Instigados por uma dica do setor de inteligência, agentes da Polícia Federal (PF) passaram a fazer campana na frente de um imóvel no bairro São Rafael, na Zona Leste de São Paulo, um suposto laboratório de refino de cocaína. O vaivém de carros durante aquela madrugada de junho de 2008 chamou atenção, e a placa de um deles levou ao primeiro suspeito, Emílio Carlos Gongorra Castilho, que já havia sido condenado por tráfico três anos antes. Diante do alerta de uma possível fuga, os policiais subiram no muro da casa e deram de cara com Castilho, que tentou correr. Já rendido, ele perguntou quem era o chefe da equipe e fez a oferta clássica do bandido pego em flagrante: “Pô, vamos conversar. Será que não tem como a gente resolver isso de uma forma melhor, aqui entre nós?”. Em seguida, prometeu facilitar a entrada dos investigadores em um segundo endereço com a condição de que sua foto não saísse nos jornais. Acabou preso.
Foi a única vez em décadas na criminalidade que Castilho caiu na mão da polícia. Durante sua trajetória, o traficante de 44 anos usou artimanhas variadas para tentar ser o que boa parte dos criminosos almeja, mas poucos conseguem: uma espécie de fantasma do crime, para passar despercebido pelas forças de segurança. Investiu na corrupção de agentes, adotou pelo menos dois novos nomes, usou documentos falsos e foi capaz até de alterar a identidade do filho mais novo, na época com 11 anos. Usava um celular com número internacional, para dificultar o rastreio, e mesmo assim nunca conversava por telefone, tinha sempre alguém para falar por ele. Não possuía nenhum bem ou conta em seu nome e só encontrava familiares em locais distantes de onde moram.
Até o ano passado, pouco se sabia a respeito de Castilho. Ele não estava no radar nem sequer dos investigadores com décadas de bagagem no combate ao crime organizado. Seu nome veio à tona durante a investigação do assassinato do corretor de imóveis Antônio Vinícius Gritzbach, delator do Primeiro Comando da Capital (PCC) e de policiais civis, morto em uma ação espetaculosa no Aeroporto Internacional de São Paulo em novembro. Conhecido pelos apelidos Bill e Cigarreira, esse segundo pelo passado de contrabandista de cigarros do Paraguai, Castilho é acusado de ser o mandante do crime.
— Acabei conhecendo o Cigarreira através do Antônio Vinícius, quando ele começou a conversar conosco (durante as tratativas da delação). O que posso dizer é: ele nunca teve nenhuma função como liderança dentro do PCC. Depois, falando com informantes, com policiais, soube que era um cara importante no tráfico — afirma o promotor de Justiça Lincoln Gakiya, do Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público de São Paulo, que trabalha na linha de frente de atuação contra o PCC há 20 anos.
A trajetória de Cigarreira inaugura a série especial de reportagens “A cara do crime”, que contará, periodicamente, a história de bandidos de vulto no cenário nacional. No último mês, o GLOBO analisou cerca de 4 mil páginas de processos nos quais Castilho é réu e acionou mais de 30 autoridades de São Paulo e do Rio de Janeiro para tentar traçar o percurso dele na ilegalidade. Apenas duas fontes aceitaram falar publicamente. Muitas, é verdade, não o conhecem o suficiente para acrescentar na sua história. Outras declinaram porque a resolução do caso Gritzbach se tornou um ponto de atrito entre as forças de segurança paulistas — ainda existem dúvidas se Cigarreira é a ponta final da execução do delator.
Em março, a Polícia Civil de São Paulo considerou o caso “rachado”, ou encerrado, no jargão policial, e apontou Cigarreira e seu amigo Diego dos Santos Amaral, o Didi, como mandantes do crime. O Ministério Público denunciou ambos pela ordem, mas pediu uma complementação da investigação. Assim como a Polícia Militar, a Promotoria não acredita que Cigarreira tenha determinado a execução sozinho e avalia que alguém acima, ou ao menos na mesma posição na hierarquia do grupo, tenha participado da decisão.
Cigarreira é descrito por investigadores e advogados como um criminoso meticuloso, frio, extremamente hábil e diplomático, capaz de se relacionar tanto com o PCC, de quem é aliado, mas não batizado, quanto com o Comando Vermelho (CV), a despeito de as facções serem inimigas. Apreensões recentes feitas em seus endereços mostram o apreço pelo luxo e o gosto por armas de grosso calibre — a polícia encontrou caixas e caixas de Royal Salute 21 anos, whisky criado em homenagem à coroação da Rainha Elizabeth II e cuja única garrafa pode custar mais de R$ 1 mil, além de uma réplica de fuzil dourado emoldurado num quadro.
