Durante os últimos anos de repressão recente da China ao setor de tecnologia, os fóruns internos de mensagens do Alibaba Group Holding começaram a ganhar força com sonhos de “MAGA” – Make Alibaba Great Again (“Faça o Alibaba Grande Novamente”), parafraseando o movimento de Donald Trump nos EUA trocando America por Alibaba. Agora, a empresa está recorrendo a uma de suas armas mais potentes para cumprir essa missão: a volta do seu bilionário fundador, Jack Ma.
- Crise iminente: China desdenha da soja dos EUA após tarifas de Trump, e agricultores agora têm um problemão
- Desvalorização global: Dólar fecha aos R$ 5,29, menor patamar em mais de 1 ano, na véspera de decisão sobre juros nos EUA
Depois de desaparecer da vida pública no início de uma investigação antitruste no fim de 2020, o empresário mais reconhecido da China está de volta ao quartel-general da Alibaba – e está mais envolvido diretamente do que esteve nos últimos cinco anos, segundo pessoas familiarizadas com a empresa.
Os sinais de sua mão invisível estão ficando mais nítidos, sobretudo na guinada da companhia para a inteligência artificial (IA) e na declaração de guerra contra os rivais de e-commerce JD.com e Meituan.
- Entenda: Chocolate suíço e bacalhau norueguês vão ficar mais baratos com acordo comercial?
Ma foi fundamental na decisão da Alibaba de gastar até 50 bilhões de yuans (7 bilhões de dólares) em subsídios para enfrentar a entrada-surpresa da JD no mercado, disse uma das pessoas, pedindo anonimato por se tratar de assunto privado.
A Alibaba, que desde 2023 é comandada por dois dos mais antigos auxiliares de Ma, Joe Tsai e Eddie Wu, não informou se o fundador retornou em algum cargo oficial. Um porta-voz não respondeu a um e-mail com pedido detalhado de comentário. Mas pessoas ligadas à operação dizem que o fundador de 61 anos está mais ativo do que em qualquer momento desde sua saída da presidência, em 2019.
- Queda nos preços: Mercosul e Efta assinam acordo que cria zona de livre comércio com PIB de US$ 4,3 trilhões
Além de ajudar a orquestrar bilhões em gastos, ele também busca atualizações constantes sobre os projetos mais amplos de IA da companhia. Em uma ocasião, enviou mensagens três vezes em um mesmo dia a um alto executivo pedindo informações, segundo uma das fontes.
O retorno do líder tecnológico mais rico e proeminente da China tem sido aguardado há muito tempo como um sinal de que o outrora livre setor de tecnologia do país estaria voltando a cair nas boas graças de Pequim.
Embora não esteja claro se Pequim concordou explicitamente com sua volta, um aperto de mãos entre Ma e o presidente Xi Jinping em fevereiro foi visto como a reabilitação do empresário em um momento em que a China aposta na IA para impulsionar o crescimento. Ainda assim, espera-se que Ma mantenha um perfil mais discreto do que antes da repressão, quando participava de painéis em Davos e chegou a ser jurado de um programa de talentos africano.
- Tarifaço: empresas exportadoras de madeira já demitiram 4 mil funcionários, calcula associação
– Jack Ma é a maior figura de relações públicas da Alibaba, sua maior personalidade, seu maior ídolo – disse Li Chengdong, chefe do think tank de internet Haitun, em Pequim. – O retorno do grande chefe significa que ele já não é mais um risco, e isso deixa todos entusiasmados.
Ma está se ajustando às novas realidades do e-commerce chinês, marcadas por competição acirrada e pela batalha por consumidores que buscam refeições, mantimentos e eletrônicos entregues em uma hora ou menos.
Altos executivos da empresa tentam fazê-lo compreender que os dias em que o Alibaba detinha 85% do mercado ficaram para trás, disse uma das pessoas ouvidas pela Bloomberg.
- Leia também: Trump estende prazo para concluir acordo sobre TikTok até 16 de dezembro
Ele aposta que a plataforma central da companhia, o Taobao, pode superar JD e Meituan após recentes sucessos em recuperar participação de mercado. Em julho, o Alibaba tinha 43% do mercado de entregas de comida da China, atrás dos 47% da Meituan, segundo o Goldman Sachs.
