Na tarde de quarta-feira, Ronald Duarte orientava a entrega de 800 quilos de carvão ensacados, que serão queimados amanhã na instalação “Brasa, Brasil, braseiro”, uma das 259 obras da coletiva “Casa Brasil”, que inaugura a nova fase do espaço homônimo, no Centro. O prédio da Secretaria Estadual de Cultura deixará de ser Casa França-Brasil, como era conhecido desde que o edifício de 1820 foi transformado em centro cultural, em março de 1990.
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Além da exposição com trabalhos de 57 artistas de todas as regiões do país, selecionados após chamada pública, o espaço também abre amanhã para convidados (e na quarta para o público) a individual “Tarde do Fauno”, de Arthur Chaves, com obras têxteis que ocupam uma sala inteira do prédio. Na maior parte da seleção, a brasilidade é evocada, com abordagens de questões do presente que se relacionam com o passado do espaço: encomendado por João VI para o arquiteto Grandjean de Montigny, integrante da Missão Artística Francesa, o solar neoclássico foi primeira Praça do Comércio da cidade e, posteriormente, sede da Alfândega, por onde entrou parte dos escravizados de várias regiões da África.
— A brasa é um resgate ancestral dessas energias que estão adormecidas. Vamos ter uma ânfora com sete ervas, e quem quiser poderá pegar um punhado e jogar na brasa, para fazer um pedido ou expurgar todas as crueldades feitas antes de nós estarmos aqui — explica Duarte.
A instalação ocupará a entrada dos fundos do prédio, voltada para a Orla Conde, calçadão que liga a Praça XV à Praça Mauá, e que ficará permanentemente aberta, em outra das novidades da nova fase da instituição. As mudanças são parte de um projeto viabilizado por meio da Lei Rouanet, com patrocínio da Petrobras no valor de R$ 4 milhões, e recursos da Secec-RJ da ordem de R$ 2 milhões, que possibilitarão a climatização do local, a criação de um programa de residências artísticas e o planejamento de uma programação contínua no local — em março de 2026, já está prevista a abertura de uma nova coletiva, “Casa fluminense”.
— A programação contínua é importante para criar vínculo com o público. Também teremos recursos para transporte escolar, com o programa educativo desenvolvendo atividades para as escolas e as famílias — adianta Tania Queiroz, diretora e uma das curadoras da Casa Brasil. — Tem uma articulação com outros equipamentos do corredor cultural, o CCBB e o Centro Cultural dos Correios, pegando Também CCJF (Centro Cultural da Justiça Federal) e Paço Imperial, além do pólo gastronômico, para aproveitar todo este movimento da região. A ideia é que uma programação complemente a outra.
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O nome “França-Brasil” surgiu após um convênio com o governo do país europeu, negociado nos anos 1980 por Darcy Ribeiro, então secretário estadual de Cultura, para custear a reforma e a readequação do local, que estava abnadonado após abrigar o 2º Tribunal do Júri, entre 1956 e 1978. Tombado pelo Iphan, o edifício foi requalificado, com apoio da Fundação Roberto Marinho, para fins culturais com projeto do museólogo francês Pierre Castel. Contudo, não houve uma contribuição permanente da França no custeio e na programação da Casa nas décadas seguintes, ao contrário do que o nome indicava, e que levava a perguntas constante de visitantes aos seguranças se havia curso de francês no local.
— Esse reposicionamento tenta resolver essa disforia de identidade do espaço, que não tinha uma parceria constante entre os países. E muita gente costumava até chamar de “Casa França”, suprimindo o Brasil do nome — comenta Jocelino Pessoa, um dos curadores da instituição e diretor da V Arte, empresa parceira da iniciativa. — Mesmo abraçando a brasilidade, curiosamente o novo nome amplia as possibilidades da Casa, podendo receber projetos internacionais também, sem estar delimitado.
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Completando a equipe de curadores da Casa Brasil ao lado de Marcelo Campos e Cadu, Aliã Wamiri Guajajara destaca que a história a ser contada no novo espaço é muito anterior à sua própria construção.
— As obras vão falar sobre etnicidade, identidade, comunidade, tirando esse processo colonial histórico do imaginário social. Vamos abordar a memória desse nosso Brasil, que antes era chamado de Pindorama por povos indígenas falantes do tupi guarani — aponta Aliã. — Vamos mostrar quem somos nós, o povo brasileiro. Um povo que estende as suas vozes, suas encantarias, através de suas crenças, seus legados, suas memórias, do que é criado aqui.
