Nos anos 1960, o Rio perdeu o posto de capital da República para Brasília, provocando em parte da população um sentimento de orfandade, devido a expectativas de diminuição da sua importância com a mudança de status. Naquele momento, demonstrando mais uma vez sua relação de compromisso e afetividade com a cidade, O GLOBO lançou a campanha “O Rio será sempre o Rio”.
O que se pretendia era mostrar que o Rio seria sempre o Rio de Janeiro, com seus sambas, suas glórias e tradições. A ideia era levantar o astral da população celebrando a mudança em clima festivo e ao mesmo tempo num tom de esperança.
— O GLOBO acertou em cheio. O Rio vai ser sempre o Rio, ou seja, será sempre o Brasil — afirma Marly Silva da Motta, historiadora e pesquisadora da Fundação Getúlio Vargas (FGV), que defende o conceito de capitalidade, segundo o qual a formação da identidade nacional de um país passa necessariamente por sua capital.
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A autora de “Rio de Janeiro: de cidade-capital a Estado da Guanabara” vai além:
— O conceito de capital é fundamental na construção de estados nacionais modernos centralizados. Quando você olha para Paris, é como se estivesse vendo quais são os elementos fundamentais do que é ser francês. É como se a capital decretasse moda, gostos e padrões de comportamento. Nesse aspecto, a identidade do Brasil foi construída a partir do Rio— diz.
A campanha de elevação da autoestima do Rio começou a ser elaborada bem antes da transferência da capital. As ruas ganharam faixas com dizeres: “O GLOBO lembra aos cariocas: O Rio será sempre o Rio”. O jornalista Péricles de Barros, autor do slogan, contou em depoimento ao “Memória Globo” ter se inspirado numa crônica de Machado de Assis. A ideia era mostrar que a cidade tinha uma história gloriosa e que permaneceria a mesma, apesar das mudanças que estavam por vir.
À meia-noite do dia 20 de abril, véspera da mudança, numa promoção do jornal, os cariocas participaram de uma grande festa na Avenida Rio Branco, marcando a inauguração do Estado da Guanabara, com direito a badalar dos sinos das igrejas e dos apitos dos guardas noturnos, convocando a população para as ruas. Nos bairros, moradores eram acordados ao som de “Cidade Maravilhosa” executada por bandas militares.
Para completar, nada melhor do que reunir as escolas de samba para um grande carnaval fora de hora, em pleno mês de abril, num cortejo que percorreu a mesma Rio Branco, em direção à Cinelândia. Aos edifícios da cidade foi sugerido que permanecessem iluminados até a meia-noite de 21 de abril, ou até mais tarde.
O mesmo apelo foi feito às residências. O comércio também foi convidado a participar, conservando suas fachadas acesas e com decoração em suas vitrines que fizessem alusão ao novo estado. O que se pretendia com isso era inserir a população num salutar clima de comemoração, num momento que se abriam as cortinas de um novo horizonte na história do Rio.
Também partiu do jornal a sugestão para que a marcha “Cidade Maravilhosa”, composta por André Filho, virasse o hino oficial da cidade, o que só aconteceu de fato 40 anos depois, através da Lei 3.611 de 12 de agosto de 2003.