Aos 16 anos, quando ainda integrava as categorias de base do Châteauroux, na França, Yoane Wissa decidiu apresentar-se à seleção da República Democrática do Congo de uma maneira pouco convencional. Escreveu uma espécie de carta de apresentação e a enviou pelo Facebook à federação do país de sua família, na esperança de receber uma oportunidade. Treze anos depois, o atacante não apenas chegou à Copa do Mundo como se tornou o autor do primeiro gol da história congolesa na competição.
Wissa marcou o gol de empate da República Democrática do Congo contra Portugal, nesta quarta-feira, em Houston, pela primeira rodada do Grupo K. O feito encerrou uma espera que atravessou mais de meio século. Em sua única participação anterior, em 1974, o país ainda competia com o nome de Zaire, perdeu as três partidas e deixou o torneio sem balançar a rede.
Nascido na França e filho de congoleses, Wissa, de 29 anos, teve uma trajetória distante das linhas retas normalmente percorridas pelos grandes atacantes. Começou a jogar futebol como goleiro, aos sete anos, passou pelo meio-campo e só depois foi deslocado para posições mais ofensivas. Também praticou rúgbi antes de decidir, por volta dos 15 anos, concentrar-se exclusivamente no futebol.
Revelado pelo Châteauroux, iniciou a carreira profissional no clube e passou por Angers, Laval e Ajaccio antes de se firmar no Lorient. Foi campeão da segunda divisão francesa na temporada 2019/20 e, em 2021, transferiu-se para o Brentford, onde construiu sua reputação no futebol inglês.
Rápido, forte e capaz de atuar tanto pelos lados quanto centralizado, Wissa tornou-se uma das principais armas ofensivas do Brentford. Em sua última temporada pelo clube, marcou 19 gols na Premier League e formou com Bryan Mbeumo uma das duplas mais produtivas do campeonato. Também se tornou o primeiro jogador da República Democrática do Congo a superar a marca de dez gols em uma mesma edição da liga inglesa.
O desempenho levou o Newcastle a contratá-lo em setembro de 2025. A primeira temporada, porém, foi prejudicada por uma lesão no joelho sofrida enquanto defendia a seleção, que adiou sua estreia pelo novo clube e impediu que repetisse imediatamente o nível alcançado no Brentford.
Pela seleção congolesa, Wissa estreou em 2020 e ganhou protagonismo na campanha da Copa Africana de Nações de 2023, disputada no início de 2024. Marcou dois gols, auxiliou a equipe a chegar às semifinais e foi incluído na seleção ideal do torneio. Versátil, costuma jogar como ponta-esquerda, segundo atacante ou centroavante, combinando velocidade para atacar os espaços, força física e intensidade na pressão sobre a saída adversária.
Fora de campo, é descrito como acessível, humilde e próximo dos torcedores. No Congo, recebeu o apelido carinhoso de Kovo, “o Careca”. A imagem combina com a maneira direta como costuma falar sobre a própria carreira.
— A verdade é que não sou o cara mais talentoso. O que me faz avançar é que adoro trabalhar duro. E acho que não estou indo tão mal — afirmou certa vez.
Diante de Portugal, ele foi bem além. O garoto que um dia precisou recorrer ao Facebook para pedir uma oportunidade tornou-se o primeiro jogador a marcar pelo Congo em uma Copa do Mundo.

