Na Fórmula 1, em que os pilotos competem em velocidades de mais de 320 km/h, é inevitável que eles às vezes batam nas paredes ou nos anteparos de borracha. O que impressiona é a rapidez com que os restos dos veículos são reparados.
— É sempre uma destruição controlada, dependendo da gravidade do acidente — disse Ollie Middleton, principal mecânico do piloto da Williams, Carlos Sainz Jr., em uma entrevista.
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Acidentes durante uma corrida podem impossibilitar o piloto de concluir a prova, mas, se ocorrerem durante os treinos ou a classificatória, as equipes podem e devem consertar os carros. Os mecânicos precisam consertar um veículo danificado nos boxes da equipe, embora o trabalho real comece quase assim que ele atinge as barreiras.
A Alpine estava em ação no Grande Prêmio do Japão do mês passado em Suzuka quando o piloto australiano Jack Doohan (oficialmente substituído na quarta-feira pelo argentino Franco Colapinto) bateu poucos minutos após o início da segunda sessão de treinos.
— Temos o sinal de TV. Em Suzuka, ficou claro como cristal: foi um desastre — disse Rob Cherry, diretor da equipe de corrida Alpine, em uma entrevista. — Assistindo ao replay, ficou bem óbvio o que precisávamos fazer. Também temos muitos sensores no carro que mostram as cargas na suspensão e as forças G que o chassi suportou. Essa é a parte baseada em dados, então começamos a fazer avaliações com base nisso.
Os mecânicos começam logo a preparar as peças de reposição necessárias (as equipes sempre as levam para cada Grande Prêmio). Uma inspeção visual quando o carro retornar aos boxes fornece mais detalhes do problema.
— Podemos ver nos dados se algo excedeu seu limite de estresse — disse Middleton. — As coisas mudam quando o carro retorna aos boxes e você vê fisicamente os danos. Você vê, por exemplo, que os radiadores estão destruídos. Então, com um plano detalhado de 15 minutos, você toma uma decisão e a coloca em prática.
Após o acidente de Doohan, a Alpine trouxe um chassi reserva de seu depósito em um contêiner para os boxes, e os mecânicos começaram a trabalhar. A equipe recebeu a aprovação necessária da FIA, órgão regulador do esporte, para fazer a mudança no chassi.
O carro de Doohan, o A525, foi equipado com uma nova asa dianteira e traseira, assoalho, carroceria, caixa de câmbio, componentes de suspensão e escapamentos, embora o motor estivesse intacto e em condições de uso. O reparo foi concluído em cerca de oito horas, e o carro estava pronto para o treino final no dia seguinte.
— As pessoas simplesmente se unem; elas não são galinhas sem cabeça correndo sem rumo; elas conhecem seus limites, mas podem dar uma mão — disse Cherry. — Talvez um esteja varrendo o carbono quebrado e o cascalho do chão; cada pequena ajuda é bem-vinda. E ninguém precisa pedir; é tão suave e fluido.
A equipe pode então instalar gradualmente os novos componentes. Quando um carro sofre danos estruturais, “é uma situação completamente nova”, disse Middleton. Neste caso, enquanto um coloca parafusos embaixo da carroceria, outro conserta uma carenagem, e por aí vai.
Os mecânicos entenderão que alguns componentes não podem ser reparados, mas outras peças menos danificadas podem, em teoria, ser restauradas para funcionar corretamente.
— Colocamos a sucata em uma caixa, depois há outra caixa onde tudo parece bom [para uso], mas está sobrecarregado ou precisa de mais inspeção — disse Cherry. — Ele vai para a fábrica, passa por vários processos de aprovação, depois um gerente de engenharia da fábrica dá sinal verde e confirma que está tudo certo, e o produto pode ser colocado de volta no caminho certo para uso. Antes, as peças eram descartadas, mas na era dos tetos de custos, as coisas são diferentes, e o valor do material é maior. Você não pode simplesmente se livrar dele.
Localização e tempo também influenciam o trabalho dos mecânicos. Os danos causados por colisões costumam ser maiores em circuitos de rua, onde a logística de recuperação rápida de um carro danificado pode ser mais difícil devido ao menor número de estradas de acesso.
— Jeddah é um circuito onde não consigo assistir a uma volta de qualificação na tela, onde você fica tão perto de um muro que o menor arranhão pode causar o maior dano — disse Middleton sobre a corrida na Arábia Saudita. — Perto do fim da temporada pode ser exaustivo. No final de um turno triplo, os mecânicos estão consertando ali mesmo. Caso o motorista tenha sofrido alguma batida ou desgaste, as peças de reposição são perdidas e devem ser utilizadas, independentemente de haver ou não um acidente. Então, no final, você está em apuros.
Um acidente de piloto com pouco tempo de recuperação entre as sessões também aumenta o estresse.
— A maior pressão acontece entre a terceira sessão de treinos e a qualificação, pois há pouco tempo disponível e, se você não se classificar, ficará para trás — confessou Cherry.
Há muito tempo, diz ele, houve um piloto, Vitaly Petrov, que tinha o “hábito de bater, e um talento incrível para isso”, no terceiro treino, quando havia apenas duas horas para consertar o carro antes da classificação. O assoalho foi danificado, a carroceria, as asas e a caixa de ar do motor pegaram fogo. No entanto, a equipe consertou o carro a tempo da classificação, e é nessas situações que a camaradagem realmente brilha.
— Com tempo e informações suficientes, a maioria das pessoas consegue fazer qualquer coisa, até mesmo construir um carro de F1: se você tiver o manual e a documentação, conseguirá fazer isso, só levará tempo. É aí que as pessoas ganham dinheiro: fazendo sob pressão, trabalhando rápido e apertando os cintos para cumprir o prazo, mas ainda assim tem que ser perfeito — disse Cherry.
A Williams sofreu dois acidentes graves na qualificação para o Grande Prêmio de São Paulo do ano passado, que foi adiado de sábado para domingo de manhã. Para Alex Albon, o resultado foi pior: carro destruído, fora da corrida. No caso de Franco Colapinto, ele conseguiu correr, largando em 18º. Ele então sofreria outro acidente na corrida, na volta 31, na chuva.
— É o pior pesadelo de qualquer um, a sensação de que, se algo der errado, será um desafio — disse Middleton. — Começamos com apenas um carro (Colapinto), mas, considerando o pouco que tínhamos de reserva, ficamos felizes por ter um carro em boas condições no grid. As emoções são intensas ao longo do dia; você passa da sensação de desânimo, e as câmeras adoram mostrar as pessoas com a cabeça entre as mãos, à emoção imensa de ter o carro na pista e um desempenho confiável em uma corrida.

