Uma foto da cantora Tyla nas redes sociais foi suficiente para que os comentários se concentrassem em uma parte específica de seu corpo: a cintura. A repercussão, que deixou a música, o figurino e a performance em segundo plano, reacende uma cobrança conhecida entre mulheres: a expectativa de que o corpo, além de magro, tenha uma silhueta com cintura estreita, abdômen definido e quadris e glúteos volumosos.
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O padrão estético muda com o tempo, mas a cobrança permanece. Depois da valorização da magreza extrema nos anos 2000 e da popularização da silhueta associada às irmãs Kardashian, a chamada estética “ampulheta” ganhou ainda mais espaço. O problema é que o corpo humano não se adapta às tendências na mesma velocidade que elas surgem.
A largura da cintura é resultado de uma combinação de características que vão muito além do peso. Estrutura óssea, formato da pelve, dimensões da caixa torácica, comprimento do tronco, musculatura e distribuição de gordura participam da composição da silhueta.
“Existe uma estrutura corporal que não pode ser ignorada. Largura da caixa torácica, formato da pelve, comprimento do tronco, musculatura e distribuição da gordura influenciam diretamente a silhueta. Duas mulheres podem ter exatamente o mesmo peso e percentual de gordura e apresentar cinturas completamente diferentes. Não existe um formato corporal que possa ser reproduzido em todas”, explica o cirurgião plástico Jorge Seba.
Nem toda mulher terá o chamado corpo ampulheta
A genética e os hormônios também ajudam a explicar por que pessoas com características semelhantes podem apresentar silhuetas distintas. A região em que o organismo tende a armazenar gordura é influenciada por fatores como idade, composição corporal, genética e ambiente hormonal.
Por isso, associar a ausência de uma cintura marcada apenas à alimentação ou à falta de atividade física é uma simplificação. Segundo a endocrinologista Patricia Gracitelli, mesmo mudanças no peso não necessariamente alteram o corpo na direção esperada por quem busca determinado padrão estético.
“A distribuição da gordura corporal não depende apenas do quanto uma pessoa come ou treina. Existem características genéticas e hormonais importantes. Algumas mulheres naturalmente acumulam mais gordura em quadris e coxas, enquanto outras apresentam uma distribuição maior na região abdominal. Isso significa que emagrecer não necessariamente fará uma mulher desenvolver uma cintura no formato que vemos em outra pessoa”, pontua.
Além disso, a aparência que chega às redes sociais nem sempre corresponde à forma como aquele corpo é percebido no cotidiano. Poses, enquadramentos, iluminação, roupas, peças modeladoras, filtros e edição podem alterar significativamente a percepção das proporções.
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Reprodução Instagram
Quando o corpo vira assunto público
A discussão sobre a cintura de uma pessoa famosa também expõe outro aspecto da pressão estética: a naturalização dos comentários sobre o corpo feminino.
Para a psicóloga Letícia de Oliveira, a repetição dessas observações pode fazer com que uma característica física passe a ser encarada como um problema, mesmo quando não havia essa percepção anteriormente.
“Quando centenas ou milhares de pessoas começam a apontar a mesma característica física, aquela mulher deixa de ser vista como um todo e passa a ser reduzida a uma parte do corpo. Comentários como ‘cadê a cintura?’ podem parecer banais para quem escreve, mas repetidos em grande escala reforçam a ideia de que existe alguma coisa errada naquele corpo simplesmente porque ele não corresponde ao padrão valorizado naquele momento”, afirma.
A influência não se limita a quem é alvo dos comentários. Para quem acompanha esse tipo de conteúdo, a exposição contínua a avaliações sobre corpos ajuda a estabelecer quais características são elogiadas e quais passam a ser vistas como algo a ser corrigido.
“Uma menina ou uma mulher que possui um corpo parecido pode ler aqueles comentários e começar a questionar uma característica que nunca havia considerado um problema. É assim que padrões estéticos também são construídos: pela repetição da mensagem de que determinado traço precisa ser corrigido”, acrescenta Letícia.
Existe uma cintura ideal?
Não há uma medida única que determine uma silhueta considerada adequada. O formato corporal resulta da combinação entre características individuais e não precisa reproduzir um modelo específico para ser considerado proporcional.
“Um corpo harmônico não precisa ter a menor cintura possível. Quando começamos a estabelecer uma única silhueta como referência de beleza, ignoramos diferenças anatômicas que fazem parte da diversidade corporal. A estética não deveria transformar todo mundo na mesma versão de corpo”, observa Jorge.
A repercussão em torno do corpo de uma celebridade diz menos sobre a anatomia dela do que sobre o padrão de beleza do momento. Tendências mudam, novas silhuetas ganham espaço e, com elas, surgem novas cobranças. O corpo, porém, não precisa acompanhar cada uma delas.
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