Guardiã não só da memória ancestral de sua família, mas de um legado de artistas de grande importância para o Brasil. Filha de Itamar Assumpção (1949–2003), irmã da compositora Serena (1977–2016) e sobrinha de Denise (1956–2024), atriz do Teatro Oficina morta em 2024, a cantora paulista Anelis Assumpção assumiu a responsa de manter viva a cultura produzida por seus parentes.
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Diretora do Museu Virtual Itamar Assumpção (MUI.TA), que completa cinco anos em 2025, quando o músico faria 75, ela se equilibra entre a batalha por melhores condições para o acervo (acondicionado na casa de sua mãe, Zena, e disponível à visitação pública) à dor de dar conta do vazio dessas ausências.
Enquanto isso, canta para subir. Literalmente. Após quatro discos autorais, lançou, mês passado, “Dubs Imaginários”, álbum de remixes oriundos de “Amigos imaginários” (2014). Agora, elabora projeto com composições próprias, dedicado ao reggae, gênero presente em sua trajetória, mas que abraçou de vez com “Legalize it”, show em homenagem a Peter Tosh. É o desdobramento dele, com repertório renovado por canções dela, de Bob Marley e do pai, Itamar, que a artista apresenta sábado, na Marina da Glória, no festival Queremos!
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Você é uma das artistas brasileiras que mais dialogam com o reggae…
Sou apaixonada pela história do reggae, a capacidade de se criar um gênero rico diante de uma situação social complexa. É música solar com mensagem e contexto político. Essa musicalidade me traz uma sensação boa. Na dúvida do que escutar, ponho reggae. Desde pequena. Tem a coisa emocional, emotiva, essa leveza que essas inventividades pretas, como o samba de rua, de morro, de quadra, que independente de miséria e pobreza, sempre conecta as pessoas. Que traz um senso comum e a ideia de que, naquele espaço, é possível trabalhar o humor. Além de inventarem um gênero, inventaram o direito à emoção.
Se tornou regueira de vez?
Complicado dizer isso… Estou começando a produzir um disco autoral, com uma canção do meu pai e uma ou outra coisa que, do ponto de vista literário, faz conexão com o que estou compondo. Talvez, será a primeira vez em que assuma um gênero com mais afinco. Nunca fui afeita a gênero. O reggae tem uma presença divinal, a cultura rastafári é religiosa, com leituras bíblicas, e o que eu faço não tem nada a ver com isso. Não tem ideia fixa sobre Deus, é mais filosófico, trazendo contrapontos. Aparece Deus e o diabo. Penso no reggae como ambiente sonoro que possibilita tocar nesses assuntos.
O Museu Virtual Itamar Assunção completa cinco anos ao mesmo tempo em que Itamar faria 75. Haverá uma exposição física?
Temos possibilidades de expo presenciais em São Paulo e fora do Brasil. Queremos que seja itinerante. É uma batalha, um sonho ter um museu virtual. A reserva técnica é na casa da minha mãe, Zena, na Penha (São Paulo), dentro dos mínimos padrões de museologia. Conseguimos criar um ambiente adequado, duas pessoas trabalham lá, há regras de acervo para ser visitado. Estamos tentando criar uma possibilidade mais alinhada com como deve funcionar o acondicionamento de um acervo.
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É primeiro museu virtual de um artista negro brasileiro, o primeiro com tradução em iorubá, além de alemão e inglês. O que significa?
Significa isso mesmo, infelizmente. A gente vive um momento no Brasil em relação à racialidade e memória dessas pessoas em que ainda precisar ficar afirmando que é o primeiro. Porque não é o primeiro de 100, é o primeiro e único. Não ter muitos museu temáticos acerca do pensamento crítico da produção de pensamento e arte negra brasileira em 2025 é um absurdo em 2025. Só em São Paulo, tem uns 100 museus temáticos. Inaugurou o Museu das Favelas que, de alguma forma, faz essa conexão, mas falo de artista da literatura, do teatro, grupos estão sempre numa batalha paralela, individual.
Significa é um despertar mesmo. Fui atrás de fazer isso porque precisava organizar as coisas do meu pai quando comecei a perceber que ele era objeto de estudo. No acervo, há mais de 30 teses sobre ele, com diferentes pontos de vista. Pesquisadores começaram a ter entraves, tipo: “Onde estão as coisas do Itamar?”. Isso foi um disparador para eu organizar.
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E você, ao contrário de herdeiros que embarreiram a obra de artistas por conta de dinheiro, resolveu foi facilitar. Se nebo babies surfam na onda de suas famílias, você compartilha o legado
Há questão de direitos, obras que são de gravadoras e editoras e que, para fazer qualquer destrato, envolve muito dinheiro. Há uma cilada de mercado que a maioria dos artistas caiu porque se não vendessem fonogramas, não conseguiram gravar disco. A minha sorte é que meu pai era um visionário nessa relação. Tinha tanta necessidade de ser livre que qualquer possibilidade de estar preso era desesperadora. Vejo que isso é raro porque artistas fazem concessões para poder existir. Ele é pioneiro no sentido de ser dono da própria obra. Fui criada para manter esse pensamento vivo.
O museu tem uma sala dedicada á sua irmã, que morreu de câncer. Sua tia também se foi recentemente, além do seu pai. Além de uma inteligência de negócio, é preciso inteligência emocional para gerir tudo isso?
