Em 2022, quando lançou “Fundo de Quintal: o som que mudou a história do samba”, o jornalista Marcos Salles já estava imbuído da missão seguinte: contar a história daquele que pode não ter sido um dos fundadores do revolucionário grupo nascido na quadra do Cacique de Ramos, sob a liderança do recentemente falecido Bira Presidente (1937-2025), mas que levou adiante — e que encarnou, como compositor e intérprete — tudo o que o samba passou a significar em seu renascimento no novo milênio.
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Afastado da cena desde 2017, quando sofreu um AVC em casa, durante o banho, Arlindo Cruz, de 66 anos, ressurge na páginas de “O sambista perfeito”, livro que tem noite de autógrafos nesta segunda-feira, às 19h, na Livraria da Travessa da Barra, no Rio. Em suas mais de 400 páginas, o volume consegue dar a dimensão tanto do artista que deixa, segundo Salles, “um legado monstruoso, de músicas que ainda terão que ser estudadas” (“foram 751 gravadas, fora o que ele tem de inéditas”, aponta), e também do caloroso personagem que ultrapassou as barreiras do samba para conquistar o grande público da TV, quanto do homem muito humano, tão repleto de qualidades como de imperfeições.
— Conheci Arlindo no Cacique de Ramos, numa das nas primeiras vezes que fui lá. Ele já estava meio que entrando no Fundo (de Quintal) e começando o pagode dele na Padre Telêmaco, lá em Cascadura — conta Salles, que tempos depois acabou indo trabalhar em projetos diversos com o Fundo. — Nos shows do grupo, eram o Arlindo e o Sombrinha que comandavam tudo. Na segunda música, eles já estavam com o público na mão. E não tinha ensaio, o roteiro era feito em cima do que os dois resolviam ali, na hora.
Apesar de enormes sucessos com o Fundo de Quintal e Zeca Pagodinho, como “O show tem que continuar”, “Bagaço da laranja” e “SPC”, demorou muito, reconhece Marcos Salles, para que Arlindo Cruz tivesse a consagração que merecia. Seu primeiro LP solo, de 1993, passou em branco. Já seus discos em dupla com Sombrinha, bem como o Pagode do Arlindo (de antológicas noites no Teatro Rival, no Centro, e no Barril 1800, na Barra), não conseguiram furar a bolha.
— Todo mundo do samba gostava do Arlindo, mas ele não era reconhecido fora do meio. Foi depois, com a MTV, que teve essa explosão toda. E aí estamos falando de 2009 — diz o escritor, ressaltando nessa época o papel de Marcelo D2 (que convenceu a MTV a gravar um especial com Arlindo), de Maria Rita (que iniciou uma carreira de sambista no disco “Samba meu”, de 2007, com seis músicas de Arlindo) e de Rogê, seu novo parceiro de composição (“que o levou para a garotada, botou ele em festival na Marina da Glória”). — Arlindo sempre foi um cara generoso, um cara que não precisava de parceiro para fazer música, porque ele fazia tão bem letra como melodia, mas que queria o parceiro, queria a parceria. Se você gravasse um disco e chamasse ele para participar, ele ia.
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Nos anos 2010, a participação no programa “Esquenta”, de Regina Casé, fez de Arlindo, enfim, um artista popular. De repente, ele era, segundo Marcos Salles, “o guru, o cara respeitado, aquele para quem todo mundo bate cabeça”.
— Arlindo é o elo entre partido alto do Aniceto do Império, do Candeia, com a nova geração. Ele tanto é o bamba do partido alto quanto o cara que fez “Só no sapatinho” (sucesso do grupo de pagode de mesmo nome, no fim dos anos 1990). Arlindo não se negava a fazer nada com a nova geração. Ele junta Maria Rita, Mumuzinho, essa turma toda com uma generosidade incrível. Para ele, tá tudo certo, é samba. E ele tinha uma coisa de querer fazer samba todo dia. Todo dia ele queria compor uma música nova, ele queria entrar nos discos, queria fazer parte da turma — conta Salles.
A inteligência e os abismos
Inteligente (passou para concursos da Aeronáutica, da Marinha e do Exército), eclético (ouvia canção francesa, ópera), assombroso compositor (“os parceiros ficavam doidos: como é que ele consegue falar isso aqui, como é que ele consegue ir por esse caminho harmônico?”, recorda-se Marcos Salles), além de intérprete visionário (pouco antes do AVC, ia gravar um disco de canções de Caetano Veloso produzido por Maria Bethânia), Arlindo também tem falhas apontadas em “O sambista perfeito”. Um capítulo inteiro trata de drogas, especialmente do vício em cocaína.
— Quando subia no palco, Arlindo dava conta do recado. Ele chegava atrasado no aeroporto, isso era o normal dele. Mas nunca vacilou por conta da droga — diz o autor. — Infelizmente, não tem como contar a história do Arlindo sem entrar nessa parte. Ele assumia que era um vício, tentava sair, mas não conseguia. Ele fazia mal a si mesmo por conta das drogas.
