Chishuru significa “comer silenciosamente” ou resume “o silêncio que se instala na mesa quando a comida chega”, segundo o povo Hausa, grupo étnico do norte da Nigéria. A chef Adejoké Bakaré, nascida na região, escolheu esse nome para o seu restaurante, mas vem fazendo barulho: no final do ano passado, sagrou-se a primeira mulher preta a ganhar estrela Michelin em Londres, onde mora desde os 21 anos.
A sua trajetória começou na cozinha da avó paterna, onde aprendeu a fazer o “fish and chips” que vendia em um carrinho para bancar os estudos em Biociências em Katunda. Quando se mudou para Londres, passou a vender tortas e akará (bolinho de feijão frito) aos domingos em uma van. Sonhava em ter um restaurante, até que um anúncio no jornal chamou a atenção: uma competição culinária cujo prêmio era uma pop-up em Brixton Village. “Ganhei! E a pop-up recebeu uma crítica extraordinária de Jay Rainer, do The Observer, o que me levou a ser convidada para transformar o restaurante em permanente”, recorda-se. “Eu e meu sócio, Matt Paice, procuramos um espaço em Fitzrovia, pois no Brixton Village não tínhamos nem banheiros próprios”, lembra. Fomos rejeitados por muitos locadores, que, por preconceito, não queriam um restaurante de comida da África em seus imóveis. Foi duro ser rejeitada, mas lutamos e persistimos. Eu me recusei a desistir. Quero inspirar outras mulheres.”
Em 2023, Joké, enfim, conseguiu transferir o Chishuru para o Centro de Londres. E, um ano depois, veio a estrela. “Busco refletir minha herança ancestral iorubá e igbo, uma versão com apresentação londrina e técnicas profissionais.” O prato mais antigo do menu é o ekurut: bolo de sementes de melancia com pesto de sementes de abóbora.
Mês passado, a nigeriana esteve pelo primeira vez no Brasil, a convite de Helena Rizzo. “Admiro a trajetória da Joké como chef e referência feminina”, diz. “Compartilhamos ingredientes centrais no Brasil e na Nigéria, como feijão-fradinho, mandioca, banana-da-terra e amendoim”. A chef Carmem Virginia estava lá: “É muito interessante ver a conexão com as comidas conhecidas aqui como ‘de orixás’”. De volta para casa, Joké levou tucupi e cupuaçu na mala. “Voei 12 horas para provar a comida dos meus antepassados. Sabia que existiam similaridades, mas não imaginei que fossem tantas.”
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