Fui entendendo meu papel dentro dessa construção de dignidade com muitos altos e baixos emocionais. Não sei se é inteligência emocional… tenho é necessidade no sentido de que, se eu não fizer, isso morre. Memórias acabam. Minha herança é de bens imateriais. Entendi que essa herança não era só minha. Não tenho como ter isso guardado e fazer negócio. Não faz sentido. Sou herdeira de uma série de ideias e da produção dele que não pode ser só minha, é coletiva. Isso me libertou, me fez ter uma relação mais saudável com tudo. Quando eu pulverizo, trabalho com mais alívio. Não quero produzir riqueza de matéria. A função é ser um espaço que se pretende público, conectado à sociedade. Tem o meu pai e tem uma pessoa que é de uma determinada época, região, tipo de território, formação, e isso é contexto da História de um país inteiro.
E você segue trabalhando a memória preta ao regravar Luiz Melodia, Clementina de Jesus…
Estou sempre ligada nisso. É uma frequência ajustada que acaba acontecendo naturalmente. Cada vez que um desencarna, me sinto na obrigação de cuidar também.
Seu disco “Taurina” é dedicado à Serena, para quem você também escreveu “Serena Finitude”, considerado um dos melhores livros infantis de 2022. Foi um jeito de lidar com a perda dela. Já tinha perdido do seu pai e agora perdeu sua tia, irmã de Itamar. Como tem sido enfrentar tantas perdas?
É uma barra. São muitas fases. Toda vez que alguém morre, todos os outros vultos voltam. A morte é concreta, e o tamanho dessa concretude é o que assusta. Eu só vou indo. O suporte da minha família, meus filhos filhos (Rubi, de 23; Bento, filho de Serena, de 20, e Benedito, de 13)… Estou cercada de pessoas com muita amorosidade.
Enxerga a continuidade desse legado nos seus filhos? Como busca passar a eles essa ideia de patrimônio imaterial familiar?
Vejo muito e parte do meu movimento tem a ver com isso. Talvez, tenha ficado desesperada com a ideia de que meus filhos não conheceram meu pai. Rubi tinha um ano quando ele morreu. Bento e Benedito têm só essa relação de contação de história. Quero que saibam do grande privilégio, o avô tem uma estátua na cidade. Me movimentei muito para que eles soubessem quem é esse avô, porque eles são de determinado jeito, porque gostam de tal comida. É uma necessidade nossa mesmo, da negritude brasileira, que não se reconhece para trás. Não tenho foto dos meus avós, não tenho registro da infância do meu pai. Isso é quase inventar uma memória. Meus filhos podem ter essa possibilidade de saber como é a voz dessa pessoa porque ela gravou disco. Veem fotos e se reconhecem. Espero que não seja uma obrigação, que se contaminem porque alguém vai ter que seguir com essa missão.
Arrigo Barnabé, grande parceiro do seu pai, me contou que aprendeu a fazer feijoada com Itamar. E também que ele era muito alegre. O que foi certa surpresa para mim, que vejo bastante melancolia nas canções dele. Você começou sendo backing vocal dele, conheceu o pai e artista. Como eram essas duas figuras?
Meu pai tinha uma coisa com feijoada. Falava que era comida de quarta a sábado: você faz no sábado, come domingo, segunda, terça e quarta faz de novo. É o prato do preto quilombola. Meu pai cresceu num quilombo onde só tinha pessoas pretas retintas muito próximas à África. Era completamente louco por feijoada. Se não comesse feijão, parecia que não tinha almoçado. Tinha macarronada? Ok, mas coloca um feijão.
Era uma pessoa hilária, tinha um baita humor, era divertido, imitava muito bem as pessoas. Um ator mesmo. Fazia vozes, jeitos de andar. Tinha leveza, era uma pessoa sensível e conectada à simplicidade do cotidiano. Tinha um quintal com suas orquídeas. Era uma pessoa leve. Tinha 30 anos quando eu nasci e muita paciência com criança. O quintal era um lugar imagético. Ensinava a gente a cozinhar, fazer feira, escolher fruta.
As pessoas se assustavam: “Itamar faz feira? Sabe cuidar de bicho?” Porque ele teve que criar uma carapaça, uma persona para lidar com o mundo externo.
Escolheu viver na periferia, não era de badalação. Quer dizer, era um louco, mas a loucura dele era fazer som, escrever poema. Claro tinha a melancolia, a depressão, muitas questões de saúde mental que não eram conversadas, diagnosticadas. Era sempre 8 ou 80. Era um grande pensador, até que pensar sem ter interlocução começou a doer. “Ninguém está entendendo o que eu penso”. Isso trouxe muito sofrimento.
Percebia essa angústia existencial nele? Terapia era uma possibilidade para um homem preto naquele contexto?
Jamais. Ele tinha um grande amigo psicanalista, o Guará. Mas havia todos os empecilhos como dinheiro e até mesmo… Hoje, a psicanálise está mais esperta, abrindo possibilidades, considerando corpos. Ele até tentou, porque percebia que alguma coisa poderia ser melhor encaixada. Mas a terapia freudiana eurocentrada não bateu. Essa angústia era parte da pessoa, a insegurança financeira era pesada, a carga patriarcal de família de ter que trabalhar para que a mulher não trabalhasse. Meu pai tinha esses dogmas. Ficava sem dinheiro, e ficava mal. A família da minha mãe, uma mulher branca, dizia: “Ah lá, eu sabia!”.
Como diz seu pai em “Leonor”, “viver somente de amor é mesmo tão lindo quanto precário?”
Aí já era papai falando da ideia do amor que foi colocada na nossa cabeça e coração, a do amor romântico. Nada vai se sustentar sozinho, conviver é um grande combinado de muitas coisas. Mas ele e minha mãe eram completamente apaixonados, obcecados um pelo outro.

