No último sábado, cinco caças F-35 da Força Aérea americana pousaram na antiga base de Roosevelt Roads, em Ceiba, Porto Rico, como parte da movimentação militar do governo de Donald Trump no Caribe, com o objetivo oficial de fortalecer as operações de combate ao narcotráfico — por trás, segundo analistas e fontes, está o desejo de provocar uma mudança de regime na Venezuela. A Casa Branca enviou a Porto Rico, que é território dos EUA e cujo governo apoia a operação militar de Trump na região, caças multifuncionais de quinta geração que têm, entre outras capacidades, interferir e neutralizar sistemas de comunicação, carregar mísseis com alcance de até 200km e bombas guiadas de alta precisão. O movimento dos EUA representa, na avaliação de especialistas ouvidos pelo GLOBO, uma escalada na estratégia de máxima pressão contra a Venezuela, algo inédito na região desde o fim da Segunda Guerra.
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Os F-35 reforçam o aparato militar americano no Caribe, que já conta com ao menos oito navios militares — incluindo contratorpedeiros, navios de transporte e assalto anfíbio e um submarino nuclear — aviões de vigilância, helicópteros e mísseis. O número de militares americanos na região é atualmente estimado em entre 7 mil e 8 mil, entre eles pelo menos 2.200 fuzileiros navais.
Anteontem, Trump confirmou, na rede social Truth Social, que forças americanas tinham atacado mais uma embarcação venezuelana sob acusação de narcotráfico, com morte de três pessoas. A ação dos militares americanos foi repudiada em Caracas, assim como o primeiro ataque, ocorrido em 2 de setembro, no qual morreram 11 pessoas. Ontem, o presidente dos EUA falou em um terceiro ataque, mas sem entrar em detalhes.
— A Venezuela está mais preparada para uma luta armada — declarou o ditador venezuelano, Nicolás Maduro, que, segundo fontes locais “está há semanas em pânico”.
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Ninguém sabe exatamente o que pretende Trump, mas está claro que a movimentação das Forças Armadas americanas busca intimidar a ditadura venezuelana, em meio a rumores de que o verdadeiro objetivo da Casa Branca — sobretudo do secretário de Estado, Marco Rubio — é forçar a saída do chavismo do poder.
Em sua recente visita a Porto Rico, onde movimentos como Mães contra a Guerra resistem ao aumento da presença militar americana na ilha, o secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, disse que o que está acontecendo na região “não é um treinamento”, mas, sim, uma operação real para proteger os interesses nacionais dos EUA, com o objetivo de combater a passagem de drogas no sul do Caribe. Na visita, da qual participou o general Dan Caine, chefe do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas dos EUA, o governo Trump recebeu total apoio da governadora de Porto Rico, Jenniffer González.
Até agora, os 15 países que formam o Caricom, a comunidade de países caribenhos, evitaram questionar os movimentos militares americanos e se limitaram a pedir “cautela”. Na base do medo, Trump está avançando sem grandes obstáculos.
— O que vemos no Caribe é uma exibição notável do poder bélico americano. Os EUA estão trazendo para a região a guerra global contra o terrorismo, usando o instrumento militar para combater o narcoterrorismo — explica o analista militar André Serbin Pont, presidente da Coordenadora de Pesquisas Econômicas e Sociais (Cries).
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Para ele, “também está claro que existe a possibilidade de um ataque a um alvo venezuelano”.
— Os americanos poderiam começar com instalações vitais para o narcotráfico e, se houver resposta venezuelana, o cenário é incerto — afirma o analista, baseado em Buenos Aires.
Em Caracas, Elias Ferrer, diretor da Orinoco Research, confirma que um dos cenários mais mencionados no país é “um eventual ataque a instalações na selva, talvez laboratórios de drogas, mas também poderia ser um alvo militar”.
— O movimento [militar] em Porto Rico teve impacto em redes como a X, mas não entre a população, que, em muitos casos, não tem acesso a essa rede, que foi proibida no país. O chavismo está usando esta situação para tentar conseguir coesão política e militar, lembrando que hoje a maioria dos presos políticos são militares — aponta Ferrer.
Nas análises que se fazem em Caracas é destacada a diferença de visões que existe dentro do governo Trump. Enquanto Rubio lidera a ala que quer forçar a saída do chavismo do poder apelando à força militar, outros setores, sobretudo dentro do Maga (sigla em inglês de “Faça a América Grande Novamente”, o slogan do movimento trumpista), priorizam questões como garantir as deportações de imigrantes ilegais e o combate às drogas. O fator comum entre ambos é a utilização das Forças Armadas.
— O cenário é confuso. Mas sabemos que algumas pessoas em Washington imaginam uma negociação para uma eleição antecipada, ou um acordo para que Maduro deixe o poder. Facções da oposição moderada buscam essa saída. María Corina Machado quer que tirem Maduro já — acrescenta o diretor da Orinoco Research, referindo-se à líder opositora venezuelana.
Em palavras de Lucas Rezende, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e especialista em temas de segurança e defesa, “Maduro é um caroço entalado na garanta de Trump desde o primeiro mandato”.
— Usar Porto Rico é algo esperado, porque os EUA precisam ter uma base militar próxima da Venezuela, mas a região deve estar em estado de alerta. Trump é imprevisível — aponta Rezende.
Na Venezuela, analistas como Phil Gunson, do Crisis Group, temem que um eventual ataque americano ao território venezuelano possa desencadear uma guerra de baixa intensidade, que, do lado do chavismo, poderia contar com a participação de grupos paramilitares e até da guerrilha colombiana do Exército de Liberação Nacional (ELN), que estaria presente no país.
— Estão dadas as condições para uma guerra de baixa intensidade bastante prolongada, existem muitos grupos armados que apoiam o chavismo, alguns deles chamados de coletivos, e vão resistir. Se aqui houver mudança de governo não negociada, o país ficará ingovernável — frisa Gunson.
Também gera preocupação na região, inclusive, segundo fontes, entre militares brasileiros, a crescente presença militar dos EUA na Guiana, país que mantém uma disputa com a Venezuela pela região do Essequibo. O presidente da Guiana, Irfan Ali, respaldou o movimento militar americano no Caribe, e o apoio dos EUA ao país é cada vez maior.
A mensagem de Trump a Maduro, em palavras de uma fonte venezuelana, é simples: “Você ainda tem tempo de sair pacificamente do poder”. A intimidação através da exibição militar e ataques a embarcações também buscaria, segundo as fontes consultadas, quebrar a coesão entre os chavistas e levar a um desgaste que termine numa rendição. Em Caracas, hoje essa possibilidade é considerada quase nula.