Quem traduziu o livro que você está lendo? Esta é a provocação que o coletivo Quem Traduziu (@quemtraduziu no Instagram) quer suscitar nos leitores de Paraty: esse ofício é criativo e merece ser creditado.
Formado por 64 mulheres, o coletivo será representado por nove delas hoje na Casa Paratodos (Rua Dr. Samuel Costa 254), às 13h, na mesa “A tradução literária como trabalho autoral”.
—Tem gente que nem pensa sobre o tradutor e, quando pensa, acha que a gente substitui uma palavra por outra — diz Elisa Menezes, do Rio.
As habilidades exigidas para deixar, por exemplo, um livro da espanhola Rosa Montero maravilhoso ao gosto dos brasileiros (“Se a Rosa escreve muito bem, a Mariana Sanchez também”, diz Marcela Lanius, de Nova Friburgo, dando o nome da tradutora de uma das escritoras mais badaladas dessa edição da Flip), vão muito além do domínio da língua estrangeira. Ter repertório cultural, conhecer as variações do português e desconfiar constantemente do que se lê são itens imprescindíveis no currículo.
—A gente precisa saber pesquisar, ser meio detetive — diz Emanuela Siqueira, de Curitiba.
Qualidades que podem ser substituídas por máquinas? Com o boom da inteligência artificial generativa, algumas traduções, principalmente técnicas, já têm sido feitas por ferramentas de IA e, até mesmo por causa disso, a profissão precisa ser melhor compreendida. Em Portugal, no ano passado, editores, tradutores e autores publicaram uma carta aberta no jornal Público denunciando o uso de ferramentas generativas de tradução.
— Você precisa comunicar com as pessoas que uma máquina não faz o que você faz — diz Rita Kohl, de São Paulo. — É o único caminho. Claro que existem outros, do ponto de vista legal, como alguns autores que estão exigindo que as editoras não usem IA na sua produção. Mas, no fim das contas, o recurso vai ser perguntar ao comprar o livro: “foi traduzido por um ser humano?”.
Essas e outras discussões acontecem majoritariamente on-line, há cerca de dois anos, quando o coletivo foi criado. Se hoje elas discutem também visibilidade e autoria, a ideia inicial era se informar umas com as outras sobre questões trabalhistas como remuneração, cláusulas de contrato e prazos de entrega de trabalhos. O escopo do grupo cresceu, mas não se perdeu o foco sobre o que o juntou. Tanto que elas lançaram um manifesto em junho elencando reivindicações que vão desde royalties de direitos autorais até nome do profissional na capa, junto do autor.
—A gente tem muito interesse que cada vez existam mais leitores, que o mercado editorial se fortaleça e a gente possa servir como ponte — diz Emanuela Siqueira, de Curitiba.
Um exemplo? Ninguém mais inteirado na obra de um autor morto ou estrangeiro que não pode estar no Brasil do que a pessoa que mergulhou por meses no livro para traduzi-lo. Então por que não levá-la para um clube de leitura?
—Sabemos que o mercado editorial vive momento difícil, mas, às vezes, há projetos que dão certo e nós contribuímos para isso — diz Rita. — Poderíamos ajudar muito mais se estivéssemos menos sufocadas.