Um terreno na área do Bairro Peixoto, em Copacabana, desocupado desde 1989, quando a prefeitura embargou uma obra que vinha sendo realizada no local, por risco aos prédios vizinhos, começou a ter vegetação suprimida nesta sexta-feira (18). A ocupação no número 285 da Rua Santa Clara, acompanhada com preocupação por moradores há três meses, avança sem que os responsáveis apresentem autorização oficial, dizem eles, que temem que a obra ameace tanto a estrutura de prédios ao redor quanto a vegetação nativa da região.
Segundo os vizinhos, o espaço, que estava vazio há três décadas, foi invadido numa manhã por homens que arrombaram o cadeado do portão, instalaram uma cabine de segurança com um estranho adesivo da Lei Seca e passaram a ocupar o local sem apresentar qualquer documentação à Associação dos Moradores e Amigos do Bairro Peixoto, a Oásis.
— Aparentemente, o terreno pertence à empresa Chronos Administradora LTDA, cujos antecedentes não conseguimos localizar. Eles demoraram dois meses para responder a um pedido da associação de moradores e, só quando foram notificados pelo Ministério Público responderam, mas sem apresentar qualquer documento oficial de propriedade ou licenciamento ambiental — diz Rodrigo Pinto, morador do prédio 281.
Depois de meses de ocupação, a associação de moradores conseguiu notificar a empresa por meio do Ministério Público. Uma reunião foi marcada para a próxima semana, mas já nesta sexta-feira teve início do desmatamento do local.
— Agora mandaram um áudio dizendo que querem remarcar a reunião. É óbvio que estão tentando ganhar tempo para devastar o que conseguirem — lamenta Rodrigo.
O terreno está embargado desde 1989 pela Geo-Rio, após uma demolição provocar a expansão de uma rocha subterrânea que ameaçou a estrutura de dois prédios vizinhos — o número 281, de um lado, e o 287, do outro. Na época, uma reportagem do GLOBO noticiou que o prédio 281 foi interditado e as famílias tiveram que desocupar suas casas por quase uma semana.
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Para Licínio Rogério, diretor de meio ambiente da Oásis, a movimentação do terreno traz a possibilidade de nova interdição dos prédios e alarma os vizinhos.
— É um risco para os moradores. Se houver algum rachamento nos prédios, algum deslocamento… Em último caso, pode ser preciso interditar os dois, um de cada lado do terreno — diz Licínio.
O terreno supostamente invadido fica em uma zona sensível, sobreposta por três APAs: Morro dos Cabritos, Sacopã e Bairro Peixoto. Por isso, além do risco estrutural, há preocupação com a devastação ambiental. A área abriga espécies silvestres, como tucanos, cobras, saguis e uma diversidade de aves. Árvores frutíferas como mangueiras e jabuticabeiras, além de exemplares de grande porte estimados em até 30 metros de altura, começaram a ser derrubadas, dizem moradores da área, e parte da vegetação rasteira nativa da Mata Atlântica já foi removida.
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Licínio conta que as denúncias foram feitas à prefeitura, à Polícia Militar, ao Instituto Estadual do Ambiente (Inea) e ao Ministério Público (MP). Porém, nenhuma providência concreta foi tomada até o momento.
— O corte está avançando para além da linha dos prédios. Estão entrando numa área que é claramente protegida, com presença visível de fauna. E as autoridades seguem em silêncio — diz Rodrigo.
O GLOBO-Zona Sul entrou em contato com a Secretaria municipal do Meio Ambiente para saber se o trabalho no local está autorizado, mas não obteve resposta. Também tentou contato com a empresa Chronos, cujo nome aparece no uniforme dos homens que trabalham no local, e aguarda posicionamento. Nesta sexta-feira, estiveram no local Bruno Santos, gestor executivo local de Copacabana, e a Polícia Ambiental.