma eleição ainda pela frente, não tem nada decidido. Uma coisa será um Congresso ruim no governo Lula; outra será um congresso ruim no governo Flávio Bolsonaro, cujos efeitos serão muito piores. Todo o nosso esforço agora nesses 20 dias é para eleger o Lula, reverter o quadro, o que na minha opinião é possível.
Mulheres no plenário
Entre as dez mulheres que tomarão posse em fevereiro do ano que vem, cinco serão novatas na Câmara: Anielle Franco (PT), Manoela Peres (PL), Júlia de Castro (PL), Nísia Trindade (PT) e Talita Galhardo (PSDB).
Júlia de Castro é a mais jovem entre as cinco: tem 24 anos. Em seu perfil na página oficial da campanha, se apresenta como cristã, casada e mãe, formada em História e vice-presidente nacional do PL Jovem. O seu programa informa que ela tem orientação conservadora/de direita, com seis eixos principais, entre eles, defesa da vida desde a concepção e contra o aborto; pautas ligadas à família e oposição à chamada ideologia de gênero; e endurecimento no combate à criminalidade. Também do PL, Manoela Peres se declara católica. Ela não é uma estreante na política. Já disputou duas eleições para prefeita de Saquarema e venceu as duas: em 2016, pelo PTN e em 2020, pelo DEM.
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A renovação da bancada federal do Rio foi superior a 50%. Dos 46 eleitos, menos da metade, 21 (45,7%), foram reeleitos. Ficaram de fora políticos tradicionais. Entre eles, Tarcício Motta e Chico Alencar, ambos do PSOL Também não foram reeleitos Hugo Leal (PSD), Júlio Lopes (Progressistas) e Rosângela Gomes (Republicanos).
Em seu perfil no Instagram, Chico Alencar, que está no seu sexto mandato na Câmara, publicou que “assimilar derrotas e aprender com elas não é fácil”, e agradeceu pelos votos que obteve. Ao GLOBO, fez uma avaliação do perfil da futura bancada federal do Rio:
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— Será uma bancada com perfil conservador e fisiológico. O desastre, a debacle de Cláudio Castro não afetou a eleição. É uma tristeza. O Rio de Janeiro não assimilou a crise profunda que atingiu o quadro político. O eleitorado parece que não leva em consideração valores éticos e representação autêntica, transparente e honesta. Não têm peso vínculos com (Daniel) Vorcaro (ex-presidente do Banco Master), dinheiro vivo encontrado em casa e relação com milícias.
Bandeiras vitoriosas
Segundo mais votado, Ricardo Cardoso de Azevedo, o Rick Azevedo, de 32 anos, teve votação expressiva na esteira de sua campanha pelo fim da escala 6X1. ele deixará o Palácio Pedro Ernesto, onde exerce mandato de vereador, rumo a Brasília. Outros vereadores também vão assumir como deputados federais em 2027: Rafael Satiê (PL), Leniel Borel (PP), Marcio Ribeiro (PSD) e Talita Galhardo (PSDB). Entre os deputados estaduais que deixarão a Alerj e seguirão para o Planalto estão Filippe Poubel e Thiago Gagliasso, ambos do PL.
Tema recorrente em toda a campanha, a segurança pública ajudou a eleger estreantes. Foi o caso de Felipe Curi, ex-secretário de Polícia Civil de Cláudio Castro e um dos responsáveis pela megaoperação que deixou 122 mortos, entre os quais cinco policiais, nos complexos do Alemão e da Penha, em 28 de outubro de 2025. O policial recebeu 133.626 votos e foi o segundo mais votado do Progressistas.
‘Lado do bem’
Ao agradecer os votos, Curi disse que vai trabalhar para endurecer as leis contra criminosos.
— Vou brigar muito lá em Brasília para que a gente possa realmente mudar as leis. Leis que favoreçam as pessoas de bem e que infernizem a vida dos criminosos que são as pessoas do mal. Estamos na luta do bem contra o mal. Nós somos o lado do bem, os criminosos são o lado do mal. Quem não estiver do nosso lado, está do lado do crime organizado. É simples assim — disse Felipe Curi em vídeo publicado na sua conta no Instagram.
Quanto à fé professada pelos eleitos, 22 possuem informações nos perfis. Desses, 10 são evangélicos, três se declaram cristãos e nove, católicos. Entre eles há pastores à direita e à esquerda como Sóstenes Cavalcanti (PL) e Henrique Vieira (PSOL).
