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Cem anos de futebol contados nas páginas do GLOBO

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julho 27, 2025
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Mário Filho observa Domingos da Guia recebendo uma medalha no Maracanã, em 1947: jornalista que editou Esportes no Globo batiza o lendário estádio — Foto: Arquivo O Globo

Quando o Brasil ainda aprendia a chutar bola e a virar página, nasceu O GLOBO, em 1925. O futebol era um jogo de rapazes elegantes, jogado com chuteiras de couro cru, e o jornalismo era, como ele, uma promessa: um campo aberto onde a bola e a notícia ainda corriam soltas, sem sabermos muito bem para onde iam. Na redação do novo jornal, escolheram o nome numa enquete com os leitores — e foi “O GLOBO” que venceu, como se desde o início já pairasse no ar a ideia de algo redondo, giratório, em movimento constante. Como uma bola. Como o próprio mundo.

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E o que é a História senão isso: uma bola que quica torta, muda de rumo, desafia a lógica dos comentaristas do futuro? Em 1925, ninguém imaginava que o futebol viraria religião nacional, nem que O GLOBO se tornaria o principal escriba dos seus momentos mais marcantes — aquele que, por décadas, acompanharia o vai-e-volta da bola, narrando não só os gols, mas as mudanças do esporte e do país. A bola e O GLOBO, desde então, foram se entrelaçando: uma rolando nos campos, outro girando nas rotativas. E o resultado disso é uma história de cem anos em que o futebol nunca esteve só na página de Esportes, mas espalhado por todo o jornal, como um bom drible que escapa da marcação e aparece onde menos se espera.

Mário Filho observa Domingos da Guia recebendo uma medalha no Maracanã, em 1947: jornalista que editou Esportes no Globo batiza o lendário estádio — Foto: Arquivo O Globo

Feito um Garrincha que, por linhas ou pernas tortas, aparece na cara do gol, o futebol também deixou suas marcas nas páginas de política, urbanismo e até engenharia — e, muitas vezes, foi O GLOBO quem cruzou a bola. A construção do Maracanã, por exemplo, nasceu de uma campanha fervorosa comandada não por um engenheiro ou político, mas por um jornalista: Mário Filho, então editor de Esportes do jornal. Enquanto se discutia se o estádio deveria ser em Jacarepaguá, Mário bateu no peito, escolheu o bairro do Maracanã e começou uma sequência de textos e manchetes que transformaram opinião em pressão. Mobilizou leitores, clubes, torcedores e colunistas como quem organiza uma torcida organizada de ideias. E venceu. O estádio foi erguido onde ele queria, e décadas depois, seu nome batizou o próprio templo.

A cobertura da obra foi feita quase como uma final: o avanço das arquibancadas virava notícia, os operários eram tratados como craques, e cada novo anel de concreto parecia mais uma volta da bola no campo do imaginário nacional. Quando a Copa do Mundo de 1950 finalmente chegou, O GLOBO já narrava aquele estádio como um personagem, um colosso que respirava junto com a cidade. A derrota para o Uruguai na final foi um baque não só para a Seleção, mas também para o jornal, que desde antes da inauguração havia apostado que ali se escreveriam as maiores epopeias do futebol brasileiro. E estavam certos, mesmo com o tropeço inaugural.

Mário Filho foi mais que arquiteto de estádios imaginários, foi o inventor de um certo jeito de escrever sobre futebol que ainda se lê nestas páginas. Criou estilo, ritmo, linguagem. Popularizou expressões que ninguém mais largou, como “Clássico das Multidões” e, principalmente, “Fla-Flu”, que primeiro apareceu no jornal como hipérbole bem-humorada e logo virou vocabulário informal da língua portuguesa. Era mais do que um jogo: era um verbete em construção. A maneira como O GLOBO falava de futebol transformou o que era só um placar em patrimônio cultural. E é por isso que, até hoje, há quem leia o jornal de trás pra frente, só para começar pela parte que “mais importa”, ou que mais emociona, para não magoar os colegas de outras editorias. Como quem entra no estádio pela geral para depois encontrar seu lugar na arquibancada.

E foi da tribuna, muitas vezes sem enxergar bem o campo, como ele mesmo confessara, que Nelson Rodrigues, irmão de Mário Filho e vencedor da fervente disputa de mais icônico colunista de Esportes da história do GLOBO, escreveu algumas das mais belas páginas do futebol brasileiro. Em “A sombra das chuteiras imortais”, título de romance e de sua coluna ao mesmo tempo, o futebol virava pretexto para falar da alma, da pátria, da tragédia e da comédia humanas, tudo com chuteiras, calções e suor. Ter Nelson como cronista esportivo era como escalar um Machado de Assis para comentar o Brasileirão: ele dava ao jogo uma solenidade mítica e, ao mesmo tempo, um olhar de esquina. Transformava o 2 a 1 numa catarse shakespeariana. Foi ele quem nos ensinou que, no futebol, não há apenas centroavantes e zagueiros. Há canalhas, virgens, profetas e traidores. E que por trás de cada gol, havia sempre um capítulo da psicanálise nacional.

