Em uma conversa por telefone que antecedeu a entrevista feita por e-mail, a escritora portuguesa Alexandra Lucas Coelho desloca o abismo ético em que o mundo se meteu ao tratar do tema que mobiliza trabalhadores humanitários, intelectuais e as redes sociais: a desumanização dos palestinos diante de um planeta inteiro incapaz de interromper a violência brutal cometida por Israel na Faixa de Gaza: “Eles é que são profundamente humanos em sua resistência. Nós é que nos desumanizamos ao permitir que Gaza aconteça”, diz Alexandra, que neste sábado participa da mesa “Palavra em resistência: literatura, memória e Palestina”, na Bienal do Livro, ao lado do brasileiro Milton Hatoum, autor de “Dois irmãos” e “Relato de um certo Oriente”, e da chilena Lina Meruane, de “Tornar-se palestina”. Na quarta, Alexandra lança no Rio seu mais recente livro, “Gaza está em toda parte”, na livraria Janela, no Jardim Botânico.
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Gaza está em toda parte” reúne textos e 27 imagens feitas por Alexandra há seis anos, em sua última ida ao enclave palestino, além de crônicas, reportagens e 113 fotografias produzidas na Cisjordânia, em Jerusalém Oriental e em Israel após o 7 de outubro de 2023, data em que o Hamas executou o ataque mais sangrento da história israelense, que deixou 1,2 mil mortos e 251 reféns. Data também do início da operação militar que, até agora, matou mais de 45 mil palestinos, deixou milhares de feridos e milhões de deslocados. Uma brutalidade tamanha que tem feito intelectuais no mundo inteiro questionarem para onde foram os padrões éticos mínimos criados por aquilo que chamamos humanidade, entre eles os filósofos Vladimir Safatle (na conferência “Pensar após Gaza: desumanização, trauma e a filosofia como freio de emergência”) e Franco Berardi (em seu novo livro “Pensar Gaza: ensaio sobre a ferocidade e o fim do humano”).
De forma resumida, “Gaza está em toda parte” é uma linha do tempo crítica feita por uma jornalista e escritora que esteve, de fato, em campo, sem aceitar convites de lobbys ou governos, nem nada que representasse qualquer constrangimento a seu trabalho. Por isso mesmo, uma das afirmações mais marcantes feitas por Alexandra Lucas Coelho no livro é curta e direta: “Nunca precisamos tanto de jornalismo ali”.
– Uma das tragédias dentro da tragédia que vivemos é a abdicação do jornalismo mundial. Desde 7 de Outubro, mais de 220 jornalistas em Gaza foram assassinados por Israel, ao mesmo tempo que nenhum estrangeiro era autorizado a entrar (para além de alguns inseridos nas tropas, com movimentos controlados e mediante censura). Que nenhum repórter do mundo tenha podido entrar em Gaza em liberdade é a maior derrota da história do jornalismo – afirma Alexandra. – Se as estrelas do jornalismo mundial tivessem podido entrar em Gaza, Israel não tinha podido executar este genocídio. Então, a abdicação do jornalismo facilitou o genocídio, ao mesmo tempo que uma gigantesca máquina de propaganda era posta ao serviço de milhares de enviados que ficaram a cobrir o território israelense.
Com três livros publicados sobre o Oriente Médio, Alexandra tem ido a Palestina sistematicamente desde 2002, meados da Segunda Intifada. Diz que há abismos entre as vozes das pessoas nas ruas e a inação de lideranças políticas; entre as novas gerações, mobilizadas contra o horror, e a parte mais envelhecida da Europa que não tem noção da barbárie que chega via redes sociais; entre a aceitação dos países do Norte e o questionamento das ações israelenses feito pelo Sul Global; entre o que se vê na imprensa ocidental e os relatos de jornalistas e trabalhadores humanitários em Gaza. Ela aponta ainda as responsabilidades de Israel, do Hamas, da Autoridade Palestina, dos países árabes e da comunidade internacional. Não poupa, e não poderia, o racismo europeu.
– Desde 7 de outubro, vemos o colapso do humano nos governos cúmplices deste genocídio. Vemos como está vivo e é implacável o racismo da velha Europa colonial, a mesma que durante séculos foi monstruosamente antissemita, exterminou judeus como hoje descarta as vidas palestinas. A verdadeira herança do Holocausto é salvar os palestinos agora. Nunca mais é agora, já, como tantos judeus pelo mundo entendem, e por isso dizem a Israel: não em meu nome. E, no entanto, continuamos a ver que as vidas palestinas pouco valem para os líderes dessa Europa hipócrita que se crê bastião da civilização, começando pela Alemanha – diz.
