Querido Clube de Regatas do Flamengo,
Na quinta-feira da semana passada seu perfil oficial postou uma nota no Instagram anunciando “o fim do futebol brasileiro” se o governo federal proibisse as bets. A nota apresenta o patrocínio das bets como uma das principais fontes de receita do futebol brasileiro e credita a ele a hegemonia recente dos nossos clubes na Libertadores e na Sul-Americana. Adverte que uma mudança “abrupta” nas regras reduziria a capacidade de investimento dos clubes e poria em risco contratos já firmados. No final, conclui que a proibição só pioraria a situação. Sem o mercado regulado, diz, os apostadores migrariam para plataformas clandestinas, que não seguem regras nem colaboram com as autoridades. A nota gerou forte reação da torcida, com 9 em cada 10 comentários criticando sua posição. Gostaria de me juntar a esses torcedores.
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Em primeiro lugar, as apostas estão destruindo o país, viciando os apostadores e endividando as famílias. Fizemos mal em legalizar as apostas on-line. O dinheiro das bets é volumoso e permite contratar jogadores e melhorar os centros de treinamento, mas o benefício não compensa o mal que faz às famílias. Pesquisa More in Common-Ipsos mostrou que, quando os brasileiros são colocados diante do dilema de manter as bets legalizadas beneficiando financeiramente os clubes ou passar a proibi-las, protegendo as famílias do endividamento e do vício, 68% preferem a proibição, mesmo que prejudique o clube.
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A mesma pesquisa mostra que a disseminação das apostas também põe em risco a integridade dos resultados das partidas, aos olhos do público. Cinquenta e oito por cento dos brasileiros acham que as bets aumentam muito o risco de o resultado dos jogos de futebol ser manipulado. Apenas 10% acham que as bets não aumentam o risco. Não é bom para o futebol que o público tenha dúvida sobre a idoneidade do resultado das partidas.
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O fato de boa parte dos clubes grandes ter hoje patrocínio de bets significa que a proibição afetará a todos de forma mais ou menos linear, cortando entre 6% e 8% do orçamento. É verdade que o Flamengo tem um patrocínio mais robusto, mas sem as bets nossa superioridade financeira permanece preservada, fruto de nossa excelente gestão, construída desde os anos 2010.
Não será também pelo fim das bets que perderemos a superioridade construída pelos clubes brasileiros no futebol sul-americano, fruto de um campeonato nacional de qualidade, de um mercado maior, de direitos de transmissão bem negociados e de regras de acesso e rebaixamento que têm sido respeitadas. O predomínio brasileiro no continente começou em 2019, muito antes da explosão de patrocínio das bets.
Por fim, a proibição das bets — se bem feita — não significa empurrar os apostadores para o jogo clandestino, em que ficariam menos assistidos do que no jogo regulado. Podemos fazer uma proibição que produza tantos obstáculos que a experiência de apostar se torne difícil e incômoda.
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Podemos começar tirando os apps do Google Play e da App Store. Podemos depois monitorar a publicidade e os fóruns de apostadores e bloquear os domínios dos sites de apostas. Podemos instituir normas que impeçam o Pix e o uso de cartões de crédito em apostas, a partir de uma lista negativa. Não é a mesma coisa apostar no celular, com Pix, incentivado por propaganda na TV, e apostar por meio de VPN, usando meios de pagamento alternativos, de segurança duvidosa. Podemos aumentar tanto a fricção que apostar se torne outra vez um comportamento incomum.
Eu me tornei flamenguista aos 6 anos vendo Zico, Júnior e Leandro conquistar o Brasileiro em 1980, em seguida a Libertadores e o Mundial em 1981. Depois desses anos dourados, o Flamengo passou por altos e baixos. Reergueu-se definitivamente em 2019 com a maravilhosa equipe sob o comando de Jorge Jesus.
A nação sabe que nosso grande momento é fruto de uma combinação feliz: excelente gestão financeira e uma filosofia de jogo que valoriza o toque de bola, o domínio de campo e o jogo agressivo. Chegamos à reta final de 2026 liderando o Campeonato Brasileiro e favoritos para vencer a Libertadores — que ganharemos pela quinta vez. Tudo isso conquistamos por mérito próprio. Não precisamos macular essas conquistas com o dinheiro da miséria das famílias.
Carta ao Flamengo
