O ultramaratonista Cristiano Marcelino, bombeiro militar do 3° Grupamento de Bombeiro Militar (GBM) de Niterói, fez história na Grécia ao completar uma das provas mais desafiadoras do mundo: a Spartathlon. Aos 43 anos, o atleta, que se mudou da Bahia para a cidade na infância, cruzou os 246 quilômetros que separam a Acrópole de Atenas da estátua do Rei Leônidas, em Esparta, em 35 horas, 41 minutos e 17 segundos sem parar.
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Marcelino relata que a 43ª edição da ultramaratona, realizada em setembro, foi marcada por condições climáticas extremas:
— A distância por si só já torna a prova muito difícil, mas você ainda encontra pelo caminho calor, frio, região montanhosa, asfalto liso, tudo isso junto, então, o corpo sofre. É uma prova que não tem ninguém “mais ou menos”, todo mundo ali é superatleta.
Cerca de 40% dos 402 competidores de vários lugares do mundo não conseguiram completar o circuito, que só pode ser feito por quem se classificar em provas qualificatórias de alta dificuldade ao longo do ano. Além disso, os atletas ainda passam por um sorteio para determinar quem poderá realizar a corrida.
O feito de Marcelino é resultado de uma carreira dedicada ao esporte, com quase 70 participações em corridas que variam de 50 a mais de mil quilômetros. Para o bombeiro de Niterói, a conclusão de uma prova que pode durar mais de um dia seguido é uma questão mais psicológica do que física.
— Eu sempre falo que uma ultramaratona é um gerenciamento de crise. Numa prova de 35 horas, não tem como tudo dar certo, sempre algo dá errado. Então você tem que gerenciar todos os problemas durante o percurso. Não pensei em desistir em nenhum momento, mas você precisa trabalhar o seu psicológico no dia a dia para chegar na prova e correr mais de 24 horas seguidas sem pensar em desistir — afirma.
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A Spartathlon revive os passos do antigo mensageiro grego Fidípides, que em 490 a.C. foi enviado a Esparta para buscar ajuda na guerra contra os persas. Essa história torna a prova mais especial para Marcelino.
— A história da corrida é muito legal, por isso eu sempre quis fazê-la, para repetir o percurso dos soldados do filme “300”. Quando você completa a prova, é recebido por pessoas vestidas de espartanos e eles te coroam e te entregam um cálice com uma água considerada sagrada na região. É uma sensação única — descreve.
Marcelino confessa que a carreira que escolheu o ajuda a manter um nível físico de excelência, mas para correr ultramaratonas ele precisa conciliar seus plantões como bombeiro a uma rotina de treinos diferenciada:
— Ser bombeiro está intrinsicamente ligado a ter um bom condicionamento físico. Como eu trabalho em escala de plantão, fica mais fácil conciliar os horários. Então, o que eu procuro fazer é correr seis vezes na semana e completar meu treinamento com natação e bike.
Segundo ele, Niterói é uma ótima cidade para realizar treinos voltados para esse tipo de atividade física:
— A cidade é excelente para treinar. Saindo da minha casa em São Francisco, eu consigo correr em asfaltos lisos para velocidade, na areia da praia para resistência e até me preparar para corridas nas montanhas, por conta da subida do Parque da Cidade.
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Para conseguir realizar o sonho de disputar a prova da Spartathlon, o atleta contou com o apoio financeiro da prefeitura de Niterói, por meio da Secretaria municipal de Esporte e Lazer. Segundo ele, a viagem para a Grécia mais o valor da inscrição ficavam muito caros, por isso a ajuda financeira foi essencial para que o conseguisse “representar bem a nossa cidade”.
Marcelino é conhecido por buscar as provas mais difíceis do calendário mundial. Ele conseguiu a vaga na Spartathlon após se qualificar em uma ultramaratona de 24 horas em Indaiatuba (SP). Depois de não ser selecionado no ano anterior, foi sorteado em 2025.
Seu currículo inclui ainda algumas das provas de corrida mais desafiadoras do mundo. Uma delas é a Portugal 1.001 Ultramarathon, uma maratona de mais de mil quilômetros, em que os corredores atravessam o país inteiro. O bombeiro inclusive se sagrou campeão geral nesta ultramaratona após 14 dias correndo.
Além disso, ele já completou o circuito Bad 135 World Cup, que reúne três provas em ambientes de extrema dificuldade. São eles: uma corrida de 217 quilômetros no Vale da Morte da Califórnia (EUA), um dos lugares mais inóspitos do planeta; a Arrowhead Ultramarathon, que é feita sob o gelo na cidade de Minnesota (EUA); e a BR 135 Ultramarathon, uma corrida de 135 milhas em montanhas brasileiras, na Serra da Mantiqueira.
Os próximos objetivos de Marcelino já estão decididos: um deles é tentar chegar ao topo do Aconcágua, na Argentina, a montanha mais alta das Américas, com 6.962 metros, feito que ele já tentou mas não conseguiu outras duas vezes. Pretende também disputar a Western States 100, uma das ultramaratonas mais antigas e difíceis do mundo.
Em Niterói, o bombeiro organiza anualmente a Nit Ultra Run, uma ultramaratona de 12 horas na Praia de Piratininga, em que os atletas dão voltas em um circuito de 1.400 metros. Para quem busca ingressar neste mundo, a dica do atleta é clara:
— Trace um objetivo e, mesmo que ele pareça muito difícil, trabalhe em cima dele. Seja realista, mas treine bem e diariamente que um dia garanto que você chega lá.

