Uma fábrica russa localizada na região do Tartaristão, a mais de mil quilômetros da fronteira com a Ucrânia, tem chamado atenção não apenas por ser considerada a maior do mundo na produção de drones de ataque, mas também por empregar adolescentes na montagem dos equipamentos. Operada na zona econômica especial de Ielabuga, a instalação tem como principal função abastecer o Exército russo com drones kamikazes Geran-2 — a versão local dos iranianos Shahed 136 — usados em ataques frequentes contra cidades ucranianas.
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Reportagens da agência Reuters e do jornal britânico The Telegraph revelaram detalhes inéditos da operação, com base em imagens divulgadas pelo canal Zvezda, vinculado ao Ministério da Defesa da Rússia. O documentário exibido recentemente mostra jovens — muitos com rostos borrados — trabalhando lado a lado com adultos em linhas de montagem.
Segundo a reportagem, os adolescentes, com cerca de 15 anos, são recrutados logo após completarem o nono ano escolar, ingressando em um colégio técnico mantido pela própria fábrica.
“Para onde quer que você olhe, há jovens trabalhando aqui”, diz a narração do vídeo enquanto a câmera percorre o amplo salão industrial, onde dezenas de adolescentes aparecem montando peças ou operando computadores.
De acordo com Timur Shagivaleyev, diretor-geral da fábrica, o plano inicial era fabricar “milhares de drones Geran-2”. Ele afirma, no entanto, que a produção atual é “nove vezes maior” do que o previsto, embora não tenha especificado o período de referência. Fontes ligadas ao Kremlin estimam que mais de 5 mil drones de longo alcance sejam produzidos mensalmente no local. Apenas no primeiro semestre de 2025, cerca de 18 mil unidades teriam sido fabricadas em Ielabuga.
Os Geran-2, pintados de preto fosco para favorecer ataques noturnos (com 3,5 metros de cumprimento e uma envergadura de 2,5 metros), têm alcance estimado de até 1.800 km, transportam uma ogiva de 50 kg e voam a até 300 km/h. Seu baixo custo — entre 26 mil e 37,2 mil libras (R$ 195,8 mil e R$ 280 mil), segundo especialistas — contrasta com o alto valor dos sistemas de defesa ocidentais usados pela Ucrânia, como o Patriot, que pode ultrapassar 4 milhões de libras (cerca de R$ 30 milhões) por míssil.
Para analistas europeus, a estratégia de Moscou é sobrecarregar as defesas aéreas ucranianas com ataques em massa e contínuos. No maior ataque já registrado, em 9 de julho, a Rússia teria lançado 741 drones e mísseis contra cidades ucranianas. Autoridades acreditam que o país pode estar se preparando para atingir a marca de 2 mil drones lançados por noite.
Apesar de o Kremlin insistir que seus alvos são “militares ou relacionados às forças armadas”, dados da ONU indicam que mais de 13 mil civis ucranianos já morreram desde o início da guerra. Os drones Geran-2 têm sido usados para atingir infraestrutura energética na Ucrânia, segundo reportagens, com o objetivo de enfraquecer a resistência do país.
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A fábrica de Ielabuga conta ainda com uma pista de testes própria e utiliza caminhonetes Dodge Ram 1500 — de fabricação americana — para lançar os drones, em possível violação de sanções internacionais. As imagens do canal Zvezda mostram os veículos carregando e disparando os equipamentos em campo aberto.
A tecnologia usada na produção dos drones pode ser transportada diretamente do Irã, via Mar Cáspio, já que o complexo está situado às margens do rio Kama, que deságua no Volga. Embora isolada geograficamente, a instalação já parace ter sido alvo de ataques ucranianos. Em junho, um incidente envolvendo destroços de um drone interceptado deixou um morto na região, segundo a imprensa russa.
Com uma trilha sonora animada, o documentário da Zvezda tenta reforçar o apoio popular à guerra, exaltando a capacidade industrial russa e a participação de jovens na “defesa do país”. Internamente, o governo de Vladimir Putin tem defendido que o modelo da fábrica de Ielabuga seja replicado em outras regiões da Rússia para reduzir a dependência de importações.