Algo raro aconteceu nas bilheterias dos Estados Unidos na última semana: um filme que está disponível há dois meses no streaming foi exibido também em salas de cinema e logo ocupou a primeira colocação nas paradas. O fenômeno em questão é “Guerreiras do K-pop”, uma produção americana que surfa na onda sul-coreana. No ar na Netflix desde 20 de junho, a animação foi lançada em sessões especiais e arrecadou impressionantes US$ 18 milhões no fim de semana. O valor é superior ao de sucessos como “A hora do mal”, que faturou US$ 15 milhões, e “Uma sexta-feira mais louca ainda”, com US$ 8,8 milhões. Os números são ainda mais impactantes pelo fato de o longa animado ter sido lançado em apenas 1.700 salas, enquanto que os outros dois superam, cada um, a marca de 3.600 cinemas nos EUA.
- Sucesso mundial: ‘Guerreiras do K-Pop’ conquista crianças e suas famílias: ‘Você começa a dançar’, diz mãe
- Conhece a ‘geração beta’? Nascidos entre 2025 e 2039 vão estar afastados das redes sociais e mergulhados na IA; entenda
No streaming, “Guerreiras do K-pop” se tornou o filme mais assistido da história da plataforma, com mais de 236 milhões de streams, deixando para trás o antigo recordista, a comédia de ação “Alerta vermelho”. O longa está há nove semanas (desde que estreou) entre os dois filmes mais assistidos na Netflix no mundo (o outro é “Um maluco no golfe 2”, com Adam Sandler). E o sucesso não se resume a telas de cinema e streaming.
Nas plataformas musicais, a trilha sonora da animação produz hit atrás de hit. As bandas fictícias Saja Boys e Huntr/X ultrapassaram os fenômenos BTS e Blackpink nas paradas. No momento, quatro canções do filme integram o top 10 global da Billboard e sete estão no top 20 global do Spotify. A canção “Golden”, da trilha do longa, lidera os dois rankings.
— O filme é muito bem-feito e traz de forma clara a potência do K-pop em suas diferentes frentes, desde o impacto das músicas até o dinamismo da cultura de fãs. E aborda um universo cultural muito rico, com músicas boas, personagens cativantes e elementos apresentados com cuidado e atenção — diz a pesquisadora de pós-doutorado da UFF Daniela Mazur, especializada em cultura pop da Coreia do Sul no Brasil. — Ao se passar em meio às lógicas da cultura do K-pop, o filme traz para o centro da mesa a própria força da “Onda Coreana”, que atrai fãs desse fenômeno pelo mundo.
- BTS está de volta: será que o grupo coreano ainda é o rei do k-pop?
Em julho, em meio ao sucesso do longa, Daniela teve a oportunidade de visitar Seul, na Coreia do Sul. Ela lembra que o país estava tomado por referências do filme e que as músicas tocavam em todos os lugares.
— Acho que a superestimulação visual com cores e movimento e as músicas chiclete são a fórmula do sucesso do desenho — aponta a caracterizadora Camilla Soares, mãe de Niara, uma menina de 7 anos apaixonada pelo filme. — No início, achei que era algo em que ela estava interessada por ser novo, mas depois percebi que trazia histórias das amigas que estavam assistindo. Comecei a ver que era uma febre. Elas querem cantar, dançar, falam sobre os cabelos, ela me pediu uma mecha colorida porque tem uma das meninas do desenho de cabelo rosa.
- Vira-lata caramelo: cachorros sem pedigree inspiram filme, arte e mostram que vieram para ficar na cultura pop
No colégio, o longa virou objeto de conversa no grupo de pais no WhatsApp. Camilla conta que já perdeu as contas de quantas vezes a filha assistiu ao filme, mas que “com toda certeza foi mais do que dez” — o hábito de crianças de verem o mesmo filme repetidamente, aliás, pode ajudar a explicar o sucesso no ranking da Netflix.