A poucos dias da abertura, Arthur Chaves seguia separando peças de roupa para cobrir os seis metros do pé direto das paredes de uma das salas da Casa Brasil, como vem fazendo no último mês para preparar a individual “Tarde do Fauno”. Com uma máquina de costura para trabalhar no local, o carioca desconstroi as peças de roupas, levadas ao centro cultural em mais de 50 sacos grandes, para reorganizá-las no espaço.
— São peças do meu acervo, outras eu ganho ou compro em lojas e brechós. Tem coisas que são afetivas, roupas de pessoas próximas, e outras vindo de lugares que nem faço ideia — conta Chaves. — Mesmo transformadas em uma composição visual, as roupas trazem uma materialidade, essa presença física das pessoas.
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Próximo à entrada da individual, Yoko Nishio ajustava a posição da tela “Cruzos da fé – Cavalgada de Cabuçu”, da série “Cruzos”, na qual equilibra questões como a ascendência japonesa e a identidade carioca.
— Sempre fui interpelada a falar da minha origem. Mas, além de neta de japoneses, sou filha de nordestinos e nasci em Itaguaí (na Região Metropolitana do Rio). Aqui eu sou lida como japonesa, mas no Japão não — comenta Yoko. — Então comecei a pensar em lugares que me constituem. Na tela, eu reproduzo a estética do ukiyo-e, uma técnica de gravura japonesa que cria um degradê, junto à representação de uma cena da cavalgada de São Jorge em Cabuçu.
Outras obras falam sobre questões da identidade carioca, como a instalação “Cotidiano informal”, de Fernando Sawaya, o Cazé, que tem o papelão como um dos suportes principais, abordando a rotina de trabalhadores informais, que buscam sustenteto em locais de lazer para o resto da população, como o Centro. Ou jogam o olhar para outros planos, como a instalação “A cada passo desta terra há um cemitério e a novifluência do que há de surgir”, de Mandú e Vicente Baltar, criando a forma de um buraco negro a partir de materiais como concreto, terra, ferro soldado e cerâmica.
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Produções de outras regiões podem ser vistas como em obras como as da série “Estudos sobre ossos”, de Juniara Albuquerque, que cria esculturas a partir de carcaças de animais mortos recolhidas na periferia de Jaboatão dos Guararapes, na Região Metropolitana do Recife, finalizadas cokm um aspecto industrial a partir de técnicas de pintura automotiva. Ou a instalação “Santuário”, da cearense Pedra Silva, criada a partir de técnicas de bioconstrução, como o pau a pique, para pensar as relações sociais a partir de comunidades não humanas, como a das formigas saúva.
— O trabalho fala também de ancestralidade, pensa a presença trans dentro do campo sagrado. Construir aqui dentro é também lembrar as mãos que edificaram esse esse prédio — diz Pedra. — É curioso como é sempre deixado na mão da arte a resignificação de espaços de violência, seja no Rio, Fortaleza, em várias outras cidades. Esse processo de retomada não é só um ato simbólico e bonito, precisa ser visceral.
Livros, podcast e aplicativo
Para além da programação artística no local, a Casa Brasil prepara o lançamento de dois podcasts (“Caleidoscópio”, cujo primeiro episódio vai ao ar em dezembro, e “Entrevistões”) e de sua linha editorial, tudo a cargo de Daniela Name. A crítica e curadora também coordena o festival Dobras da Folia, que terá sua segunda edição sediada no equipamento, ampliada a espaços da região, como o Alfa Bar e Cultura. A programação começa no próxomo dia 2, tendo como convidados os carnavalescos Leandro Vieira, Milton Cunha, Jack Vasconcelos, Leonardo Bora e Gabriel Haddad; o intérprete Pixulé, do Paraíso do Tuiuti; a rainha de bateria da Mangueira, Evelyn Bastos; o autor Luiz Antonio Simas; a artista Rafa BQueer, entre outros.
— Também estamos desenvolvendo, com o diretor de arte da Casa, Lucas Bevilaqua, um aplicativo que colabore com a expansão do próprio espaço, com informações da História, da arquitetura, do território — adianta Daniela.

