Berço da indústria do petróleo no Brasil, o Rio de Janeiro tem condições de também exercer um papel central na transição energética do país, no momento em que o mundo precisa reduzir as emissões de gases do efeito estufa.
Além do compromisso com o futuro, essa mudança abre oportunidades econômicas para um estado dependente da indústria de óleo e gás.
- Diálogos RJ: veja como foram outros debates da série
Para além das fontes renováveis de energia mais conhecidas, como o etanol, a eólica e a solar, há outros caminhos para atrair para o estado investimentos relacionados à transição energética. Entre eles estão a energia solar térmica, a geração eólica offshore (em alto-mar) e até a captura de dióxido de carbono (CO2) no litoral, sem falar no aumento da produção de biogás de resíduos e gás natural, combustível fóssil que gera menos emissões e é chave na transição.
Essas foram as conclusões de autoridades, especialistas e executivos ligados ao setor que participaram ontem do debate “Transição energética: como o Rio enfrenta o desafio de reduzir os combustíveis fósseis”, o terceiro promovido pelo GLOBO neste ano na série Diálogos RJ.
Quer ver como foi o evento? Assista aqui:
O secretário estadual de Energia e Economia do Mar, Cássio Coelho, afirmou que o Estado do Rio estuda ampliar incentivos às inovações energéticas que possam gerar mais investimentos e empregos.
Ainda que concorde com os outros participantes que o petróleo seguirá em uso no planeta por mais algumas décadas, Coelho afirmou que a própria criação de sua secretaria expressa o interesse do governo estadual de ir além.
— Hoje vejo o Rio avançando como a capital da diversidade energética — resumiu o secretário no debate, que foi mediado pela repórter especial do GLOBO Ana Lucia Azevedo.
Danielle Johann, diretora-executiva da Associação Brasileira de Energia Solar Térmica (Abrasol), chamou a atenção para a energia solar térmica. Apesar de os painéis fotovoltaicos, na chamada geração distribuída de eletricidade, já terem se popularizado entre unidades residenciais, comércios e indústrias, a energia solar para aquecimento ainda é quase inexplorada no Rio.
E o potencial é enorme: em todo o país, 7% do consumo de energia entre 17h e 20h servem para aquecer água em chuveiros elétricos, ela destacou. O aquecimento solar poderia substituir essa energia cara com custo bem menor. A tecnologia pode dar ao consumidor uma economia de 40% a 50% na conta de luz, de acordo com cálculos da Abrasol.
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A expansão da geração solar térmica, porém, depende de políticas públicas de estímulo, disse a executiva, para que coletores térmicos dividam espaço com os fotovoltaicos em projetos residenciais e também industriais. Ela citou incentivos já existentes em Minas Gerais e São Paulo, assim como no programa Minha Casa, Minha Vida, do governo federal. Há conversas com o governo do Rio, ela revelou:
— Na indústria, por exemplo, 80% do consumo de energia é para aquecimento. E, desse total, 35% é para alcançar até 100° C, o que a energia solar térmica pode entregar de forma mais eficiente. É fácil de instalar e com vida útil de mais de 30 anos. No Rio, temos uma insolação que é absolutamente das melhores do Brasil.
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No médio prazo, outra alternativa para o Rio é a geração eólica em alto-mar. Rafael Palhares Simoncelli, diretor de Desenvolvimento de Negócios Brasil e América do Sul na Ocean Winds — empresa dedicada à energia eólica offshore — destacou que a modalidade é uma das grandes “alavancas” da transição energética no mundo atualmente.
No entanto, ele admitiu que, diante do processo de regulamentação do setor ainda em curso no governo federal — passo seguinte à aprovação do marco legal no Congresso, no ano passado — e o enorme potencial que o Brasil ainda tem para os aerogeradores em terra, mais baratos, a viabilidade comercial da geração no mar só deve ser alcançada no início da próxima década.
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Enquanto isso, a companhia desenvolve projetos pilotos que somam 15 GW no Brasil, sendo 5 GW no Rio, em meio às iniciativas de outras empresas.
— O Rio tem alguns predicados: academia pujante, muitas empresas do setor e bons ventos, mas o principal é a infraestrutura de óleo e gás, que pode ser muito facilmente aproveitada por parques eólicos offshore — afirmou o executivo.
