- Só qualificados: Visto de procura de trabalho em Portugal para todas profissões chega ao fim
- Oportunidades: Portugal é destino preferido de milhões de brasileiros com formação superior
A falta de talentos na área de TI seria de aproximadamente 20 mil profissionais. Somente uma empresa ajudou na imigração de dois mil brasileiros, como mostrou o Portugal Giro.
O pacote anti-imigração do governo, aprovado no Parlamento, limita o visto para procura de trabalho aos qualificados, confirmando a falta de mão de obra especializada e prometendo facilidades.
O problema é que as alterações que afetam futuros imigrantes não foram regulamentadas. E os considerados qualificados que já moram e trabalham no país criticam o tratamento da AIMA.
Brasileiros qualificados planejam criar uma associação para dar visibilidade à luta em busca da regularização. Por mais que tenham tudo em ordem, dizem enfrentar burocracia redundante.
A brasileira Fernanda Coelho é engenheira e atua na análise e engenharia de dados em uma consultoria de TI. É dela a ideia de criar a associação para dar “voz e apoio jurídico aos profissionais”.
— Somos milhares de trabalhadores, grande parte chegou recrutada por empresas locais, já com visto patrocinado desde o Brasil — disse ela, completando:
— Viemos confiantes, investimos tudo na mudança e trouxemos nossas famílias. Jamais imaginávamos passar por estes entraves burocráticos, que geram desgaste emocional, instabilidade e comprometem nossos planos, apesar de cumprirmos todas as obrigações.
Segundo ela, “há muitos relatos sobre os atrasos da AIMA, dificuldade no reagrupamento familiar, impossibilidade de viajar a trabalho” e, agora, uma burocracia extra.
— Recentemente, um grande gargalo tem sido o pedido de uma declaração de honra de moradia, assinada pelo locatário. Há proprietários que se recusam e o processo fica por decidir — disse ela.
Uma carta que serve como compromisso de honra para atestar a capacidade de manter um local para morar foi criada para adicionar nova exigência além do contrato de aluguel.
Analista de dados de uma empresa de logística, Fernanda de Castro explicou como seu processo emperrou pela falta da nova exigência, apesar de ter o contrato regular:
— Enviei o contrato assinado por mim e pela proprietária, registrado no portal das Finanças. Mesmo assim, disseram que eu precisava da carta de compromisso de honra. Tive a maior briga com a proprietária, que não quis assinar. Mandei a carta só com a minha assinatura e todos os documentos que eu tinha e até agora estou à espera.
Fernanda entrou em Portugal depois de ser contratada ainda no Brasil. Desembarcou em 2022 autorizada por um visto D3, de trabalhador altamente qualificado.
— Estou com o processo de renovação de residência parado desde junho e aguardando a aprovação da documentação de moradia, porque enviei tudo o que pediram e, mesmo assim, alegam que não tenho casa. Não consigo viajar a trabalho e não consigo pedir empréstimo — disse ela.
Engenheiro de desenvolvimento de programas de uma das maiores empresas de consultoria do país, no Porto, Arthur Costa já chegou em Portugal em 2022 com contrato de trabalho. Agora, enfrenta desde maio a burocracia extra para renovar a autorização de residência:
— Depois que eu entreguei todos os documentos e me apresentei presencialmente na missão do governo, o processo mudou, exigindo os antecedentes criminais com apostilagem de Haia e uma assinatura do proprietário sobre juramento de honra, mesmo que o contrato esteja no meu nome e cadastrado no portal das Finanças.
Sem autorização válida, Arthur não pode deixar Portugal sob o risco de não conseguir voltar. Está adiando a viagem ao Brasil para visitar a família.
— A maior dificuldade é saber que eu não posso viajar ao Brasil para ver o meu pai, que atualmente passa por um quadro gravíssimo de falência renal, fazendo hemodiálise — disse ele, completando:
— O meu status atual é “o seu processo está a aguardar a decisão por parte da AIMA”.
Diretor em uma empresa de engenharia civil de Setúbal, Felipe Pereira está com o processo de autorização de residência emperrado e com informações conflitantes. Já foi aprovado, voltou para “em decisão” e a única coisa que permanece é a incerteza:
— Estava como “Aprovado. Aguardando cartão”. Voltou para “aguardando decisão” para depois ser “Recusado”. Foi dito que eu não apresentei situação regular nas Finanças e na Segurança Social. Então apresentei, conforme solicitado, e o voltou a estar aprovado. Aguardando o cartão…
Ele já havia enfrentado a burocracia no consulado de Porto Alegre quando estava em busca do visto no último ano. Sem a autorização de residência, a vida não anda em Portugal.
— Não consigo completar o processo de obtenção da minha carteira de motorista, ter livre trânsito no espaço comum da União Europeia ou trocar meu domicílio fiscal — disse ele.
A AIMA lançou em novembro um site para agendamento de profissionais qualificados, mas as queixas se multiplicam. Procurada, a agência não respondeu.