Se Nelson dava drama, Otélo Caçador equilibrava com o riso. Por mais de 30 anos, suas charges e notas pontuavam a cobertura esportiva com pitadas de sarcasmo e ternura — driblando a sisudez e ajudando a eternizar personagens que o texto, sozinho, não daria conta. O GLOBO foi também o único jornal do país, talvez do mundo, que teve como colunista um técnico da Seleção Brasileira em pleno cargo: João Saldanha, na campanha para a Copa de 1970, escrevia como se hoje Carlo Ancelotti publicasse todo domingo no caderno de Esportes. Mas em vez de mandar por e-mail, como Carlos Eduardo Mansur ou Marcelo Barreto, colunistas dos tempos digitais, fazem hoje, Saldanha batia ponto na redação, de cigarro em riste e verve afiada. Era o centroavante da notícia: escrevia enquanto todos esperavam, em volta, querendo saber se Pelé estava bem, se Tostão ia se operar, quem seria convocado. Só não escreveu durante a Copa porque foi demitido antes, por não aceitar interferência da ditadura na escalação do time.

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  • Cronista oficial das Copas
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Cronista oficial das Copas

E falando em Copa, se ela é o ponto mais alto da história do futebol, o jornal, agora centenário, pode se orgulhar de ter estado lá desde antes do apito inicial. O jornal nasceu cinco anos antes da primeira edição do torneio, em 1930, e é o único carioca com relatos em suas páginas de todos os Mundiais, da poeira de Montevidéu à modernidade de Doha em 2022. Mais que espectador, foi cronista oficial do evento: desde 1950, quando o Mundial enfim aterrissou no Brasil, sempre houve pelo menos um repórter de O GLOBO no olho do furacão, ou melhor, nos estádios. Da Suíça em 1954 ao Catar, passando por Copas heróicas, traumáticas, tropicais e geladas, o jornal levou ao estrangeiro equipes que variaram de três a mais de vinte profissionais. Cada grupo era uma espécie de seleção alternativa: repórteres, fotógrafos, editores e colunistas que, em vez de chuteiras, carregavam máquinas de escrever, blocos de anotações e lentes que enxergavam o detalhe antes do replay.

É que O GLOBO nunca se limitou a apenas narrar os grandes momentos. Muitas vezes, fez parte deles. Foi o caso do gol 1000 de Pelé, em 1969, quando o jornal, pela figura de Ricardo Serran — outro histórico editor de Esportes e um dos maiores incentivadores da modernização da cobertura esportiva — se envolveu diretamente no gesto que selou a consagração. Foi Serran quem articulou, junto à Fifa e à CBD, a entrega simbólica de um diploma ao Rei do Futebol no momento exato em que ele atingisse a marca histórica. O documento foi traduzido e adaptado pelo próprio editor, levado ao campo por um representante da entidade e entregue logo após a cobrança do pênalti que transformou Pelé em lenda. Tudo isso no Maracanã, o estádio que aquelas páginas ajudaram a construir. O jornal, nesse lance, não foi só manchete: foi assistência.

E se Pelé, que começou como mais um menino entre tantos, chegou ao seu milésimo gol, por que não imaginar que um jornal, que também fora um entre vários, mas acaba de completar seu centésimo ano, também possa ir além do que parece possível? Afinal, tantos jogadores não chegam nem aos cem. Pelé chegou. O GLOBO também. Talvez, daqui a muitos e muitos campeonatos, alguém abra uma cápsula de dados e encontre um relato sobre um Fla-Flu de 2472 no Mário Filho, ou o obituário do craque que finalmente quebrou o recorde de gols do Rei e foi diplomado por algum editor. Seja lá qual for o futuro, que ele continue girando como a bola — e que estejamos lá, em forma de jornal, pronto para contar onde, afinal, ela foi parar.

Apesar de o futebol ser a maior paixão esportiva do GLOBO, o jornal entendeu que o esporte brasileiro tem múltiplas pistas, piscinas e quadras. E cobriu todas elas com entusiasmo e bastante espaço nas páginas ao longo de cem anos.

A estreia olímpica da cobertura do GLOBO foi em Amsterdã, em 1928. Em 1936, o jornal imprimiu um marco histórico: a imagem da nadadora Piedade Coutinho, na final dos 400m, foi enviada em telefoto e virou a primeira do tipo publicada por um jornal brasileiro.

Poucas modalidades tiveram tanto espaço quanto o turfe. Por décadas, O GLOBO dedicou uma página às corridas no prado da Gávea. A paixão de Roberto Marinho pelo hipismo — o jornalista dá nome de um dos principais grandes prêmios do esporte no Brasil — também se refletiu na cobertura esportiva.

O jornal sempre buscou equilibrar o rigor da informação com a emoção na cobertura dos triunfos e tragédias que marcaram o esporte brasileiro ao longo de 100 anos. Como as conquistas olímpicas, de Adhemar Ferreira da Silva a Rebeca Andrade, e a morte de Ayrton Senna em 1994. O mesmo valeu para o destaque de esportes coletivos, como no caso do vôlei, e o brilho individual de personagens como Gustavo Kuerten. No tênis, aliás, o Rio Open é presença obrigatória no calendário esportivo do GLOBO. Na Rio-2016, a cobertura se multiplicou em reportagens multimídia e cadernos que ganharam prêmios de design.

Thales Machado é editor-chefe de Esportes do GLOBO

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