Na altura das copas, onde a cidade não chega, os macacos encontraram um caminho para continuar atravessando a mata. Em Alta Floresta, na Amazônia mato-grossense, sete pontes suspensas entre árvores já registraram cerca de 15 mil travessias de animais e, desde que foram instaladas, em outubro de 2024, o número de primatas atropelados nos trechos zerou — antes, a média do município era de um atropelamento por dia. Agora, outras oito estruturas serão construídas para ampliar a rota segura de espécies ameaçadas, como o zogue-zogue-de-Alta-Floresta, descrito pela ciência há apenas sete anos e hoje classificado como “criticamente em perigo”.
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As pontes de dossel fazem parte do programa Alta Floresta Não Atropela, do Projeto Reconecta, iniciativa coordenada por Fernanda Abra, pesquisadora do Instituto de Pesquisas Ecológicas (Ipê).
Macaco-aranha atravessando a ponte
Fotos de Divulgação/Projeto Reconecta
A cidade abriga seis tipos de primatas, quatro deles ameaçados de extinção. Também vivem na região o macaco-aranha-de-cara-preta, o sauim-de-Schneider e o bugio-ruivo-do-rio-Purus, todos em risco global, além do macaco-prego e do macaco-da-noite.
Rotas interrompidas
A expansão urbana fragmentou as florestas e interrompeu rotas naturais de deslocamento, aumentando os riscos de atropelamento e eletrocussão. Segundo a Secretaria municipal de Meio Ambiente, porém, nos últimos seis meses ainda foram registrados atropelamentos de macacos-aranha, sauins-de-Schneider, macacos-prego e zogue-zogues em outros pontos da cidade sem as estruturas.
Mico-de-schneider atravessando a ponte
Fotos de Divulgação/Projeto Reconecta
— Os resultados mostram que as pontes são utilizadas diariamente pelos animais e oferecem uma alternativa segura para o deslocamento — afirma Fernanda Abra.
O modelo de ponte de dossel adotado em Alta Floresta passou a integrar as orientações técnicas nacionais para reduzir os impactos das rodovias sobre a fauna. Em abril de 2026, o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) publicou um manual com diretrizes e projetos de mitigação, incluindo esse tipo de estrutura.
— Ver o zogue-zogue-de-Alta-Floresta, uma espécie que existe apenas na nossa região e que se tornou um símbolo da cidade, utilizando as pontes de dossel é emocionante — diz Vitória Da Riva, da Fundação Ecológica Cristalino, parceira do projeto.
Bugios fazendo a travessia
Fotos de Divulgação/Projeto Reconecta
Além das estruturas de Alta Floresta, o Projeto Reconecta participa da manutenção e do monitoramento de 32 pontes de dossel distribuídas por 125 quilômetros da BR-174, na Terra Indígena Waimiri Atroari, entre Amazonas e Roraima.
— O Reconecta e o Programa Alta Floresta Não Atropela transformaram Alta Floresta em uma referência para a conservação da fauna em áreas urbanas da Amazônia — afirma Gercilene Meira Leite, secretária municipal de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável.
Macacos zogue-zogue na travessia
Fotos de Divulgação/Projeto Reconecta
A segunda etapa é realizada pela prefeitura, por meio da Secretaria de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável e do Conselho Municipal de Segurança Pública, em parceria com o Projeto Reconecta/Ipê, Energisa, Fazenda Anacã e Fundação Ecológica Cristalino, com apoio de organizações nacionais e internacionais.

