Christa Pike, de 50 anos, não se lembra da tentativa de execução à qual foi submetida no mês passado no Tennessee, nos Estados Unidos, e ainda enfrenta um longo processo de recuperação após sobreviver a duas doses de pentobarbital. A informação foi dada ao The Independent pelo médico Joel Zivot, professor de anestesiologia e cirurgia da Faculdade de Medicina da Universidade Emory, em Atlanta, e contratado pela equipe jurídica da condenada para assessorá-la.
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— Ela teve uma boa recuperação até o momento. Entendo que ela está conversando e agora sabe onde está. Ela não tem memória da execução em si. Não está claro para mim se ela teve uma recuperação cognitiva completa. É muito cedo para afirmar com certeza — disse Zivot ao jornal britânico.
Segundo o médico, pode levar semanas até que seja possível avaliar com maior precisão os efeitos do episódio. Pike também precisará recuperar a força física depois de permanecer internada e em estado crítico.
— Como regra prática simples, digo aos pacientes que um dia na cama equivale a uma semana de recuperação — afirmou.
Zivot acrescentou que Pike apresenta fraqueza muscular generalizada e permanece acorrentada à maca, procedimento adotado para prisioneiros hospitalizados fora da unidade prisional.
— Muitos riscos persistem, e seu quadro pode piorar, apesar da atual melhora.
Duas doses de pentobarbital
Pike recebeu duas doses de pentobarbital na prisão de segurança máxima Riverbend, em Nashville, na última quarta-feira (30). A execução, porém, não produziu o efeito esperado.
O pentobarbital é um barbitúrico que reduz a atividade do cérebro e do sistema nervoso. Em doses elevadas, pode provocar depressão respiratória, insuficiência cardíaca e morte. Para Zivot, é provável que Pike tenha recebido uma dose ineficaz ou uma quantidade insuficiente da substância.
— Mesmo com a presença de pentobarbital em seu organismo, o atendimento médico que ela recebeu provavelmente conseguiu neutralizar os efeitos negativos dessas drogas — explicou o médico.
Câmara de execução no Texas, onde condenados à pena de morte também são mortos por injeção letal
AFP
De acordo com o especialista, o medicamento provoca a morte quando a pessoa não recebe assistência médica simultânea. Antes, ele havia alertado para o risco de lesões cerebrais provocado pelo atraso no início da reanimação, caso a quantidade recebida não tivesse sido suficiente para causar a parada respiratória e o evento cardiovascular esperados.
Inicialmente, Pike foi descrita como estando em estado crítico e chegou a respirar com auxílio de um ventilador. Seus advogados informaram, porém, que ela posteriormente acordou e passou a conversar. A equipe afirmou que a condenada sofreu graves lesões nos braços e permanece algemada e acorrentada à cama.
Sobrevivência considerada inédita
Os advogados de Pike classificaram sua recuperação como um acontecimento “clinicamente sem precedentes”. Segundo o Centro de Informação sobre a Pena de Morte dos Estados Unidos, ela é considerada a primeira pessoa conhecida a sobreviver depois de receber doses letais de substâncias usadas em uma execução.
A criminóloga Deborah Denno, professora da Faculdade de Direito da Fordham University e integrante da equipe que assessora Pike, também ressaltou o caráter inédito do caso. Em declaração à BBC, disse ter ficado “absolutamente espantada” ao saber que a condenada estava consciente e falando.
Segundo Denno, há registro de outros sete casos de prisioneiros que sobreviveram a tentativas de execução nos Estados Unidos. Nessas situações, porém, os responsáveis pela execução não conseguiram encontrar uma veia para administrar a substância letal.
— Eles fizeram tudo o que deveriam fazer como parte do processo de execução e, simplesmente, não funcionou. Isso nunca aconteceu antes — afirmou a professora.
Defesa pede prisão perpétua
Pike está no corredor da morte há cerca de três décadas. Ela foi condenada pelo envolvimento na tortura e no assassinato, em 1995, de Colleen Slemmer, de 19 anos, quando tinha 18. Dois outros adolescentes que participaram do crime não receberam a pena de morte.
Christa Pike
Divulgação
Os advogados de Pike voltaram a pedir ao governador do Tennessee, Bill Lee, que comute a sentença para prisão perpétua sem possibilidade de liberdade condicional.
Após a falha na execução, Lee suspendeu as execuções no estado pelo restante do ano e determinou uma investigação independente sobre o ocorrido. Frank Strada, comissário do Departamento de Correções do Tennessee, anunciou sua renúncia.
Estado pode tentar executar Pike novamente
Ainda não está definido se o Tennessee tentará executar Pike novamente. A condição médica da condenada poderá ser determinante para essa decisão.
A Suprema Corte dos Estados Unidos proíbe a execução de uma pessoa que não tenha uma compreensão racional do motivo pelo qual foi condenada à morte. Por isso, a extensão dos possíveis danos cognitivos sofridos por Pike poderá ter consequências jurídicas.
Republicanos do Tennessee, incluindo a senadora Marsha Blackburn, que é favorita para a eleição ao governo estadual, já sinalizaram apoio à continuidade das execuções por outro método, como a cadeira elétrica.
Enquanto isso, os advogados de Pike buscam preservar registros relacionados à tentativa de execução e pediram que especialistas examinem eventuais resíduos das substâncias químicas, além das seringas e dos tubos intravenosos utilizados no procedimento.
A falha também levantou questionamentos sobre o sigilo mantido pelo estado em relação ao protocolo de injeção letal. Para David Raybin, advogado de Nashville que ajudou a redigir a legislação sobre pena de morte do Tennessee, o episódio ameaça a confiança pública no sistema.
— Todo o sistema judicial é colocado em xeque, pela maneira como isso aconteceu e pela forma como está sendo tratado — afirmou.
Christa Pike, que sobreviveu à injeção letal, não se lembra de tentativa de execução, diz médico da sua equipe
