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Dúvida da semana 🤷♀️🤷
“Como ensinar meu filho a estudar em casa e se organizar com os deveres?”
“Você já estudou?” Talvez poucas frases sejam tão repetidas dentro de uma casa com criança em idade escolar. Eu mesma já me peguei fazendo essa pergunta mais vezes do que gostaria.
Mas organizar o material, decidir por onde começar, calcular quanto tempo uma tarefa vai levar, perceber que não entendeu um conteúdo e pedir ajuda são habilidades que também precisam ser aprendidas.
E autonomia não aparece de uma hora para outra, só porque a criança cresceu: ela vai sendo construída, aos poucos, com orientação, acompanhamento dos responsáveis e, principalmente, espaço para que os filhos assumam responsabilidades.
Não adianta esperar que um filho desenvolva sozinho, de uma hora para outra, a capacidade de planejar os estudos, nem que a escola sozinha ensine isso: os pais são parte importante do processo, que começa bem antes do que se imagina.
Conversei com duas educadoras para entender onde termina a cobrança e começa a nossa responsabilidade.
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Palavra das especialistas 👩🏫👨🏫
Vanessa Moschetti – Fundadora e diretora do St. John’s International School
Caderno aberto, tarefa por fazer, celular ao lado e a pergunta que se repete em muitas casas: “Você já estudou?”. Quando a rotina de estudos vira uma sequência de cobranças, o problema nem sempre está na falta de interesse da criança. Muitas vezes, ela simplesmente ainda não sabe como organizar o que precisa fazer, quanto tempo dedicar a cada atividade ou o que fazer quando encontra uma dificuldade.
Como educadora e diretora de escola, vejo que aprender a estudar é um processo. A criança precisa desenvolver, aos poucos, habilidades para planejar, manter a atenção, perceber quando não entendeu um conteúdo e buscar outra maneira de aprender. São competências que não aparecem prontas e que também precisam ser ensinadas em casa.
Esse conjunto de habilidades está relacionado à autorregulação da aprendizagem. Uma pesquisa publicada em 2023 na revista científica Learning and Instruction, com três estudos envolvendo 214 alunos do ensino fundamental, mostrou que intervenções que combinavam estratégias de aprendizagem e autorregulação tiveram efeitos positivos no desempenho acadêmico. Os pesquisadores também observaram redução de pensamentos que desviavam a atenção durante as atividades.
Na prática, isso significa que dizer apenas “vá estudar” pode não ser suficiente. Antes de esperar que a criança seja organizada, precisamos ensiná-la a se organizar.
A organização para os estudos também é uma aprendizagem. No início, a criança precisa de mais orientação dos adultos, mas esse apoio deve diminuir gradualmente, à medida que ela desenvolve condições para assumir a própria rotina.
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Algumas atitudes podem ajudar nesse caminho:
• Criar uma rotina possível: horários relativamente estáveis ajudam a criança a saber quando é hora de estudar. É importante, porém, considerar idade, sono, descanso, atividades físicas e momentos de lazer.
• Preparar o ambiente: deixar disponível apenas o material necessário e reduzir estímulos pode facilitar a concentração. Celular, televisão e notificações disputam a atenção e podem tornar mais difícil permanecer na tarefa.
• Planejar antes de começar: em vez de simplesmente mandar fazer a lição, os pais podem ajudar a criança a olhar para tudo o que precisa ser feito, estabelecer prioridades e dividir tarefas maiores em partes menores.
• Trocar cobrança por perguntas: “O que você precisa fazer hoje?”, “Por onde vai começar?” e “Qual parte está mais difícil?” ajudam a criança a refletir sobre o próprio estudo e perceber onde precisa de ajuda.
• Ajudar sem fazer: explicar uma orientação, tirar uma dúvida ou mostrar uma estratégia é diferente de resolver a atividade pela criança. O desafio precisa continuar sendo dela.
• Transferir responsabilidades aos poucos: conferir a agenda, separar os livros, organizar o material e acompanhar o que foi concluído são tarefas que podem passar gradualmente para a criança, de acordo com sua idade.
• Evitar transformar o estudo em uma disputa: quando cada tarefa termina em discussão, comparação ou ameaça, estudar pode passar a ser associado à pressão, e não à aprendizagem.
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A participação dos pais também merece atenção. Acompanhar não significa supervisionar cada minuto diante dos livros. O objetivo não é criar uma criança que só estuda quando um adulto manda. É ajudá-la a entender como aprender, reconhecer suas dificuldades e buscar estratégias para lidar com elas.
Também precisamos permitir que a criança erre durante esse processo. Esquecer uma tarefa, calcular mal o tempo ou perceber que não conseguiu se organizar são situações que podem gerar uma conversa importante: o que aconteceu, o que dificultou e o que pode ser feito de outra maneira na próxima vez?
