No início do ano, quando aproveitava as férias para organizar seu ateliê na Gávea, Zona Sul do Rio, a pintora Flavia Fabbriziani começou a observar a paisagem da janela e a trazer para as obras parte do que que via. Então percebeu que sua produção abstrata ganhou um gestual que remetia a formas da natureza, inaugurando uma nova fase, exibida na individual “Nunca é para sempre”. em cartaz até o dia 26, na Casa de Cultura Laura Alvim, em Ipanema.
- No Paço Imperial: Pinturas de André Griffo questionam uso institucional da religião: ‘Mostrar o lado perverso das pessoas’
- Victoria and Albert: Museu em Londres abre seu acervo ao público em inédito esquema ‘sob demanda’: ‘Muito melhor do que um museu comum
— O gesto mudou, as pinceladas diminuíram, assim como os próprios pinceis e espátulas. Eu deixei que a natureza me atravessasse, e sabia que isso apareceria de algum modo na tela, ainda que não houvesse a intenção de retratá-la exatamente como é. A resposta dos visitantes tem sido muito interessante, todos mencionam a natureza, mas de um modo completamente diferente — explica Flavia. — Da confirmação da exposição até a montagem foi um intervalo pequeno, eu praticamente me mudei para o ateliê. Iniciei no princípio de fevereiro e, perto do final de abril, todas as obras estavam prontas.
Com curadoria de Shannon Botelho, a mostra reúne 31 obras, incluindo a série batizada “Ventos quentes”, exibida na varanda de vidro da casa, de frente para o mar de Ipanema, e a instalação “Ânima”, com 20 telas pintadas, cortadas e suturadas, montadas com uma paisagem sonora de Gabriel Guerra.
— Num primeiro momento, me questionei em seguir com tantos trabalhos verdes, mas a gama de tons era imensa. Quando cheguei na série dos amarelos, precisei fechar as cortinas (do ateliê), pelo menos no início, para conseguir acessar um ciclo mais outonal, como se houvesse um vento, sem folhas, amarelado — conta a pintora. — Na montagem, Shannon sabia desde o início que essa série ficaria na varanda de vidro. As cores da paisagem do lado de fora são, em sua maioria, os verdes das palmeiras, o mar e o azul do céu. O amarelo só aparece quando bate a luz do sol, então é como se os “Ventos quentes” entrassem nessa paisagem por dentro da casa de Laura.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2025/K/M/RWqcBnRBqcOhjjy0mmFQ/miguel-sa73-6-de-21-.jpg)
O ciclos da natureza levaram a pintora paulistana, radicada no Rio há 17 anos, a uma reflexão sobre o tempo, que ela também vê representada na produção recente:
— Olhar para fora me trouxe também o olhar para dentro, para o modo como lidamos com o tempo. Para este ritmo acelerado que nos afasta, e não nos permite usufruir desta paisagem e tudo o mais que por perto. O título da exposição vem daí, “nunca” e “sempre” são palavras difíceis de sustentar ao longo da vida. O tempo nos escapa como um sopro e tudo por aqui, ao menos como conhecemos, não é eterno.