Apesar da retirada das forças do governo por pressão de Israel, os confrontos continuam em Sweida, no sul da Síria, onde grupos armados sunitas chegaram de várias partes do país nesta sexta-feira para lutar, ao lado de tribos beduínas, contra milícias drusas. Segundo a agência France-Presse, cerca de 200 combatentes sunitas foram vistos trocando tiros com drusos na entrada oeste da cidade. Dados do Observatório Sírio de Direitos Humanos (OSDH) apontam para mais de 600 mortes desde domingo, quando os combates tiveram início. De acordo com a Organização Internacional para as Migrações (OIM) da ONU, a escalada da violência já forçou o deslocamento de 80 mil pessoas.
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Na terça-feira, o Exército israelense pegou o mundo de surpresa ao lançar ataques contra o território sírio, atingindo inclusive um complexo que abriga o Ministério da Defesa e uma área perto do palácio presidencial. Israel alegou agir em defesa dos drusos, cuja população é majoritária em Sweida e nas Colinas de Golã, região ocupada por Israel desde 1967 mas reconhecida internacionalmente como parte da Síria.
Pressionado, o presidente sírio, Ahmed al-Sharaa, firmou um cessar-fogo e retirou suas tropas de Sweida, afirmando que o país estava diante de duas opções: uma “guerra aberta” com Israel, ao “custo dos cidadãos drusos”, ou permitir que os líderes religiosos “retornem à razão e priorizem o interesse nacional”.
O recuo, porém, não foi suficiente para parar as hostilidades. Combatentes de tribos árabes sunitas, que chegaram de várias regiões da Síria para apoiar os beduínos, se concentraram nesta sexta-feira em várias aldeias nos arredores de Sweida, segundo relatores de três correspondentes da AFP presentes no local. Os repórteres ouviram tiros e explosões intermitentes na entrada da cidade, enquanto combatentes drusos disseram à agência de notícias que estão respondendo ao fogo vindo a oeste de Sweida.
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Um chefe tribal, Anas al-Enad, disse à AFP perto da cidade de Walgha que veio com seus homens da região central de Hama “para responder aos pedidos de ajuda dos beduínos”. Um correspondente da AFP relatou ter visto casas, lojas e carros queimados na cidade drusa de Walgha, agora sob o controle de forças tribais e beduínas.
O OSDH, dotado de uma ampla rede de informantes, relatou “confrontos a oeste de Sweida entre combatentes tribais e beduínos, por um lado, apoiados pelas autoridades, e combatentes drusos, por outro”.
Os choques em Sweida começaram no domingo entre combatentes drusos e tribos beduínas sunitas, após o sequestro de um comerciante de verduras druso, o que desencadeou uma série de sequestros em represália, segundo OSDH.
Na segunda-feira, as forças do governo sírio enviaram militares à região para tentar conter a violência. Mas, devido à profunda desconfiança no novo governo, alguns membros das milícias drusas em Sweida pensaram que as forças do governo foram ao local para ajudar os beduínos e atacar os drusos, de acordo com os líderes locais. Grupos drusos acusaram as forças governamentais de promoverem inúmeros abusos, como execuções sumárias de civis e saques.
Sem água e eletricidade e com os meios de comunicações estão cortadas, o editor-chefe do portal de notícias Suwayda 24, Rayan Maaruf, classificou a situação em Sweida como “catastrófica”:
— Não há mais leite em pó para bebês — disse à AFP
O Alto Comissário da ONU para os Direitos Humanos, Volker Türk, pediu nesta sexta-feira uma investigação rápida sobre a violência.
— Este derramamento de sangue e esta violência devem cessar, e a proteção de todas as pessoas deve ser a prioridade absoluta. Devem ser realizadas investigações independentes, rápidas e transparentes sobre todas as violações, e os responsáveis devem prestar contas — declarou Türk.
Omar Obeid, médico em um centro de saúde da região que continua operando em meio ao conflito, disse que o local recebeu “mais de 400 corpos desde a manhã de segunda-feira”, entre eles “mulheres, crianças e idosos”.
— Não temos água, nem eletricidade, estamos começando a ficar sem medicamentos — declarou à AFP Rouba, uma funcionária do hospital governamental da cidade.
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Segundo a OIM, cerca de 80 mil pessoas foram forçadas a se deslocar em razão da violência. Por sua vez, o Ministério das Relações Exteriores de Israel anunciou o envio de ajuda humanitária para os drusos da Síria.
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Com religião derivada do islamismo xiita, os drusos estão presentes no Líbano, no sul da Síria e nas Colinas do Golã, território sírio ocupado por Israel desde 1967. Antes do início da guerra civil em 2011, a comunidade drusa na Síria contava com cerca de 700 mil pessoas. Israel, que tem sua própria população drusa, tem procurado se apresentar como defensor do grupo minoritário desde a queda do governo de Bashar al-Assad, em dezembro, após 14 anos de guerra civil.
A ascensão do Hayat Tahrir al-Sham (HTS), grupo rebelde que tomou o poder de Assad, acendeu o alerta de minorias religiosas no país devido às suas ligações históricas com o extremismo jihadista. De orientação sunita, o grupo serviu no passado como um braço da al-Qaeda na Síria.
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Um dos maiores desafios para o novo governo sírio tem sido controlar ondas de violência sectária que podem facilmente se transformar em um conflito civil mais amplo. Os confrontos em Sweida são a terceira grande onda de violência envolvendo minorias sírias desde a queda do regime de Assad.
Em março, grupos armados que serviam nas forças de segurança de Assad emboscaram as forças do novo governo na costa síria, dando início a dias de violência sectária que mataram mais de 1.600 pessoas, a maioria da minoria alauíta, segundo o OSDH. Em maio, mais de 39 pessoas, a maioria da minoria drusa, foram mortas em dois dias em uma onda de violência perto de Damasco.
O presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, afirmou em uma conversa por telefone com seu homólogo russo, Vladimir Putin, que os confrontos criam “uma ameaça para toda a região”, acrescentando que Israel não deve violar a soberania síria, segundo seu Gabinete.
A escalada de tensões entre Israel, ao lado dos drusos, e o governo sírio, supostamente ligado aos beduínos, ameaça prejudicar uma tentativa recente dos dois países de melhorar sua relação bilateral depois de décadas de hostilidades. O presidente al-Shara tenta estabilizar o país desde a queda do ditador Bashar al-Assad, forjando laços mais próximos com os EUA. Assad era um aliado próximo do Irã e um inimigo jurado de Israel. Mas os rebeldes sunitas que o depuseram abriram contato com Israel, com mediação dos EUA, para tentar diminuir as tensões na fronteira.
A crescente violência no sul da Síria também provocou caos perto da fronteira que separa o país do território controlado por Israel, já que dezenas de cidadãos drusos de Israel cruzaram a fronteira em uma tentativa de mostrar solidariedade aos drusos sírios. Em um comunicado televisionado, Benjamin Netanyahu, o primeiro-ministro israelense, alertou aqueles que cruzaram a fronteira que poderiam ser mortos ou sequestrados na Síria, incentivando-os a retornar ao território israelense.