O dinheiro, da maneira como usamos hoje, surgiu na civilização ocidental há três séculos. E, agora, essa inovação da Humanidade está em vias de avançar alguns passos na conveniência e no imediatismo. Num futuro não muito distante, os pagamentos não mais serão feitos por objetos, como dinheiro, cartões ou celulares. Será através do seu corpo, com sorrisos, olhares, leituras de mão ou pela voz. Ou até mesmo sem a sua presença, por agentes autônomos programados por inteligência artificial que, com a devida checagem, farão pagamentos em seu nome.
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Moedas existem desde a Antiguidade. No princípio, eram em si uma substância. Um dracma da Grécia Antiga continha 4,3 gramas de prata. O dinheiro de papel, ou seja, a representação fiduciária de um valor, e não o valor em si, surgiu na Europa no século XVIII. Cédulas deram lugar a cheques, boletos, cartões, o pix no celular, o código de barra, o QR code. Agora, a tecnologia fará com que até mesmo a representação do dinheiro se torne invisível.
O futuro reserva inovações que avançam alguns passos na comodidade que, no Brasil, teve como aperitivo o pix. Pesquisa da consultoria Juniper Research estima que, este ano, US$ 3 trilhões serão transacionados em pagamentos por meios biométricos no mundo inteiro. Sem qualquer objeto, nem mesmo um celular, exercendo a função de representar o dinheiro.
A PopID, empresa de tecnologia de autentificação facial, afirma que a modalidade permite realizar pagamentos em três segundos, fazendo o prazo padrão de 20 segundos (quando a internet funciona) do QR Code parecer uma eternidade. O Amazon One, usado em lojas físicas dos EUA, faz o pagamento só com a aproximação das mãos, sem contato. Há ainda soluções via reconhecimento por voz ou íris.
A Mastercard começou pelo Brasil, há três anos, o teste do serviço Smile to Pay (numa tradução livre, “Sorria, você está pagando”) em supermercados e, no fim do ano passado, lançou um sistema que usa tokenização para dispensar senhas e realizar transações apenas por biometria.
— É uma experiência de pagamento mais fluida, segura e sem fricção — diz Leonardo Linares, vice-presidente sênior de Soluções para os Clientes da Mastercard Brasil, acrescentando que o objetivo é eliminar por completo o uso de senhas até 2030.
Na China, vários desses modelos de pagamentos biométricos já são corriqueiros, e tentar usar dinheiro — ou seja, notas, cédulas e moedas — é motivo de piada. A boa notícia é que o Brasil também tem a vocação de um pioneiro, como destaca o economista Gustavo Franco, ex-presidente do Banco Central. Ele lembra que Brasil e China são cases de sucesso na adoção do pagamento instantâneo. Por aqui, o Banco Central desenvolveu a tecnologia, criando o Pix. Na China, o modelo é operado por duas grandes empresas, numa espécie de duopólio privado.
— O tamanho do mercado e a necessidade facilitaram a implantação desses sistemas aqui e na China. Mas, no nosso caso, o “legado” dos anos de hiperinflação ajudou, nos equipou a vivenciar situações complexas e aceitar bem as inovações. Fomos treinados a lidar com o dinheiro de um jeito que não existe em outros países.
Franco acredita que a digitalização fará pela economia global o que a abertura comercial proporcionou, em termos de crescimento e bem-estar, nos últimos 50 anos. E, neste quesito, o Brasil aparece bem.
— A economia do futuro vai ser muito mais dos serviços, muito mais internacional e digital. Com tantos pagamentos ágeis, a gente começa na frente, abertos a esses ventos.
Não por acaso, o Pix entrou recentemente na mira do presidente americano Donald Trump. Após ameaçar tarifar os produtos importados do Brasil, o governo dos EUA abriu uma investigação contra supostas práticas desleais de comércio citando “serviços de pagamento eletrônico desenvolvidos pelo governo”, numa referência ao Pix.
Na semana passada, o prêmio Nobel de Economia Paul Krugman, um crítico do governo americano, afirmou em artigo que o Brasil pode ter inventado “o futuro do dinheiro” com o Pix e que o país se mostrou um líder em inovação financeira com um sistema muito mais eficiente do que as criptomoedas, que Trump sempre promoveu.