Embora audacioso, Cigarreira nunca age por impulso e tem bastante inteligência emocional, avaliam policiais. Bem informado, é capaz de discorrer sobre conflitos internacionais e política brasileira. É, nas palavras de um interlocutor, “um cara que, numa reunião de negócios, passaria facilmente por um empresário”.
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De certa forma, não deixa de ser. Cigarreira liderou um estruturado esquema de tráfico de drogas com clientes em São Paulo, Rio de Janeiro e, mais tarde, na Bahia, segundo documentos. Percorrendo um caminho conhecido de outros traficantes, começou sua vida no crime levando cigarro do Paraguai para os grandes centros. O contrabando de cigarro é um negócio milionário, lucrativo e intimamente ligado ao narcotráfico. Num acordo com contrabandistas, os traficantes infiltram toneladas de drogas nas carretas que transportam o cigarro. Muitos policiais recusam suborno para liberar drogas, mas aceitam para afrouxar o cerco ao contrabando, delito tido como menos grave. A prática, assim, “limpa” as estradas para outros crimes. Daí até Cigarreira perceber que era possível transportar mercadorias bem mais lucrativas, como armas e drogas, pela mesma rota e corrompendo as mesmas autoridades, foi um pulo.
Ele montou uma espécie de “empresa familiar” do crime e “empregou” o irmão, a mulher e até a amante — uma advogada que também defendia Márcio dos Santos Nepomuceno, o Marcinho VP, homem forte do CV. Enquanto a mulher era responsável por manter operantes os celulares que ele usava na cadeia, a defensora atualizava Marcinho VP sobre a situação dele na prisão. Cigarreira comprava armas e cocaína vindas dos países andinos. A droga entrava no Brasil em veículos de fundo falso por Ponta Porã, cidade sul-mato-grossense vizinha de Pedro Juan Caballero, no Paraguai. Em seguida, era escoada pela chamada Rota Caipira e levada até os consumidores de outros estados. Cigarreira era um “matuto” — na linguagem policial, o fornecedor de drogas e armas.
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Sua relação com o tráfico fluminense se estreitou por volta de 2007. Naquele ano, Cigarreira assumiu o posto de Alan Hilário Lopes, o Rala, um conhecido traficante no Rio de Janeiro, responsável pelo abastecimento da Vila Cruzeiro, no Complexo da Penha. Rala foi baleado em uma troca de tiros com o Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope), que deixou um PM morto. Ficou cadeirante, e Cigarreira passou a comandar o tráfico de drogas em seu lugar.
Na única vez em que foi preso, em 2008, Cigarreira declarou à polícia que tinha o primeiro grau incompleto e havia recém se tornado sócio de uma oficina de funilaria, com salário mensal de aproximadamente R$ 1.800. Comprava e vendia carros, atividade que lhe rendia R$ 10 mil, segundo ele. Morava com a mulher e dois filhos em uma casa própria que adquiriu um ano antes por R$ 70 mil e tinha um Fiesta Sedan financiado.
Suas testemunhas de defesa contaram que ele tinha 12 anos quando se envolveu com drogas. A mãe decidiu interná-lo, e ele ficou na clínica por nove meses. Na época, seus familiares foram criticados pela medida considerada “radical”. Cigarreira se tornou pai muito jovem, aos 17 anos. Antes de empreender no crime, foi office boy em um escritório de advocacia, auxiliar administrativo em uma loja de calçados, agenciou shows de palhaços em escolas e trabalhou como porteiro no bairro paulistano da Vila Formosa.
Mesmo depois de preso, continuou comandando o esquema de envio de drogas de dentro do presídio, por telefone. Para dar um aspecto legal ao lucro com o crime, investia em diversas manobras de lavagem de dinheiro com uso de contas de terceiros e empresas de fachada. Montou uma rádio com essa finalidade na Avenida Paulista, a Rádio Street FM, e até uma produtora, a K2 Publicidade e Marketing, que financiou o documentário “O grito”, da Netflix, contra os abusos do sistema prisional. Para além de ocultar a origem dos recursos ilícitos, segundo as investigações, essas empresas ajudavam a construir uma “narrativa midiática para promover a vitimização de criminosos condenados”, como Marcinho VP e Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, líder do PCC.
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Cigarreira ficou preso por menos de dois anos. Saiu em 2010 depois que a Justiça Federal concedeu um habeas corpus apresentado pela sua defesa. Em uma das artimanhas para “quebrar a cadeia”, ou conseguir a liberdade usando de manobras jurídicas, entrou com um processo alegando insanidade mental por abuso de entorpecentes. Não colou. No mesmo ano, foi condenado em uma das ações penais por tráfico de drogas e associação, além de porte ilegal de armas, a 16 anos de reclusão.