Mas essa batalha pode colocar Ma em rota de colisão com autoridades que querem acabar com o que consideram “subsídios maliciosos”, reacendendo críticas contra o papel do Alibaba na guerra de preços.
Foi um discurso agora infame de Ma, em 2020, que o levou a se retirar da cena pública. Dias após criticar publicamente credores chineses como “casas de penhores”, os reguladores bloquearam os planos de abrir o capital da Ant Group, afiliada do Alibaba. Semanas depois, Pequim lançou uma campanha de longo prazo para reforçar o controle estatal sobre a economia e conter a classe bilionária do país.
Ma foi repentinamente lançado ao centro de uma tempestade regulatória que logo engoliu grandes rivais, de Didi Global até as então gigantes da educação on-line, empurrando outros bilionários para o exílio e causando a maior destruição de riqueza da história moderna da China. O Alibaba perdeu quase US$ 700 bilhões em valor de mercado – o equivalente a uma Tencent Holdings inteira hoje.
- Estrangeiros puxam alta da Bolsa no Brasil: entenda por que o país entrou no radar dos investidores lá fora
Ma, – talvez o símbolo mais conhecido desses anos de repressão — afastou-se dos holofotes, passando boa parte do tempo em Tóquio e Hong Kong. O moral dos funcionários despencou nesses anos, que coincidiram com as rigorosas restrições da pandemia na China.
A ausência de Ma por si só passou a simbolizar tempos difíceis na empresa. Assim, quando ele retornou ao Ant Group, em dezembro, para fazer seu primeiro discurso público desde 2020, alguns funcionários veteranos ficaram tão emocionados que choraram, contou um participante, sob anonimato.
Durante uma visita à sede da divisão de nuvem do Alibaba, em abril, Ma passou por paredes cobertas de mensagens emocionadas de funcionários veteranos descrevendo as dificuldades enfrentadas na sua ausência. Cercado por colaboradores sentados em tapetes nas escadarias e com outros acompanhando de Tóquio e Hong Kong, Ma demonstrou sua tradicional eloquência, disseram participantes também em anonimato.
– A tecnologia não é apenas sobre conquistar as estrelas e os oceanos – disse ele, segundo uma transcrição revisada pela Bloomberg News. –É sobre preservar a centelha que existe em todos nós.
Ma destacou o papel crucial da plataforma de nuvem da companhia, seus chips próprios da T-head e sua família de modelos de IA Qwen, sobre os quais disse receber atualizações diárias. Após o evento, alguns participantes disseram ter saído motivados e inspirados, como se tivessem presenciado a cultura de uma startup em seu primeiro dia.
A Alibaba percorreu um longo caminho desde sua fundação em 1999, quando Ma reuniu US$ 80 mil de 80 investidores para lançar um mercado online. Em 2014, protagonizou a maior abertura de capital da época, levantando US$ 25 bilhões. Nos anos seguintes, cresceu de forma constante, elevando seu valor de mercado a mais de US$ 800 bilhões. Mas, após o atrito de Ma com os reguladores e a pandemia que paralisou a economia chinesa, suas ações despencaram.
Para restaurar a antiga glória do Alibaba, Ma conta com rostos familiares como Wu e Tsai, além da estrela em ascensão Jiang Fan. Wu é visto como figura mais permanente do que transitória, e seu histórico técnico o torna apto a liderar, especialmente na IA, disseram fontes. Como presidente, Tsai atua como principal aliado de Ma no conselho, enquanto Jiang foi encarregado de dirigir a nova operação de e-commerce da companhia, que hoje vai de Singapura a Istambul.
– A Alibaba já está claramente em boas mãos com o retorno de pioneiros como Eddie, Joe e Jiang Fan – disse Vey-Sern Ling, diretor administrativo da Union Bancaire Privée. – A empresa voltou a focar em tecnologia e em seus negócios centrais com investimentos disciplinados e, ao que tudo indica, está entrando em uma fase em que começará a colher os frutos.