“O Pix está, de fato, alcançando o que os entusiastas das criptomoedas alegavam — falsamente — que seria possível oferecer por meio da blockchain: baixos custos de transação e inclusão financeira. Compare os 93% dos brasileiros que usam o Pix com os 2% — isso mesmo, 2% — dos americanos que usaram criptomoedas para comprar algo ou fazer um pagamento em 2024”.
A próxima fronteira do dinheiro do futuro virá da inteligência artificial (IA). Os pagamentos serão feitos por IA, ou melhor, por agentes, espécies de robôs virtuais, programados para fazer a sua compra do mês ou reservar os hotéis das suas próximas férias.
Mastercard e Visa, os gigantes globais de cartões de crédito e débito, lançaram há três meses, quase simultaneamente, suas soluções para autenticar pagamentos feitos por agentes de IA.
— Estima-se que hoje, dos acessos à internet, 50% já sejam automáticos. E, com a entrada dos agentes de IA, isso vai aumentar. O site vai ter que identificar se este acesso é de um agente, de uma pessoa ou de um bot. Antes, muitos barravam o acesso automático. Mas, agora, os agentes genuínos podem ser fontes de receita, podem ser um cliente que está chegando para comprar — afirma João de Valle, CEO do Ebanx (fintech brasileira com atuação global que processa no Brasil pagamentos para gigantes como Shein, Uber, e Spotify).
Valle acredita que, para os pequenos usos, essa é uma realidade que vai ocorrer muito rapidamente:
— Para coisas corriqueiras, tipo “pede aquela pizza que eu gosto”, daqui a seis ou 12 meses, a IA já vai fazer por você. E vai pagar por você.
Leonardo Linares, da Mastercard Brasil, acrescenta que o Agent Pay, ou seja, o pagamento por agentes, será uma ferramenta útil também para pequenas empresas, que poderão usar agentes para negociar com fornecedores e realizar até mesmo pagamentos internacionais.
A tecnologia terá que dar conta de provar que “você é você”, ou seja, que o bot é legítimo e tem a procuração para executar aquela transação. Poderão ser criados mecanismos como definir que o agente de IA é como um dependente — nos mesmos moldes em que hoje um filho usa um cartão de crédito vinculado à conta do pai.
Se as grandes bandeiras internacionais de cartão de crédito saíram na frente na busca por soluções de pagamentos para IA, Valle acredita que o ecossistema de inovação brasileiro rapidamente vai se adaptar a oferecer a melhor experiência ao usuário:
— O Brasil é muito relevante. As empresas que estão focadas aqui são muito boas tecnologicamente. O iFood é um dos maiores usuários de IA antes mesmo da IA generativa. O MercadoLivre adota novas tecnologias rapidamente. E o Brasil é relevante para as empresas globais, São Paulo é uma das principais cidades para o Uber no mundo. As novidades vão chegar aqui logo.
‘O cruzeiro valerá mil réis’: Foi a manchete de 6 de outubro de 1942, anunciando que o real, usado desde o Brasil Colônia, deixaria de circular em novembro daquele ano. Até 1994, foram sete moedas — cruzeiro, cruzeiro novo, cruzeiro, cruzado novo, cruzeiro, cruzeiro real e, finalmente, o real.
Cheque em xeque: Em 13 de abril de 1975, o caderno Jornal da Família trazia a reportagem “Comércio acha prático, mas prefere o dinheiro vivo”, sobre a desconfiança com o cheque. Também no Jornal da Família, de 12 de dezembro do mesmo ano, o tema foi “Neste Natal, o cartão também pode ser de crédito”, numa alusão aos ainda tradicionais cartões de Natal trocados entre as famílias.
Lucros e queixas: Reportagem de 5 de novembro de 1993 relatava como os caixas eletrônicos facilitavam o dia a dia, mas sob queixas. A empresa responsável pelo Banco 24Horas lucrou US$ 6,5 milhões naquele ano. Mas máquinas engoliam os cartões ou davam erro. O texto citava uma cliente que deu um “jeitinho”: usou papel carbono sobre a tarja magnética do cartão para fazer saques.
Há 5 anos: Em 17 de novembro de 2020, primeiro dia de funcionamento do pagamento instantâneo no Brasil, o GLOBO noticiou “A batalha da chave PIX”, com a disputa dos bancos pelo cadastro dos clientes, com direito a sorteios e promoções.
Luciana Rodrigues é editora de Economia do GLOBO
Este conteúdo faz parte do especial em comemoração pelo centenário do jornal. Acesse a página O GLOBO 100 anos para ver mais reportagens.