O texto de Alexandra leva o leitor à Faixa de Gaza de 2017, onde “o controle prévio do Hamas se junta ao de Israel no mais impressionante checkpoint concebido pelo Estado judaico: Erez.” Alexandra descreve as várias vezes que passou por ali, do controle israelense (“uma distopia militarizada”) a uma etapa intermediária realizada pelo Fatah (que governa a Cisjordânia) até chegar ao controle do Hamas, onde um intérprete a espera com o visto. No caso dos jornalistas, havia ainda um segundo interrogatório no Gabinete Governamental de Mídia. Não à toa, ela diz que a Gaza que foi vendo entre 2002 e 2017 é “desde há muito um lugar como não existe outro no planeta”.
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E um lugar sobre o qual o mundo quase nada sabe. Alexandra mostra uma Gaza onde, em 2017, 40% da população estava desempregada, não havia um único cinema e uma cena rapper antes promissora tinha praticamente desaparecido. Ela revela a violência do Hamas contra seus opositores e contra colaboradores com Israel, e sublinha o clima de desconfiança entre a população diante do constante assédio israelense a palestinos para que passem informações sobre o grupo terrorista. Na Gaza que Alexandra percorreu havia apenas dois psiquiatras para 2 milhões de pessoas, e um deles disse a ela em entrevista que a depressão é questão seriíssima no enclave, onde haveria à época cerca de 200 mil dependentes de medicamentos.
Nas reportagens feitas na Cisjordânia, em Jerusalém Oriental e em Israel, em dezembro de 2023 e janeiro de 2024, e também nas crônicas que Alexandra escreveu desde então, a humanidade aparece longe dos comunicados oficiais, quase sempre retórica vazia. É nas conversas nas ruas e nas trocas de mensagens com gente comum, daquelas que a sensibilidade de bons escritores e bons jornalistas sabe encontrar e contar, que Alexandra nos distancia da arena romana que tantos gostam de armar quando se trata do Oriente Médio.
Em Tel Aviv, no local agora conhecido como Praça dos Reféns, a família de Alon Ohel, ainda mantido refém em Gaza, levou às ruas o piano do filho, onde se vê uma foto dele e a frase “você não está sozinho. Na mesma cidade, a terapeuta Daniella explica seu sentimento: “Acho que a segunda geração, que é a minha, herdou o medo do holocausto como algo subterrâneo. Sempre esteve adormecido, nunca pensei nele. Mas no 7 de outubro acordou.” Sofia Orr, detida por recusar o serviço militar, diz que é chamada nas redes de “traidora” e “self-hating jew”. Ela pensa em deixar Israel.
Em Jenin, na Cisjordânia ocupada, Ahmed Tobasi, diretor do Freedom Theatre, teve seu teatro vandalizado, foi detido e libertado por militares israelenses. Seu depoimento é tocante: “A vida tem de ter um significado. Não quero matar. Faço teatro. Quero humanidade. Liberdade: acabem com as fronteiras, os vistos, deixem as pessoas circularem, encontrarem-se, trabalharem onde quiserem.”
Um rabino se posta como escudo contra os avanços de colonos israelenses sobre terras palestinas. Uma artista coloca uma incubadora no pátio da Basílica da Natividade durante um Natal vazio. Dentro dela, um menino Jesus negro, atingido pelas bombas em Gaza. O pai de quatro filhos teme vê-los presos ou mortos. Uma mulher palestina questiona um pedido de entrevista: “Por que haveremos de falar? Não chega o que já aconteceu?”
E o que dizer da mensagem enviada por W., de Gaza, para Alexandra? “Hoje comi um pedaço de pão e um tomate. Consegui também 250ml de água. Estou a guardar 60ml para a noite. Sou sortudo. Banho é outro problema. Só urino à noite quando tenho a certeza de que a multidão não pode ver. Tão inumano. Continuo a rezar para sair”.
– Os palestinianos mostram-nos como o humano pode ser sobrehumano. Há décadas — e até agora — que nos ensinam. Como o pessimismo é um luxo e estamos para além dele. Como não desistir de ficar vivo. O mínimo que lhes devemos é ouvi-los, segui-los. E o mínimo que devemos às nossas crianças, aos jovens que acordam para este horror em direto, a quem estamos a deixar em herança a extinção do humano – diz Alexandra.
‘Gaza está em toda parte’
Autora: Alexandra Lucas Coelho. Editora: Bazar do Tempo. Páginas: 399. Preço: 118.