Ainda que evitem recomendar diretamente em quem votar, os chatbots de inteligência artificial generativa, como ChatGPT, Claude e Gemini, associam com frequência candidaturas que disputam as eleições do próximo mês a características e preferências do usuário, mostra um novo relatório realizado pelo InternetLab em parceria com o LabDados/FGV e a Rede Conhecimento Social (ReCoS), divulgado nesta quarta-feira.
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A ação, no entanto, pode contrariar as regras do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). De acordo com a Resolução 23.755/2026, aprovada em março, é vetado a ferramentas do tipo “ranquear, recomendar, sugerir ou priorizar candidatas(os), campanhas, partidos políticos, federações ou coligações”, mesmo que tenham sido solicitadas para tal pelo usuário. O texto proíbe ainda que os chatbots emitam opiniões, indiquem preferência eleitoral, recomendem voto ou realizem “qualquer forma de favorecimento ou desfavorecimento político-eleitoral, de maneira direta ou indireta”.
No estudo, os pesquisadores analisaram o comportamento de oito ferramentas: ChatGPT, da OpenAI; Claude, da Anthropic; Copilot, da Microsoft; DeepSeek, da empresa de mesmo nome; Gemini e Google AI Mode, ambos do Google; Grok, do X; e Meta AI, via WhatsApp, da Meta. As conversas foram conduzidas por um modelo de linguagem criado para assumir o papel de um usuário com perfis distintos sorteados para cada teste, alternando posição política, gênero, idade, escolaridade, estilo de conversa e de escrita.
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As oito ferramentas responderam 1.679 conversas simuladas sobre as eleições de 2026, totalizando 18.360 turnos de resposta. Os dados foram coletados entre 27 e 31 de agosto de 2026. Em todos os modelos, houve respostas que tentaram relacionar candidatos ao perfil ou às preferências de quem perguntava, o que ocorreu em proporções que variaram de 49,6% das conversas, no caso do ChatGPT, até 98%, no do DeepSeek.
Heloísa Massaro, diretora de Pesquisas e Operações do InternetLab, explica que esse comportamento aparece de forma muito variada, “desde uma listagem de propostas por tópico até algo bem próximo de uma indicação” em si. A especialista destaca que esse tipo de interação é diferente da pesquisa tradicional online: agora há uma camada de intermediação que não apenas fornece informações, mas organiza e interpreta o conteúdo de modos que podem influenciar de forma diferente a decisão.
— Isso coloca para nós uma questão importante sobre o que é aceitável e o que pode gerar interferência eleitoral. Onde traçamos essa linha? Para isso, precisamos considerar aspectos importantes relacionados à transparência, acesso à informação eleitoral, igualdade de chances — diz.
O ordenamento ou ranqueamento dos candidatos também foi frequente, de 3% das conversas, no Google AI Mode, até 63%, no DeepSeek e no Gemini. Além disso, houve casos nos testes em que a indicação de um postulante foi direta, o que aconteceu em 4% das conversas, no Claude, e em 10,4%, no ChatGPT, até em 88,2% no DeepSeek.
Em um dos bate-papos sobre o governo paulista, por exemplo, uma plataforma se recusou a “desempatar” entre os candidatos após ser solicitada para isso, mas disse que, “se o que mais convence você é continuar uma política de segurança que já está sendo executada (…) é a proposta de Tarcísio de Freitas que você deve examinar com mais atenção”.
Outra ferramenta, que dialogava com um usuário que compartilhou considerar saúde pública como uma de suas prioridades, respondeu que “Fernando Haddad é o nome que mais aparece na imprensa com propostas detalhadas para ampliar atendimento, informatizar o sistema e investir em prevenção”, enquanto a campanha de Tarcísio seria “mais centrada em segurança e infraestrutura”.
Integridade eleitoral
Em outro eixo do estudo, os pesquisadores analisaram comportamentos dos chatbots relacionados à integridade das eleições. As IAs raramente apresentaram conteúdos com desinformação sobre o pleito, como quem vota, quando vota, para quais cargos e quais documentos deve levar. Informações incorretas do tipo ocorreram em apenas 0,7% das conversas.
No entanto, de 9% das conversas, no Google AI Mode, a mais de 50%, no Grok e no DeepSeek, apresentaram respostas que reforçaram a descredibilização do sistema eletrônico de votação. De 4,4% das conversas, no ChatGPT, a mais de 40%, também no Grok e no DeepSeek, também reforçaram o descrédito às instituições.
Em um dos exemplos, após o usuário solicitar “pontos frágeis do sistema de votação”, a ferramenta sugeriu que “a falta de um comprovante individual é o cerne da desconfiança”, acrescentando que a urna “não gera nenhum comprovante que o eleitor possa guardar ou verificar depois”.
Em outra conversa que solicitou algo semelhante, uma plataforma distinta respondeu que um ponto frágil do sistema eleitoral brasileiro é que “o eleitor não sai da seção com um registro físico nas mãos que comprove em quem votou, o que impede a conferência individual posterior e gera desconfiança sobre o destino exato do voto digitado”.
ChatGPT, Claude, Gemini: IAs associam candidatos ao perfil do usuário, o que pode violar regras do TSE, mostra relatório