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Uma das empresas que também investe nessa área no Brasil é a petroleira norueguesa Equinor, que teve iniciativas de seu plano para alcançar a neutralidade de carbono até 2050 apresentadas no evento pelo seu diretor de Operações Compartilhadas, Paulo Van der Ven. A empresa adquiriu a Rio Energy em 2023 para se tornar sua plataforma de desenvolvimento de projetos renováveis no Brasil.
Pesquisador do Grupo de Estudos do Setor Elétrico (Gesel)/IE/UFRJ, Nivalde de Castro destacou que a capacidade instalada de energia elétrica no Brasil é de 200 mil MW, segundo dados da Empresa de Pesquisa Energética (EPE). O potencial ainda inexplorado com as fontes solar e eólica é estimado em nada menos que 1,3 milhão MW. Para o professor, este cenário dá ao Rio uma dupla chance: atrair e incentivar investimentos em geração e também em armazenamento de energia em baterias.
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— A oferta (de energia) cresce muito acima da demanda, precisamos de armazenamento. É preciso desenvolver uma cadeia produtiva para baterias. É importante aproveitar esta oportunidade, sair na frente, porque não é uma necessidade para amanhã, mas para hoje — disse, destacando o hidrogênio como outra promessa.
Para se alcançar a meta de zerar emissões de carbono até 2050, assumida pelo Brasil no Acordo de Paris, é imprescindível que se invista também na captura de CO₂, apontou Maurício Tolmasquim, conselheiro da Eletrobras, ex-diretor da Petrobras e ex-presidente da EPE.
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Ele explicou que o Rio já tem experiência nisso no processo de extração de petróleo pela Petrobras e reúne condições geográficas ideais para investir especificamente neste serviço no litoral.
Essa solução consiste, em linhas gerais, no sequestro do gás carbônico de fontes emissoras (como indústrias) para, depois, comprimi-lo e injetá-lo em rochas profundas.
Hoje a Petrobras extrai o CO₂ do petróleo e o reinsere nos poços. A nova fronteira seria adotar essa solução em outras formações geológicas, como os aquíferos salinos ao longo da costa, o que possibilitaria a captura de até 20 milhões de toneladas de CO₂ por ano, nas contas do especialista:
— Isso é muita coisa. A grande vantagem é capturar o CO₂ de atividades produtivas em terra, como as de refinarias e siderúrgicas, e injetá-lo nos aquíferos salinos na costa do Rio, evitando que o gás vá para a atmosfera. É um ativo que o país tem que deve ser explorado, e o Rio tem um potencial muito grande.
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Essa não é só uma solução ambiental, mas também um negócio já em prática na Europa, contou Van der Ven:
— Capturamos o CO₂ de indústrias da Europa continental e da Inglaterra e levamos para o Mar do Norte, somente para fazer o descarte desse CO₂ em aquíferos salinos, que são licenciados para esta finalidade pelo governo da Noruega. Estamos prontos para trazer a nossa expertise internacional (para o Brasil).
Tolmasquim lembrou que, hoje, 75% das emissões de gases do efeito estufa no mundo vêm do setor de energia. No Brasil, no entanto, essa proporção é de apenas 18%, enquanto 24% vêm da agropecuária e 50%, do desmatamento, completou Luciana Costa, diretora de Infraestrutura, Transição Energética e Mudança Climática do BNDES.
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— A tecnologia mais barata para capturar carbono é a árvore. O Brasil tem 100 milhões de hectares de terra degradadas. Para o país ser neutro em carbono e cumprir o Acordo de Paris, precisamos zerar o desmatamento ilegal e avançar em restauração. Sem isso, podemos fazer o que quisermos no setor energético, na indústria, no transporte, e não bastará.
A executiva defendeu que, para isso, são necessários investimentos públicos e privados focados em soluções baseadas na natureza. Como gestor do Fundo Clima, o banco estatal tem aumentado os recursos para financiar projetos nesse sentido.
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— Recebemos, no ano passado, R$ 10 bilhões, e e esse ano já temos mais R$ 10 bilhões. Só que recursos públicos não são suficientes para o volume de investimentos que o país precisa. Temos usado o nosso DNA de fomento e trabalhado muito em conjunto com o mercado de capitais e com bancos privados para isso. Quando a gente ancora uma operação, o BNDES dá um selo de qualidade. É o nosso papel catalítico.
Para Nivalde de Castro, o BNDES, como principal financiador dos investimentos em energia no Brasil e no mundo, completa o arco de recursos que o Rio tem para liderar o avanço da transição energética no país.