Passava das 11h de sexta-feira quando um Honda HR-V emparelhou com um Porsche Taycan Turbo 2023 na Avenida das Américas, nas proximidades do VillageMall, na Barra da Tijuca — uma das vias mais movimentadas da cidade. Por dois furos meticulosamente feitos nos vidros das janelas do lado direito do primeiro veículo, surgiram canos de fuzis apontados em direção ao outro carro. O alvo era Vinicius Drumond, filho e herdeiro do bicheiro Luiz Pacheco Drumond, o Luizinho Drumond — morto em 2020, vítima de um AVC. Uma das hipóteses investigadas é um racha na nova cúpula da contravenção.
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Foram mais de 30 tiros disparados contra o carro do bicheiro, que saiu praticamente ileso, graças à blindagem reforçada.
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— Estou bem. Foram só estilhaços no braço — disse ele ao GLOBO, por telefone, ainda enquanto recebia atendimento no Hospital Barra D’Or, no mesmo bairro.
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Seguranças do bicheiro, que o seguiam em outro carro, atiraram contra os criminosos. Alguns motoristas chegaram a parar seus carros na Avenida das Américas para se protegerem atrás dos veículos. A via já foi cenário de outros atentados violentos contra bicheiros, como a execução de Paulo Roberto de Andrade e Silva, filho de Castor de Andrade, em 1998, e a morte numa explosão do filho de Rogério Andrade, em 2010.
A Delegacia de Homicídios da Capital (DHC) assumiu o caso. Policiais estiveram no hospital para ouvir Vinicius. Ao mesmo tempo, peritos do Grupo Especial de Local de Crime, da DHC, analisaram o Porsche da vítima, avaliado em cerca de R$ 1 milhão.
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À tarde, o veículo usado pelos atiradores foi encontrado em Guaratiba, também na Zona Oeste. Havia, ao menos, cinco marcas de tiros: na lateral, no retrovisor e no porta-malas. Peritos fizeram exames em busca de digitais. Daí veio a surpresa: havia furos nas janelas, utilizados como seteiras, para os disparos de dentro do carro. Para os investigadores, a estratégia mostra o planejamento no ataque conta o contraventor.
Vinicius integra junto com os bicheiros Adilson Oliveira Coutinho, o Adilsinho, que está foragido, e Rogério Andrade, preso desde outubro, a chamada “Santíssima Trindade”, grupo criado para fazer frente à antiga cúpula da contravenção, conforme informou o Blog Segredos do Crime, do GLOBO.
A união do trio está apontada em um relatório de investigação da DHC sobre o homicídio, em 2022, de Marquinho Catiri, miliciano fuzilado por homens encapuzados ao sair de uma academia numa favela na Zona Norte do Rio. De acordo com o documento, o crime tem relação com “a tomada dos pontos de jogo explorados pelo contraventor Bernardo Bello”, que está foragido.
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Mas a aliança não durou muito. Adilsinho e Vinicius já vinham se desentendendo desde meados de 2024. Vinicius não teria aceitado a saída de Manuel Agostinho Rodrigues Miranda — ex-braço direito de seu pai e responsável pela gestão dos bingos da família — para o lado de Adilsinho. O funcionário alegou que se aposentaria, o que não era verdade.
Em setembro daquele ano, Agostinho foi assassinado em Del Castilho, na Zona Norte, dentro de um carro blindado. Os criminosos dispararam, pelo menos, 38 tiros em direção à porta do motorista. O impacto foi tão violento que a maçaneta foi arrancada, o que permitiu a entrada das balas no veículo. Os investigadores da DHC têm como principal linha de investigação o envolvimento de Vinicius no homicídio.
Adilsinho, por sua vez, não teria deixado o caso passar em branco. A polícia investiga o homicídio do ex-PM André da Silva Aleixo, segurança de Vinicius, no mês seguinte, como um possível acerto de contas. A “Santíssima Trindade” teria ficado ainda mais vulnerável após a prisão de Rogério, que está há nove meses na Penitenciária de Campo Grande (MS).
Mas a polícia não descarta outras hipóteses para o ataque, já que Vinicius aparece em mais investigações. Ele foi o principal alvo da Operação Ouro Negro, contra uma quadrilha acusada de furtar petróleo de dutos enterrados da Petrobras, a fim de revendê-lo para usinas de asfalto e indústrias de materiais plásticos. Também é citado no inquérito que apura a morte do advogado Rodrigo Marinho Crespo, em fevereiro de 2024. Um dos presos pelo crime, um policial militar, seria segurança do bicheiro.
Vinicius herdou do pai pontos do jogo do bicho na região da Leopoldina, que compreende bairros como Ramos, Manguinhos, Maré, Penha, Parada de Lucas e Vigário Geral. No mundo do carnaval, chegou a ser vice-presidente da Imperatriz Leopoldinense, mas se afastou da escola, hoje presidida por sua irmã Cátia Drumond. Esta semana ele foi anunciado como patrono da Em Cima da Hora, escola da Série Ouro.