O processo, porém, acabou extinto em 2023, diante de um pedido da defesa alegando inércia na tramitação. Sem retornar à cadeia por um dia sequer, Castilho deixou de ser considerado foragido — condição à qual só retornaria após a morte de Gritzbach.
Depois de progredir na criminalidade, com uma vida já bem diferente da do office boy da juventude, Cigarreira foi apresentado ao corretor Antônio Vinícius Gritzbach em fevereiro de 2019. Na ocasião, disse se chamar João Fallopa, nome adotado em seus documentos falsos, um fazendeiro e “cigarreiro” interessado em comprar um apartamento de alto padrão para a família na região do Tatuapé. Sinônimo de ascensão social, o bairro na Zona Leste da capital paulista se tornou algo mais nos últimos anos: um reduto de integrantes do PCC. Ali se fez, entre outras, a figura de Gritzbach, que por mais de dez anos atuou no mercado de imóveis de luxo, até se tornar uma peça importante na máquina de lavar dinheiro do crime organizado.
Gritzbach era sócio de um operador de criptomoedas e convenceu a bandidagem a investir os lucros do narcotráfico nesse mercado, uma forma de despistar as autoridades. Um de seus clientes era Anselmo Becheli Santa Fausta, o Cara Preta, homem forte do PCC e amigo íntimo de Cigarreira. Segundo a polícia, Cara Preta foi responsável por parte do sucesso dele e de outros traficantes que considerava próximos. Era quem tinha o contato dos fornecedores de cocaína nos países produtores. Comprava barato e repassava a mercadoria a preço de custo para os parceiros já no Brasil. Cigarreira e os outros escolhidos lucravam com a revenda, e foram enriquecendo.
Durante a pandemia da Covid-19, seguindo as principais bolsas do mundo, o mercado cripto desabou, e Gritzbach perdeu os investimentos de alguns criminosos. Cobrado por Cara Preta, Gritzbach teria contratado um homem para executá-lo, segundo investigações. Cara Preta foi morto junto com seu motorista, Antônio Corona Neto, o Sem Sangue, em dezembro de 2021. A conta das execuções caiu sobre Gritzbach, denunciado pelo duplo homicídio.
O corretor de imóveis foi cobrado não apenas pela Justiça. Um mês depois das mortes, Cigarreira mandou uma mensagem para Gritzbach pedindo que fosse a um endereço para conversar sobre uma suposta obra. Aos poucos, foram chegando outros integrantes do PCC, alguns armados. Queriam esclarecer a morte de Cara Preta e Sem Sangue, além de ter notícias dos investimentos feitos em criptomoedas. Gritzbach conseguiu ser liberado, mas Cigarreira nunca se conformou.
Para vingar a morte de Cara Preta, ele contratou policiais militares e mandou executar Gritzbach, segundo a Polícia Civil. O ex-corretor de imóveis foi morto com oito tiros de fuzil na tarde de 8 de novembro do ano passado, uma sexta-feira, no maior aeroporto da América Latina, por onde circulam, diariamente, uma média de 119 mil passageiros. O terminal fica em frente à base da Guarda Civil de Guarulhos.
— Da forma como foi feito (dentro do aeroporto, à luz do dia e com fuzis), o crime conversa com o perfil dele, com o fascínio por armamento, fascínio pelo poder. Não bastava executar. Ele queria demonstrar alguma coisa para muita gente. Essa é a mensagem que ficou — avalia a promotora de Justiça Vânia Caceres Stefanoni, do Júri de Guarulhos, que denunciou Cigarreira e outros cinco por envolvimento com a execução de Gritzbach.
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Um dia antes da execução, Cigarreira pegou um voo particular em um hangar em Jundiaí, no interior de São Paulo, com destino ao Rio de Janeiro. A polícia acredita que ele ficou escondido em uma casa na Penha, a mesma para onde fugiu o olheiro do crime. Uma imagem de drone feita pelos investigadores mostra a residência com piscina na laje e até o homem envolvido no assassinato. Uma operação para a captura, contudo, necessitaria de cerca de 700 policiais, algo inviável. Durante as buscas, cogitou-se que Cigarreira estaria com alguma doença grave, como câncer. Os agentes percorreram vários hospitais atrás dele, mas souberam mais tarde se tratar de uma pista falsa para confundir a investigação.
A polícia pediu a inclusão do nome de Castilho na difusão vermelha da Interpol, sem sucesso. Entre os investigadores, circula uma informação não confirmada de que ele fugiu de avião para o Paraguai e, de lá, para o Suriname. Cigarreira segue agindo nas sombras. Procurada, sua defesa não foi encontrada.
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A SÉRIE ‘A CARA DO CRIME’ VAI DESVELAR, PERIODICAMENTE, A TRAJETÓRIA DE BANDIDOS DE VULTO NO CENÁRIO NACIONAL