E o fenômeno não se deve exclusivamente às crianças. O sucesso é tanto que a produção alcançou pessoas fora de seu público-alvo mais tradicional. O ator, músico e comediante Andy Samberg, por exemplo, compareceu ao programa “Jimmy Kimmel Live” na última semana e acabou falando mais sobre “Guerreiras do K-pop” do que sobre o filme que estava lá para promover, “Os Roses: até que a morte os separe”, em cartaz nos cinemas. “Sempre fui fã de K-pop e estou numa fase de ‘Guerreiras do K-pop’”, disse o americano de 46 anos em conversa com a apresentadora convidada Tiffany Haddish, ponderando, no entanto, que não é uma unanimidade. “Estou totalmente imerso nisso. Achei que seria algo que eu poderia compartilhar com minha filha, que tem 8 anos. Tentei fazê-la ouvir, mas ela disse: ‘Não, tô de boa.’”
Anime, mangá, Aranhaverso
A crítica de cinema Isabela Boscov falou sobre a produção em seu canal no YouTube após muitos pedidos por parte de seus seguidores: “A animação é linda, ela cruza o estilo do anime com influências de ‘Homem-Aranha no Aranhaverso’ e, nos momentos mais cômicos, usa traços do mangá na fisionomia das personagens”, disse. “E não falta criatividade aos diretores para apresentar de mil maneiras diferentes os números musicais.”
Com direção de Maggie Kang e Chris Appelhans, o filme mescla elementos de musical e ação. A história acompanha Rumi, Mira e Zoey, estrelas do K-pop que têm identidades secretas como caçadoras de demônios. Elas precisam lidar com uma nova ameaça: um grupo de demônios que se disfarça como uma boy band rival.
— Me irritou o reforço dos clichês de gênero. Clube do Bolinha e da Luluzinha a essa altura? Não existe amizade fora? — pondera a roteirista Clara Meirelles, que também vê o filme se tornar um fenômeno dentro de sua casa. — Consigo entender o hit. As cenas musicais e a história da principal protagonista prendem. Aqui já rolou até festa de aniversário com tema de “Guerreiras do K-pop”. Minha enteada, de 9 anos, ama. As meninas só querem usar a roupa das protagonistas e fazer cara de caçadoras de demônios.
Nos EUA, o filme vem sendo apontado como forte concorrente ao Oscar de melhor animação e melhor canção original, com “Golden”.
Alguns apostam inclusive em mais de uma indicação para as músicas da produção. Ao lado da Sony Pictures, a Netflix já estaria preparando uma campanha especial para a obra durante a temporada de premiações. Por sinal, a produção pode ser a “desculpa ideal” para Hollywood não se render à animação chinesa “Ne Zha 2: o renascer da alma”, maior sucesso de bilheteria do ano, com faturamento de US$ 1,9 bilhão nos cinemas. Num ano de animações hollywoodianas de desempenho fraco nas telas, como “Elio”, da Pixar, e “Os caras malvados 2”, da DreamWorks, “Guerreiras do K-pop” tem tudo para ganhar destaque na corrida pelos prêmios. Apesar de contar com muitos coreanos na equipe técnica e no elenco de vozes, a obra é uma produção norte-americana.
— O destaque do fenômeno cultural e midiático sul-coreano é reconhecido em nível global, então é compreensível o interesse e o apelo nos dias de hoje — diz a pesquisadora Daniela Mazur, que aponta que o interesse em tudo que é sul-coreano é um fenômeno “cada dia mais global”. — “Guerreiras do K-pop” é uma leitura respeitosa e plural dessa indústria. Traz o K-pop como destaque e força motora.
Aproveitando o impacto cultural do filme, as produtoras se apressam em desenvolver sequências (sim, no plural) para a história. Segundo a revista Hollywood Reporter, a Sony e a Netflix já estariam em negociações com Kang e Appelhans para retornar à direção. As companhias não descartam explorar mais as histórias de Zoey e Mira na tela grande, uma vez que “Guerreiras do K-pop” acaba se debruçando mais sob a trama de Rumi.