Wu lidera a principal prioridade da empresa: a busca pela inteligência artificial geral. Em fevereiro, o Alibaba prometeu investir mais de 380 bilhões de yuans em IA e infraestrutura de nuvem nos próximos três anos. Embora a monetização ampla da IA ainda esteja distante, a empresa conseguiu, em agosto, registrar um salto de 26% na receita de nuvem – seu ritmo mais rápido de expansão trimestral em anos. Isso ajudou suas ações a acumularem alta de 88% no ano até o fechamento da segunda-feira, embora seu valor de mercado, de US$ 380 bilhões, ainda seja menos da metade do pico.
- Curioso: Partido político vai nomear IA como líder no Japão
Além da IA, Ma também exerce influência no negócio central de e-commerce – ainda o maior gerador de receita. Em 2023, a queda na participação de mercado do Alibaba levou Ma a apoiar a saída do então CEO Daniel Zhang, segundo uma fonte próxima ao fundador. No mesmo ano, ele surpreendeu funcionários ao postar mensagens em um fórum interno pedindo que a empresa “corrigisse seu rumo”, quando a novata PDD Holdings estava prestes a ultrapassar o Alibaba em valor de mercado – o que de fato aconteceu depois.
A empresa ainda se recupera de uma série de erros sob Zhang, que, com o aval de Ma, despejou bilhões de yuans em redes de hipermercados, numa aposta equivocada de que o consumo chinês se ampliaria. Durante a gestão Zhang, o Alibaba foi dividido em seis unidades independentes, incluindo nuvem e logística, cada uma livre para buscar seu próprio IPO. Mas esses planos foram deixados de lado devido ao mercado instável. A Firstred Capital, para onde Zhang foi após deixar o Alibaba, não respondeu a pedidos de comentário.
– Jack tem uma espécie de autoridade moral dentro da empresa para tomar grandes decisões e também criticar executivos, direta ou indiretamente, ou criticar estratégias quando acha que estão no caminho errado – disse Duncan Clark, autor de “Alibaba: A Casa que Jack Ma Construiu”. – Ele não é um microgestor do dia a dia. Mas sua palavra ou seu descontentamento podem ser expressos de forma que façam a empresa mudar de rumo.
- População ocupada: Desemprego cai para 5,6% em julho, menor nível da série histórica, puxado pelo emprego com carteira
Jiang recebeu a tarefa de comandar o império de e-commerce mais unificado da Alibaba, coordenando de perto as operações de entrega de comida, reservas de hotel e logística. Ex-engenheiro de software, ele fez parte de um seleto grupo de executivos pessoalmente orientados por Ma, segundo pessoas próximas. Embora tenha sido afastado da liderança central da empresa que influencia indicações para o conselho após um escândalo em 2020, sua posição foi restituída neste ano.
Internamente, o retorno de Ma elevou a confiança na direção da empresa, mas também trouxe desafios. Sua presença nos campi complicou a estrutura de reporte, já que alguns funcionários o veem como o verdadeiro tomador de decisões do Alibaba, disseram fontes. Mas ele não tem título oficial e recuou das decisões mais detalhadas.
Para alguns, o retorno de Ma parece uma tentativa final de um fundador da primeira geração da tecnologia de recuperar seu legado. Como outros primeiros funcionários do Alibaba, ele adotou um codinome inspirado em lendas do kung fu e frequentemente comparava o caminho empreendedor a uma jornada de herói.
– Ele provavelmente está convencido de que é hora de sair do isolamento e deixar sua marca derrotando a Meituan – disse Chen Weixing, fundador do app de transporte Kuaidi Dache. – Ele vive na ilusão de sua própria saga de artes marciais.
É improvável que Ma retorne ao Alibaba em algum cargo oficial. Mas hoje, ele usa um crachá da empresa em qualquer lugar do campus – um gesto que os funcionários interpretam como sinal de que está de volta à ativa.
Quando passou o comando a Zhang, Ma disse à mídia estatal chinesa: – A aposentadoria não significa que deixei a Alibaba. Se a Alibaba me chamar, estarei sempre lá.