Criado em 2015 com a intenção de preservar o imóvel que ocupou por sete anos no Cosme Velho, Zona Sul do Rio, o Solar dos Abacaxis, coletivo artístico que adotou o nome do antigo casarão, mudou-se em 2022 para um sobrado na Rua do Senado, no Centro, já com um projeto de diversificar e dar constância a sua programação. Desde então, a instituição integrou-se à vida cultural do entorno, movimentado por rodas de samba, pela Feira do Lavradio e por calçadas que exibem móveis antigos vendidos nos antiquários instalados ao longo da rua.
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Após a mudança para o número 48 da rua no Centro, o espaço sediou 11 exposições — incluindo “Os avessos do avesso da liberdade”, inaugurada no último dia 27 —, oficinas e atividades educativas, residências artísticas, além de eventos como a feira de impressos Delícia, que lotou a sede e a sua frente, com o público dançando ao som de DJs, em meados de março.
No ano em que celebra uma década de atividades, o coletivo planeja ampliar sua atuação, com investimento em seu programa de residência, o Oficina Solar, a realização da Grandiosa Festa Junina, e o desenvolvimento do programa musical Som Solar, em parceria com o Festival Novas Frequências. Durante a SP-Arte, feira do setor que segue até amanhã no Pavilhão da Bienal do Parque Ibirapuera, em São Paulo, a instituição apresenta em seu estande o projeto Solar +10, no qual dez artistas já consolidadas no mercado, como Adriana Varejão, Lucia Laguna, Marcela Cantuária, Vivian Caccuri e Tadáskía, contribuem com obras e indicam outras dez artistas mulheres e não binárias ainda sem representação em galerias, a exemplo de Yanaki Herrera, Siwaju, Xica e Fabia Schnoor.
— Essas datas trazem uma reflexão, nos fazem pensar no que conquistamos nesses dez anos e o que queremos para a próxima década. A partir da mudança para o Centro, conseguimos manter uma constância na programação, com o Solar de portas abertas semanalmente e não só nos eventos, que sempre foi um grande desejo nosso — comenta o arquiteto Adriano Carneiro de Mendonça, diretor executivo da instituição. — Isso nos faz pensar quem somos, aonde queremos chegar e qual a nossa atuação dentro do sistema da arte, mas dentro da sociedade também.
Outra novidade na instituição é a chegada da pesquisadora e professora Izabela Pucu, que passou a fazer parte da equipe curatorial do espaço. Ela assina, com Bernardo Mosqueira e Matheus Morani, a curadoria de “Os avessos do avesso da liberdade”, que aborda o conceito de liberdade nas prisões e manicômios, a partir de obras de artistas como Elian Almeida, Rosângela Rennó, Allan Pinheiro, Jaime Lauriano e Heitor dos Prazeres, além de itens do Coletivo dos Presos Políticos da Frei Caneca, Coletivo RJ Memória, Verdade, Justiça e Reparação e do Museu Penitenciário do Estado do Rio de Janeiro. Entre os objetos apresentados na exposição, estão itens apreendidos dentro de celas ou frutos de oficinas, e incluídos pela primeira vez numa mostra de arte contemporânea, como baralhos feitos de maços de cigarro e máquinas de tatuagem improvisadas.
— É importante ter trazido para a mostra acervos que são patrimônios públicos, apesar de não serem entendidos como tal. Para poder olhar para estes conjuntos e sua importância, entender que precisamos de políticas para eles também — diz a curadora. — Tem uma dimensão nessas obras criadas em prisões ou instituições psiquiátricas que é a da latência do desejo de liberdade, dessa pulsão de vida. Ninguém nasce para ser preso. E faz muito sentido que o tema da liberdade, que vai permear todas as exposições do ano, seja escolhido para celebrar os dez anos do Solar. É algo que está na essência da instituição, na sua história.
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Para Matheus Morani, as obras e itens selecionados pela mostra apontam como a restrição de liberdade pelas instituições também são uma forma de controle social sobre determinada parcela da população.
— Nossa sociedade vem se tornando cada vez mais punitivista, mas o fato de a imensa maioria da população carcerária ser de homens negros, de estratos sociais menos favorecidos, nos faz pensar a quem sempre querem prender, ou quem vai ter acesso ao direito de defesa — compara o curador. — As obras apontam para dispositivos que restringem a liberdade e justificam o discurso em torno disso, atuais ou, por exemplo, do Código Penal de 1890, que instituiu a Lei da Vadiagem.
Um dos artistas convidados a ocupar com uma instalação o andar térreo do Solar foi o paulistano No Martins, que veio ao Rio montar sua instalação “Memorial às mais de 111 vidas”, formado por uma grade de ferro e 111 mãos em vidro, moldadas de pessoas egressas do sistema prisional, que são fixadas à parede. Durante o processo de moldagem, Martins entrevistou os modelos sobre o período que ficaram encarcerados, e o vídeo com os depoimentos também é exibido na obra.
— O título fala de fatos como o número de mortos oficialmente considerado no Massacre do Carandiru, ou dos 111 tiros que mataram os cinco jovens metralhados pela polícia aqui em Costa Barros — explica Martins. — Entre 2014 a 2015, fui educador numa ONG que recebe menores que passaram pela Fundação Casa e estão em medida socioeducativa, e via que aqueles adolescentes eram quase todos negros e pobres. Então, assim como as balas, o sistema também tem um alvo. Por isso as mãos são moldadas em vidro de diferentes colorações, que refletem essa camada da sociedade.
Na visão do diretor artístico Bernardo Mosqueira, um dos fundadores do Solar, o ano consolida uma série de mudanças há muito desejadas pelo coletivo, e que começaram a ganhar corpo com a mudança para o Centro:
— A nova sede trouxe a possibilidade de investirmos em interesses que nos acompanham desde o início, como educação e formação, criação de programas públicos, relacionamentos de território. Acho que o Solar está mais vibrante que nunca, e que estamos cada vez mais próximos do que nos propusemos como missão institucional.

