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outubro 4, 2026
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Em evento do COB, Mireya Luis e Yusra Mardini compartilham histórias que ultrapassam as fronteiras do esporte

Por · outubro 4, 2026
Em evento do COB, Mireya Luis e Yusra Mardini compartilham histórias que ultrapassam as fronteiras do esporte


Mireya Luis passou toda a carreira como uma das melhores jogadoras de vôlei de todos os tempos sob o impacto do embargo econômico liderado pelos Estados Unidos contra Cuba— que até hoje se recusa a ser quintal da potência vizinha. Yusra Mardini teve sua formação como nadadora interrompida pela guerra civil na Síria: inspirados pelos protestos da Primavera Árabe, em 2011, grupos rebeldes apoiados por Estados Unidos e Turquia tentaram derrubar o presidente Bashar Al-Assad, cujo governo reagiu violentamente, com o suporte de Rússia e Irã. Duas histórias do esporte, vindas de lados opostos da geopolítica mundial, mas ambas influenciadas por ela, foram contadas por suas protagonistas na COB Expo, o evento anual do Comitê Olímpico do Brasil, que termina hoje em São Paulo.
O esporte se constrói com histórias. Algumas, a gente leva 30 anos para desvendar totalmente, como os bastidores da briga entre cubanas e brasileiras no vestiário, depois da semifinal do vôlei feminino nos Jogos de Atlanta. Ver Mireya e Virna se divertindo com os detalhes (porque o desentendimento já ficou no passado) levou a plateia às gargalhadas na edição do “Hello LA” transmitida ao vivo do evento. Yusra recontou sua trajetória — retratada em livro, “Borboleta: de refugiada a nadadora olímpica”, e em filme, “As nadadoras”, disponível na Netflix: fugiu para a Alemanha num trajeto clandestino de quase um mês, incluindo a travessia do Mar Egeu num barco que começou a afundar pelo excesso de passageiros e só chegou à costa porque ela e a irmã, à época também nadadora, mergulharam para empurrá-lo. O impacto de ouvi-la pessoalmente fez até quem já sabia dos detalhes chorar assistindo à palestra.
Rimos e choramos com as histórias do esporte porque muitas vezes elas nos levam para fora dele e para mais perto do lado humano dos atletas. Mireya contou de uma recepção no palácio presidencial em que Fidel Castro admitiu que não tinha visto um jogo, mas soube da vitória da seleção porque ouviu nas ruas o mesmo barulho de comemoração que os habitantes da capital Havana faziam quando a luz voltava, depois dos muitos apagões causados pela falta de combustível. Yusra lembrou de como, ao entrar no Maracanã para a cerimônia de abertura, percebeu estar vivendo uma emoção que não era só dela — por mais dura que tivesse sido sua jornada até ali.
Mireya se sagrou tricampeã olímpica e mundial, numa época em que o esporte cubano tinha um desempenho muito acima do esperado para uma ilha com menos de 11 milhões de habitantes (caberiam todos na região metropolitana do Rio). O fim do apoio da União Soviética fez as medalhas escassearem. Hoje, como vice-presidente da federação nacional de vôlei, tenta levar sua modalidade de volta aos Jogos e comanda um projeto de revelação de jovens talentos chamado Buscando Mireyas.
Yusra voltou a nadar na Alemanha e fez parte da primeira equipe olímpica de refugiados, na Rio 2016. Tornou-se embaixadora do ACNUR, agência da ONU para a emigração forçada, e tem sua própria fundação, que leva seu nome. Não são percursos análogos, mas é bonito ver que chegaram ao mesmo ponto: o de tentar devolver à sociedade um pouco do que o esporte lhes deu – além das histórias.

Em evento do COB, Mireya Luis e Yusra Mardini compartilham histórias que ultrapassam as fronteiras do esporte