Aos 38 anos, a médica Etienne de Souza está no seleto grupo dos 10% de brasileiros com maior renda. Sanderson da Silva Júnior, de 32 anos, coordenador operacional dos Correios, também está na parte de cima da pirâmide social do país, entre os 20% mais ricos. Mas ele não nasceu nesse estrato. É um feito para poucos. Só 14% dos homens brancos que nascem entre as famílias mais pobres conseguem a ascensão obtida por Sanderson. No caso de Etienne, uma mulher negra, a chance de alguém nas mesmas condições de nascimento alcançar o topo é de 4,5%, ou menos de cinco brasileiros em cada cem. No Brasil, a ascensão social não é para todos.
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Menos da metade (49%) das crianças nascidas entre 1983 e 1990 estão em situação financeira melhor que a do seus pais na vida adulta. Com o nascimento marcando fortemente o futuro na pirâmide de renda, quem nasceu entre os 50% mais pobres dificilmente vai alcançar patamar de renda que os inclua entre os 25% mais ricos. Só 10,8% dos adultos que têm entre 35 e 42 anos conseguiram este grau de ascensão, mostra o Atlas de Mobilidade Social, que o Instituto de Mobilidade e Desenvolvimento Social (IMDS) lança hoje e ao qual O GLOBO teve acesso exclusivo.
É uma geração frustrada em suas aspirações sociais. Ainda que quase metade esteja em situação melhor que a de seus pais, não conseguiu deixar a metade mais pobre do país. A situação é pior quando se considera quem nasceu nas famílias mais vulneráveis e se compara com outros países. O estudo “Mobilidade intergeracional na terra da desigualdade”, dos pesquisadores Diogo Brito, Alexandre Fonseca, Paolo Pinotti e Breno Sampaio, que serviu de base para o atlas do IMDS, mostra que só 2,5% dos adultos brasileiros de famílias que estão entre os 25% mais pobres conseguem subir ao grupo dos 25% mais ricos.
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Nos Estados Unidos, o mais desigual dos países desenvolvidos, essa “taxa de sucesso” é o triplo: 7,5%. Na Suécia que apresenta melhores indicadores sociais, a parcela sobe para 15,7%.
— Nos Estados Unidos, três vezes mais crianças chegam ao topo. Há uma expressão para as consequências dessa falta de mobilidade: “lost Einsteins”. Quantos Einsteins estamos perdendo? Os talentos nascem em todo o lugar — afirma Brito.
Para Etienne pegar o diploma, ela e sua mãe, Michele de Souza, tiveram de vencer um sem número de obstáculos. Segundo Brito, menos de 1% consegue ser médico nascendo entre os 50% mais pobres, como foi o caso da médica.
— Minha mãe, quando ainda não tinha estudo, queria que eu fosse caixa de supermercado, era o máximo que poderia subir. Morei numa casa que não tinha luz nem água e tinha um único cômodo — lembra Etienne.
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Michele, hoje dona de um salão de cabeleireiro no Centro do Rio e moradora de Copacabana, na Zona Sul, só entrou numa sala de aula aos 18 anos, quando se alfabetizou e concluiu o ensino médio no Ensino de Jovens e Adultos (EJA), com a ajuda da filha. Durante boa parte da infância de Etienne, a mãe foi empregada doméstica. Michele começou a trabalhar aos 9 anos, hoje está com 59 anos:
—Minhas patroas falavam: ‘a única coisa que ninguém vai tirar da sua família é o estudo’. Consegui matricular Etienne numa escola militar na Urca. E depois, quando ela disse que queria ser médica, consegui pôr em escola particular — conta Michele.
Além da dificuldade de acompanhar os colegas numa escola mais exigente, Etienne era a única negra na sala:
— Havia professores que me olhavam diferente. Quando reprovei para Medicina, comecei a pensar que era incapaz, que não conseguiria mesmo e que aquele não era o meu lugar.
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Etienne fez faculdade de Medicina na Bolívia onde, segundo ela, era possível pagar em um ano o mesmo que gastaria em um mês para fazer o curso numa universidade particular brasileira. Depois, levou mais três anos para validar seu diploma no Brasil. Hoje, trabalha numa clínica da família na comunidade da Rocinha, na Zona Sul do Rio, onde é a única médica negra:
—Todos os dias sofro racismo. Paciente entrando e não me reconhecendo como médica, técnica de enfermagem interferindo na minha conduta. São agressões diárias que vão reforçando o não pertencimento.
O atlas mostra que, mesmo quando estão melhores que os pais, a maior parte dessa geração não consegue sair do grupo dos 50% mais pobres. Ficando, na média, entre os 30% e os 40% com menor renda.
Carlos Ribeiro, professor de Sociologia do Iesp/Uerj, estudioso de mobilidade social, diz que, no Brasil, a ascensão é de curta distância, não há saltos. Apesar do crescimento econômico baixo dos anos 1980, houve uma entrada maciça da mulher no mercado de trabalho nas últimas décadas, além de ganhos no acesso à educação que reduziram a desigualdade.
— Entre 1973 e 2014, a mobilidade ocupacional aumenta, mas na base, entre os mais pobres. Há muita mobilidade na parte debaixo da pirâmide, mas é difícil chegar aos 10% mais ricos.
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Sanderson da Silva Júnior conseguiu ultrapassar a barreira dos 50% mais pobres. A mãe, Rosalva da Silva, se separou quando ele tinha 3 anos e voltou a morar com os pais na Vila Aliança, na Zona Norte do Rio. Com o salário de auxiliar de serviços gerais e a ajuda dos pais, pagou uma escola particular para o filho e vários cursos. Aos 19 anos, Sanderson passou em um concurso para os Correios.
— Minha mãe conseguiu me dar um ótimo estudo. E hoje tenho renda próxima de R$ 8 mil juntamente com a minha esposa. Tenho casa, meu carro, minha moto e em setembro nasce meu filho, Cauã — orgulha-se Sanderson, que se formou em Educação Física. Sua mãe tem ensino médio.
André Salata, que coordena o laboratório Data Social da PUC-RS, alerta para um fenômeno também preocupante. Tem subido a mobilidade descendente: quem está na parte de cima da pirâmide começa a descer alguns degraus:
— A juventude que nasce na classe média tem probabilidade maior que a geração dos pais de recuar de classe social. E está mais difícil subir, numa estrutura social estável. Conseguir chegar à universidade hoje não será suficiente para ter mobilidade ascendente.
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Segundo o sociólogo, o Brasil está começando a passar por um movimento que já está em curso em países desenvolvidos como França, Inglaterra, Estados Unidos e Alemanha:
— Passamos por um boom de mobilidade nos anos 1950, 1960, 1970, com a urbanização e a industrialização, que puxaram as pessoas para cima. Agora, estamos entrando numa fase mais estável, e a chance de cair de classe passa a ser maior.

