O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) conseguiu reverter a tendência negativa na popularidade que enfrentava desde o ano passado, embora continue mais rejeitado que aprovado entre os brasileiros. A melhora é apontada pela mais recente rodada da pesquisa Genial/Quaest, divulgada na quarta-feira, e coincide com a reação do petista ao tarifaço anunciado pelo presidente dos EUA, Donald Trump, além da aposta da gestão Lula na campanha de taxação de super-ricos. Os resultados mostram que a leve recuperação foi puxada por segmentos menos identificados com a base social do PT, como eleitores com renda média, mais escolarizados e moradores do Sudeste.
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Após uma sequência de quedas, a taxa de desaprovação do governo recuou de 57% para 53%, na comparação com a pesquisa anterior. O percentual dos brasileiros que aprovam o governo, por sua vez, avançou de 40% para 43%. É a primeira melhora no índice depois da sequência de reveses iniciada em julho de 2024. Com o resultado — apesar de as variações estarem na margem de erro, de dois pontos percentuais —, a distância entre os dois grupos caiu de 17 para 10 pontos.
A pesquisa mostra ainda que o percentual dos que avaliam o governo como negativo passou de 43% para 40%. Já os que se veem a gestão como positiva foram de 26% para 28%, mesmo patamar de percepção regular.
A Quaest aponta que a desaprovação ao governo caiu seis pontos percentuais entre brasileiros com renda mensal de dois a cinco salários mínimos, oito pontos na Região Sudeste, a mais populosa do país, e cinco pontos entre as mulheres. A queda foi ainda maior, de 11 pontos, no eleitorado com ensino superior.
— A recuperação do governo aconteceu na classe média, com maior escolaridade, no Sudeste. São os segmentos mais informados da população, que se percebem mais prejudicados pelas tarifas de Trump, e que consideram que Lula está agindo de forma correta até aqui, por isso passam a apoiar o governo — avalia o diretor da Quaest, Felipe Nunes.
O instituto fez as 2.004 entrevistas presenciais entre quinta-feira e segunda-feira, ou seja, logo após Trump indicar que os EUA passarão a taxar em 50% produtos brasileiros e citar, entre as justificativas para a medida, o processo contra o ex-presidente Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado, chamado de “caça às bruxas”. Na quarta-feira, o americano voltou a sair em defesa do aliado. O levantamento captou a percepção da população sobre o tarifaço e indica que há um alinhamento com a posição tomada pelo governo, o que reforça que o episódio impactou a visão do eleitorado sobre Lula 3.
Somam 72% os entrevistados que consideram que a decisão do presidente americano foi um erro e chegam a 53% os que avaliam que Lula está certo ao reagir com reciprocidade às tarifas. Além disso, 44% veem o presidente “mais certo” no embate com Trump, contra 29% que pensam o mesmo sobre o bolsonarismo.
A vantagem do governo se repete, inclusive, entre quem diz não ter posicionamento político. Outro dado que favorece a gestão Lula é que a maior parte dos entrevistados (84%) afirma que gostaria que governo e oposição trabalhassem juntos para enfrentar o problema. O posicionamento reforça a dificuldade enfrentada por lideranças da direita — boa parte delas adotou a estratégia de se alinhar a Trump contra Lula. Mesmo entre eleitores de Bolsonaro, porém, 74% defendem a união entre os polos no tema.
O GLOBO apurou que, diante do resultado, o Palácio do Planalto pretende reforçar a aposta no discurso crítico a Trump e na defesa da soberania, mote que direcionou a comunicação oficial. Na quarta-feira, Lula gravou um pronunciamento sobre o tarifaço para ser exibido em cadeia de rádio e TV.
Auxiliares do presidente associam a mudança ao episódio, mas também à campanha pela taxação dos mais ricos que mobilizou a base nas últimas semanas.
— O governo tem defendido um projeto de país com justiça tributária e melhor distribuição de renda. Tem defendido também a soberania nacional diante dos ataques tarifários, com serenidade e diálogo. Isso é forte e dialoga com os interesses da maioria — disse o ministro dos Transportes, Renan Filho (MDB).
A Quaest também questionou os entrevistados sobre a taxação dos super-ricos. Embora o aumento de impostos para o grupo com o objetivo de diminuir o peso dos tributos aos mais pobres tenha apoio de 63% dos entrevistados e 75% se mostrem a favor de ampliar a faixa de isenção do Imposto de Renda, o mote de “ricos contra pobres” adotado pelo governo não é bem visto pela maioria (53%). A estratégia foi adotada após o Congresso derrubar o decreto do governo que aumentava o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) e levou a ataques de apoiadores de Lula ao Legislativo e ao presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), nas redes sociais, inclusive com uso de imagens geradas por meio de tecnologias de inteligência artificial.
Os dados da pesquisa revelam, porém, que a campanha não atingiu boa parte da população. Não ficaram sabendo da agenda de “justiça tributária” do governo 56% dos entrevistados, ante 43% que afirmaram que tiveram conhecimento da iniciativa. Além disso, 72% não viram conteúdos críticos a Motta.
A pesquisa anterior da Genial/Quaest havia sido feita poucos dias depois de o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, anunciar a elevação do IOF e recuar parcialmente de alguns trechos, sob fortes críticas. A avaliação negativa do governo colocou Lula no mesmo patamar de Bolsonaro em momentos similares do mandato, quando o rival enfrentava os desdobramentos da CPI da Covid, em junho de 2021. De lá para cá, Lula editou as medidas provisórias relativas ao imposto e sofreu uma derrota política no Congresso.
A expectativa no Planalto é que o cenário demonstre ter sido superada definitivamente a crise gerada pelo escândalo das fraudes nas aposentadorias e pensões do INSS. Apesar da melhora no novo levantamento, Lula ainda enfrenta desafios para retomar os patamares identificados há um ano — em dezembro, o percentual de aprovação ao governo era maior que o de insatisfeitos. O petista também não recuperou a ampla vantagem que tinha no Nordeste (foi de 41 para 9 pontos a distância entre aprovação e reprovação). Além disso, não houve reação entre os evangélicos — a desaprovação variou três pontos para cima em um mês, atingindo 69%.