Aqui e ali em “O sambista perfeito”, também são contados as brigas e os casos de infidelidade (incluindo um filho revelado por teste de DNA) com Babi Cruz: a mãe de seus dois filhos, Arlindinho e Flora, e sua companheira, entre idas e vindas, há 40 anos. Ela, por sinal, foi quem confiou a Marcos Salles em 2021 a missão de escrever o livro — doesse a quem doesse.
— Eu me expus, abri bem a a nossa intimidade, tem muita coisa ali… mas não é tudo. Preservei aquele pedaço da história que a gente leva para o túmulo — conta Babi. — Depois então que assumi meu relacionamento com André (Caetano, com quem começou a namorar em 2022), as pessoas se acharam no direito de achar uma porção de coisas. E também, para me absolver, as pessoas procuraram condenar o Arlindo… ninguém está aqui para isso!
Memórias de um ‘bon-vivant’
Batalhando hoje por uma tradução para lançar o livro no Japão (e em conversas para a filmagem de um docudrama), Babi Cruz, de 54 anos (os dois começaram a namorar quando ela tinha 14), conta que o objetivo com “O sambista perfeito” era “eternizar Arlindo em vida”.
— Graças aos meus orixás, à força de vontade, estou conseguindo. Consegui fazer dele enredo do Império Serrano, que é a escola que ele ama. Eu fiz um musical do Arlindo. Faltava o livro — orgulha-se Babi, para quem o marido é um ser humano fora da curva e um compositor acima da média. — Uma coisa muito interessante no livro é que, quando pedimos aos entrevistados para definir o Arlindo com uma palavra, tivemos uma unanimidade: generoso. Ele era um elo do asfalto com o morro, um elo do preto com branco, um cara zero preconceito.
Ela conta que, quando Arlindo teve o AVC, estavam vivendo a sua “décima lua de mel”.
— A gente tinha tudo para dar errado, e deu certo! A paixão é aquela coisa que esquenta com o momento, mas não sustenta uma relação. Ninguém fica apaixonado o tempo todo, a vida real é outra história — ensina. — A nossa relação sexual sempre foi muito legal, muito forte. Arlindo foi meu primeiro homem e poderia ter sido o único se o destino não tivesse feito tanta agonia na nossa vida. Por incrível que pareça, não foi o sexo que me fez falta, foi a solidão que me me apavorou. Foram cinco anos e meio dormindo e acordando sozinha, sem perspectiva de voltar a ter o Arlindo na minha companhia, aquela coisa de trocar ideia, de esquentar o pé, de você se sentir protegida, amparada pelo seu homem.
Babi diz que sempre foi uma mulher de se reinventar para as necessidades do Arlindo (“Eu optei por isso”) e hoje segue comandando a casa, com dois cuidadores se revezando, e visitas de fisioterapeuta, oftalmologista e dentista.
— Arlindo não esboça dor, não esboça reações ao frio, calor, fome ou sede, a gente tem que adivinhar, tem que ir na intuição — explica ela, informando que, depois de uma broncoaspiração, a alimentação do marido tem sido administrada 100% por gastrostomia (GTT, diretamente no estômago através de uma sonda). — O rim dá um problema, não funciona, a gente corre e cuida do rim. Aí o pâncreas dá outro problema e tem que correr também. A parte neurológica é que ficou radicalmente definida: ele não volta, o estrago do AVC foi num lugar muito nobre do cérebro. A gente fala com Arlindo o tempo todo, damos bom dia, eu chamo ele de pai, como se não tivesse problema nenhum. E ele fica ali olhando, olhando. Percebo que ele está cansado, mas, enquanto ele não desistir, eu também não desisto dele.
Marcos Salles lamenta as voltas que o destino deu, mas não se surpreende.
— Arlindo queria muito tudo. Ele queria muito fazer show, ele queria compor, ele queria comer… uma rabada na quinta-feira, aí na sexta uma feijoada, e tudo comida pesada. E gordo, enorme, com pressão alta. Era uma bomba-relógio — diagnostica o amigo, que só durante o trabalho do livro veio a se reencontrar com o sambista. — Vi o Arlindo daquele jeito, um cara que era tão cheio de vida, que gostava de ficar zoando todo mundo… esse cara que estava sempre brincando, e sempre com um cavaco ou algum outro instrumento por perto… foi muito difícil.
E vieram memórias daquele cara viciado em ser padrinho (“o Arlindo organizava com a Babi para coagir a mãe e o pai, e quando não dava jeito, ele era padrinho de crisma”), totalmente avesso à intolerância religiosa (era do candomblé, rezava novenas e gravou seu primeiro disco solo pela gravadora Line Records, do Bispo Macedo), com o qual viveu muitas noites de farra.
— Nos anos 80 a gente podia sair a pé pela rua, não tinha negócio de “me dá seu celular”, porque nem celular tinha. Hoje, não, você sai e vão levar teu celular, teu cavaco, teu pandeiro, vão levar tudo. Naquela época, a gente saía do Cacique, ia para o botequim com a Beth (Carvalho), o botequim fechava e a gente ia para outro, e para outro. Você podia curtir a boemia, ficar no Petisco da Vila, que não tinha hora para fechar. São outros tempos, e o Arlindo viveu isso muito bem.
‘O sambista perfeito’
Autor: Marcos Salles. Editora: Malê. Páginas: 462. Preço: R$ 84,90.