O tarifaço anunciado pelo governo dos Estados Unidos em abril — com sobretaxas sobre grãos, carnes e eletrônicos — ampliou incertezas no comércio global e reabriu janelas para exportadores como o Brasil. Com os chineses em busca de alternativas para substituir parte do que compravam dos americanos, produtos brasileiros voltaram ao radar, assim como projetos de investimento e acordos bilaterais.
— Se o Brasil pode ganhar com isso? Pode, mas não é trivial. Pode, se você tiver alguma estrutura de exportação bem consolidada, uma diplomacia econômica eficiente, e um mercado que responda. Mas, ao mesmo tempo, você vai ter mais produto chinês circulando por aí. O Brasil não vai escapar disso — diz Lívio Ribeiro, sócio da BRCG e um dos maiores especialistas em economia chinesa no mundo.
Rafael Perez, economista da Suno Research, aponta que parte do dinamismo atual das exportações brasileiras está ligada ao aumento da produção e à maior previsibilidade nas relações com a China:
— A Argentina vem crescendo, na verdade ela retomou a produção de soja e de milho, e a China vem comprando soja e milho também da Argentina. Os EUA são os concorrentes, mas na atual circunstância estão atrás das concorrentes.
Para ele, “o Brasil é concorrente mais confiável. O Brasil tem relação muito mais pragmática e estável com a China.”
Essa percepção é compartilhada por Luiz Fernando Figueiredo, presidente do conselho de administração da JiveMauá. Para ele, o buraco deixado pelos EUA no comércio exterior global pode gerar novas demandas sobre produtos brasileiros.
— Vários produtos do Brasil que tinham concorrência americana com relação à China não vão ter mais. Então talvez até uma certa majoração de preço. Talvez o Brasil seja o que menos perde — diz.
Ainda assim, há ressalva sobre riscos de longo prazo.
— É uma situação muito incerta, mas que, sem dúvida, está indo numa direção muito ruim. Vai nos levar a um mundo que vai crescer menos, que vai ser menos produtivo, que vai ter mais inflação, que vai gerar menos melhora na vida das pessoas — diz Figueiredo.
No primeiro trimestre, a corrente de comércio entre Brasil e China somou US$ 38,9 bilhões, segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, com exportações brasileiras de US$ 19,8 bilhões. Embora o saldo seja positivo — US$ 745 milhões — houve queda de 13,4% nas exportações em relação ao mesmo período de 2024, enquanto as importações saltaram 35%, puxadas por embarcações e plataformas flutuantes.
O salto nas importações acendeu o alerta para o possível redirecionamento de produtos chineses para o Brasil, à medida que os EUA aumentam barreiras comerciais.
Segundo Ribeiro, essa oferta de produtos vai fazer o preço desses bens nos mercados fora dos EUA caírem.
A falta de competitividade da indústria brasileira é o principal fator de risco para a possível enxurrada de produtos chineses no país, segundo Leandro Gilio, pesquisador e professor do Insper Agro Global. Apesar da queda parcial nas exportações brasileiras para a China, a tendência de médio prazo ainda é de expansão:
— Abre certa possibilidade da expansão do nosso mercado. Mas o encarecimento geral de insumos pode apertar a margem dos produtores e isso deve ter impacto mais para as próximas safras — diz Gilio.
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O movimento de reconfiguração comercial já começa a se traduzir em decisões estratégicas que podem beneficiar a indústria brasileira.
— O Brasil pode ser uma plataforma de vendas de empresas chinesas para os americanos. A China precisa diversificar geograficamente suas bases de produção. Então, por que não produzir no Brasil? — diz Charles Tang, presidente da Câmara de Comércio e Indústria Brasil-China.
Não só empresas chinesas podem vir parar no Brasil. A gigante americana Apple estaria estudando ampliar a produção de iPhones na fábrica da Foxcomn em Jundiaí (SP), com foco na exportação para mercados fora da China. Essa reorientação das cadeias produtivas deve impulsionar investimentos privados no país e iniciativas visando ampliar a capacidade de financiamento à exportação e à infraestrutura.
Em junho do ano passado, uma missão oficial à China, liderada pelo vice-presidente Geraldo Alckmin, resultou em acordos de crédito. Foram mais de R$ 24 bilhões em linhas aprovadas por bancos chineses, com foco em infraestrutura, economia verde e desenvolvimento industrial.
Nas últimas cinco décadas, o contraste entre as trajetórias econômicas de Brasil e China ficou mais evidente — e, em determinado momento, a curva virou de vez. Em 1970, o Brasil tinha PIB per capita de US$ 444, mais de quatro vezes o valor chinês à época (US$ 113, segundo o Banco Mundial). Trinta anos depois, a diferença persistia: US$ 3.767 para os brasileiros contra US$ 959, para os chineses. Mas a virada veio rápido. Em 2020, a China já havia ultrapassado o Brasil, com PIB per capita de US$ 10.409, enquanto o do Brasil estava em US$ 7.074.
Esse salto veio acompanhado de uma guinada tecnológica. Em meados dos anos 1990, Brasil e China apareciam em posições comparáveis no número de patentes: cerca de 19 mil para o Brasil contra 15 mil para a China. Vinte e cinco anos depois, os papéis se inverteram. A China chegou a 1,35 milhão de pedidos de patentes em 2020, enquanto o Brasil teve apenas 5,2 mil. O resultado foi uma mudança de posição no tabuleiro global. A China virou potência. O Brasil, não.

