Na disputa comercial entre Estados Unidos e China, o Brasil pode atrair novos investimentos de empresas interessadas em explorar minerais estratégicos essenciais para setores como o de eletroeletrônicos e os voltados para a transição energética, incluindo a fabricação de baterias para veículos elétricos. Com a guerra tarifária entre as duas maiores economias do mundo, o Brasil já vem recebendo consultas e visitas de delegações de diversos países nas últimas semanas.
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O Brasil é um dos principais produtores mundiais de níquel, lítio, nióbio, grafite e terras raras. A expectativa é que, entre 2025 e 2029, os aportes somem ao menos US$ 14 bilhões, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram).
Para especialistas, esses números podem aumentar se a guerra tarifária intensificar as tensões geopolíticas. Recentemente, a China restringiu a venda de minerais estratégicos para o setor eletrônico dos EUA como retaliação às tarifas.
Segundo Márcio Pereira, sócio da área de Ambiente, Clima e Mineração do BMA Advogados, a guerra comercial representa uma oportunidade única para o setor de minerais críticos:
— A China é uma grande processadora dessas substâncias, principalmente terras raras, lítio e grafite, e domina o refino desses elementos. Assim, os EUA deverão buscar outras parcerias para suprir suas demandas internas. E o Brasil pode ser um alvo oportuno tanto pelo potencial geológico quanto pelas vantagens competitivas, como energia a preço reduzido e mão de obra a preços competitivos.
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Ao mesmo tempo, diz o advogado, as empresas chinesas também podem ampliar seus investimentos no Brasil, trazendo tecnologia de refinamento de minério.
— Outros países, como os da União Europeia, provavelmente buscarão parceiros comerciais considerados mais estáveis para garantir suas cadeias produtivas, e o Brasil possui uma boa imagem entre os investidores — completa Pereira.
No Ibram, essa percepção já é uma realidade. Raul Jungmann, diretor-presidente da associação do setor, lembra que diversos países vêm procurando o Brasil nas últimas semanas, fazendo consultas sobre o setor. Ele cita Austrália, Nova Zelândia, Reino Unido, Canadá, além do próprio Estados Unidos.
— Não damos conta das solicitações que recebemos, tanto de empresas quanto de países. Há um enorme apetite. Joe Biden (ex-presidente dos EUA) já mostrava interesse em buscar parceria com o Brasil. E com (Donald) Trump não é diferente. O que muda é a finalidade. Antes, o objetivo era a transição para baixo carbono. Agora, a preocupação é defesa, tecnologia e inovação.
Jungmann lembra que o Ibram recebeu recentemente uma delegação dos EUA interessada em buscar novas parcerias:
— Há uma busca da Europa, EUA e países desenvolvidos em assegurar o suprimento de mineral crítico. Isso tende a levar a um avanço na disputa e ao aumento de parcerias. No caso da União Europeia, Ursula von der Leyen (presidente da Comissão Europeia) declarou recentemente que os países do bloco querem acesso aos minerais críticos da América Latina, inclusive do Brasil.
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Segundo Rafael Marchi, sócio-diretor da A&M Infra, em meio à instabilidade geopolítica, muitos países vão buscar fontes alternativas de suprimento desses minerais. A demanda por cobre, níquel, cobalto, lítio e terras raras vem sendo impulsionada pela busca por energias limpas e pela digitalização da economia.
— O país pode se beneficiar duplamente, vendendo mais para os EUA e para mercados deixados pela China. Porém, esses ganhos são incertos e pontuais, com o menor crescimento global.
A Vale criou uma divisão especial para a área e planeja aumentar a produção de níquel e cobre nos próximos anos. “Os próximos anos serão determinantes para a transição do negócio para uma nova fase”, disse a mineradora em comunicado ao mercado recentemente.
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Após concluir o projeto de expansão de uma mina de níquel no Canadá, o principal projeto em andamento é o segundo forno de Onça Puma, no Pará, com entrada em operação projetada para o segundo semestre deste ano. Segundo a Vale, a produção de níquel pode subir até 42% a partir de 2030. A mineradora também aposta no aumento das atividades de cobre, cuja extração pode dobrar até 2035, com projetos como o de Bacaba, no Pará.
Segundo Flávio Roscoe, presidente da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), o aumento dos investimentos é essencial para que o país esteja preparado para atender ao aumento esperado da demanda.
— As restrições impostas pela China à exportação de minerais estratégicos abrem espaço para que o Brasil se posicione como um fornecedor confiável e alternativo para mercados como os Estados Unidos e outros países que buscam reduzir sua dependência do gigante asiático.
Se as previsões se confirmarem, vai ser necessário mais investimento para aumentar a produção para atender à demanda desses dois grandes mercados, diz Roscoe. A projeção da Fiemg é de atrair R$ 30 bilhões em investimentos para a produção de minerais como terras raras e lítio.
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Segundo Pereira, da BMA, o Brasil possui poucas informações sobre seu território e isso é um obstáculo para aumentar a produção. Dados do Ibram apontam que o país é dono de uma das maiores reservas de nióbio, grafite, terras raras e níquel do mundo:
— Hoje existem poucas pesquisas, e o número de projetos que já alcançaram a fase de operação é reduzido.