Mais do que perguntar “meu filho está estudando?”, os pais podem observar se ele está aprendendo a estudar. A diferença está justamente aí. O papel do adulto não é deixar a criança sozinha diante dos livros, mas oferecer orientação suficiente para que, pouco a pouco, ela consiga assumir responsabilidades, tomar decisões e construir uma rotina de estudos mais independente.
Carolina Paschoal – Pedagoga e diretora da Escola Pedro Apóstolo
A autonomia precisa ser construída de acordo com a idade e o desenvolvimento de cada aluno. O papel do adulto é orientar e acompanhar, mas também permitir que a criança assuma responsabilidades que já é capaz de realizar sozinha.
Seja aos 5, 6, 12 ou 13 anos, crianças e adolescentes ainda precisam de orientação, acompanhamento e referências. A autonomia é uma construção e não acontece simplesmente porque a criança cresceu. Antes de cobrar autonomia, precisamos ensinar a construí-la.
E a construção desse método deve acompanhar a idade.
Crianças menores precisam de maior orientação dos pais para criar hábitos e organizar as tarefas. Conforme crescem, podem assumir gradualmente mais responsabilidades. Neste cenário, o papel da família é justamente fazer essa transição: inicialmente acompanhar de perto, depois orientar e, conforme o estudante ganha segurança, permitir que ele conduza a própria rotina.
Nesse processo, algumas responsabilidades podem ser gradualmente transferidas para o estudante, como organizar os próprios materiais, acompanhar prazos, estabelecer uma rotina de estudos e aprender a administrar as próprias responsabilidades.
Mais do que simplesmente reservar algumas horas do dia para estudar, o estudante precisa aprender a organizar esse momento de acordo com suas necessidades. Construir um método envolve entender o que precisa ser feito, definir prioridades, encontrar um ambiente adequado, administrar as distrações e identificar quais estratégias ajudam na compreensão dos conteúdos.
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A partir dessa organização, alguns hábitos podem fazer diferença na rotina, como distribuir as tarefas ao longo da semana, revisar conteúdos, estabelecer pausas e evitar deixar trabalhos e estudos para a véspera das avaliações.
Ao ingressar nos anos finais do Ensino Fundamental, é comum que algumas famílias reduzam o acompanhamento da trajetória escolar por entenderem que, nessa fase, os estudantes já devem ser mais autônomos. No entanto, é justamente nesse momento que os conteúdos se tornam mais desafiadores, aumenta o número de disciplinas e professores e a rotina de estudos exige maior capacidade de organização, planejamento e responsabilidade.
Outro ponto de atenção são as distrações, especialmente o celular. Notificações e mensagens podem interromper a concentração e dificultar a continuidade do raciocínio. Por isso, estabelecer combinados sobre o uso do aparelho durante os estudos e organizar um ambiente com poucas interrupções pode ajudar. A tecnologia, porém, não precisa ser excluída: também pode ser utilizada como ferramenta de pesquisa e aprendizagem.
Há uma diferença entre estudar e simplesmente permanecer diante do material escolar. Reler várias vezes um conteúdo não significa necessariamente que ele foi compreendido. Explicar o assunto com as próprias palavras, resolver exercícios, fazer perguntas e identificar dúvidas são estratégias que ajudam o aluno a perceber o que realmente aprendeu.
A realização diária das tarefas de casa também constitui um importante instrumento de estudo e aprendizagem. Quando o professor apresenta um conteúdo em sala e propõe exercícios para serem realizados de forma mais autônoma em casa, o estudante tem a oportunidade de perceber o que já compreendeu e identificar aquilo que ainda lhe causa dúvidas.
A tarefa de casa não deve ser compreendida apenas como uma atividade a ser cumprida. Ela faz parte do processo de aprendizagem e cria uma ponte entre o que foi ensinado, o que o estudante conseguiu realizar sozinho e aquilo que ainda precisa aprender.
NO RADAR 👀
Cinco perguntas para ajudar a criança a criar seu próprio método, por Carolina Paschoal:
O que eu preciso fazer hoje? Ajuda a estabelecer prioridades.
O que é mais difícil para mim? Permite identificar quais conteúdos precisam de mais atenção.
Quando será minha prova ou entrega? Ajuda a compreender a importância do planejamento.
Eu realmente entendi esse conteúdo? Estimula o estudante a perceber se apenas leu ou se conseguiu compreender.
O que ainda preciso perguntar ou revisar? Ensina a reconhecer dificuldades e buscar ajuda.
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Como ensinar seu filho a estudar sozinho?
